Em ‘King’s Disease’ Nas entrega protesto, romantismo e caminha entre o poder e a fragilidade

Capa do álbum. Foto: Divulgação

Eagosto, mais precisamente no dia 21/8, o rapper Nas lançou mais um álbum, o 13º álbum oficial com faixas inéditas. King’s Disease veio depois do álbum ‘Nasir’ (2018) e da compilação ‘The Lost Tapes 2’ (2019). Antes de qualquer avaliação já adianto – sou fã do Nas, passo pano mesmo pra sua carreira musical, principalmente em relação aos que criticam sobre suas escolhas de produtores e instrumentais, muitos julgam que ele tenha errado em escolhas. Na verdade, acredito eu, Nas é cobrado e será assim eternamente, por conta do ‘Illmatic’. O seu primeiro álbum nasceu como clássico, ele começou com a régua lá em cima, e aí as comparações sempre serão injustas.

No decorrer da carreira Nas teve o privilégio de trabalhar com os principais produtores de Rap, ele rimou em instrumentais de todos os caras que são considerados os melhores de todos os tempos. E ao mesmo tempo, todos esses produtores tiveram o privilégio de ter as suas músicas e os seus nomes ligados a um dos rappers mais originais, autênticos e que traz em suas rimas a essência da música da quebrada. Nasir é um poeta do gueto, suas letras são “literarua”, poesia marginal, ideias que tranquilamente poderiam ser faladas, interpretadas ou declamadas em slams e saraus periféricos.

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Sobre a escolha do produtor, é preciso lembrar que eles já trabalharam juntos e que os planos de um álbum da dupla não é algo recente. Alguém aí curte vários trampos do Hit-Boy? Coloca ele em alguma lista de 10 melhores dos últimos anos? Então pra mim é assim, se ele anuncia que vai lançar um álbum produzido por esse mano, no meu caso a expectativa em relação a instrumentais que eu vá curtir é zero, pois não está entre os meus preferidos. Mas ainda assim, como eu já disse, passo pano mesmo. O “garoto dos sucessos” entregou o trabalho de acordo, demonstrou muita coerência e uma conexão que talvez o Nas não tenha hoje com nenhum outro produtor. É o disco de número 13 da carreira, com 13 faixas e nenhuma delas muito longas, apenas 7 delas tem mais de 3 minutos.

O rapper Nas. Foto: Reprodução/Google

Seguindo a tradição, ele abre o disco com uma apresentação, a faixa título, “Doença dos reis”, uma referência ao que no Brasil conhecemos como “gota”. A imagem da capa, com muita comida abaixo do trono, é uma clara referência a gula e a mensagem a ser passada pode ser ambígua, aberta a interpretação. Uma delas – você pode ser um rei, mas os prazeres da carne podem te derrubar e trazer, entre tantas coisas boas, uma doença. Destaco uma parte da letra bem relevante – “a parte mais estúpida da África produziu negros que começaram a álgebra / prova, fatos, imagine se você soubesse disso quando criança”. Esse tipo de referência é muito comum em suas letras sobre autoestima, ele cita fatos históricos, comprovados, da riqueza e importância da África para a humanidade. Lembre disso quando falar nos tão populares, hoje em dia, algoritmos.

A segunda música é “Blue benz”, outra referência presente em várias letras dele e deu pra perceber que ele resgata nessa música alguns fatos da sua trajetória, citando momentos e pessoas. Inclusive as falas adicionais que foram usadas são do filme ‘Belly’ (1998), que ele participou. Em “Car #85”, com refrão cantado por Charles Wilson, ele fala sobre o uso de um serviço de táxis mais caro, muito usado por traficantes nos anos 80 em Nova York, o tal “carro 85”. Em uma das passagens, ele que é do Queens utiliza o serviço para visitar uma garota no Bronx, o que mostra muita coragem e a vontade de realmente encontrá-la. Até agora o único single é a faixa “Ultra black”, lançada exatamente uma semana antes do álbum (14/8/20). Ótima música, essencial para o álbum e mais ainda para o momento atual, Hit-Boy participa dessa.

Confira o vídeo do single “Ultra black”

O já citato ‘Illmatic’ foi lançado em abril de 1994, portanto antes do verão, que começa em junho nos Estados Unidos. De lá pra cá foram 27 verões, por isso talvez o título da música “27 summers”, uma das mais fraquinhas e a mais curta do álbum, um interlúdio. A romântica “Replace me” traz Big Sean nas rimas e o refrão cantado pelo texano Don Toliver foi descaradamente feito com a mesma melodia da faixa “Trip”, da inglesa Ella Mai. Em “Til the war won”, com Lil Durk, o reconhecimento a força das mulheres negras, pedidos de mais respeito e todo reconhecimento às mães, filhas, irmãs e companheiras, tudo isso com um piano sampleado da música que vou deixar aqui no post.

Confira o piano utilizado na faixa “Til the whar won”

Ele volta ao romantismo, em “All bad”, falando o português claro, volta pra sofrência, no refrão Anderson .Paak, som pra pista, quando novamente pudermos ir pra pista. Por parte do Hit-Boy uma sintonia total com as rimas, o refrão, a letra e de acordo com o povo da fofoca, a letra parece se referir ao romance que ele teve com Nick Minaj. Em “Definition” ele está em estado bruto, duro nas rimas, atacando quem usa dois pesos e duas medidas quando homens negros e brancos erram, nas citações ele volta ao título do álbum e fala sobre a “gota”, doença dos reis ou de homens ricos, mas que você não precisa ser rico para ser vítima da doença. A música tem participação de Brucie B. fazendo uma apresentação, não tenho certeza, mas creio que seja o DJ do Bronx, lendário e reconhecido por sets clássicos e por suas mixtapes.

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Em “Full circle” acontece a reunião de um dos maiores fracassos financeiros na carreira do Nas, o grupo The FirmAZ, Foxy Brown, Cormega (que no álbum do grupo ficou de fora) e o responsável pelo lançamento, Dr. Dre. Em “10 points”, “The cure” e “Spicy” (faixa bônus) é Nas na sua essência mais uma vez, rimando sobre prosperidade, ajudar os seus e tudo mais, citanto Jordan, LeBron e até ele mesmo e seus investimentos na sua própria quebrada. No final das contas, o disco é bom, estamos falando de um dos poucos rappers do anos 90 que ainda está em atividade e em alto nível. Nasir é referência, acredite, ele é o rapper favorito do seu rapper favorito. E sobre o produtor, como disse não é dos meus preferidos, mas cumpriu bem sua missão. Claro que eu iria preferir um disco todo com DJ Premier, com Pete Rock ou quem sabe com Erick Sermon, mas nesse momento a sintonia entre Nas e Hit-Boy se mostrou ser a melhor opção.

Ouça o álbum completo

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DEP Design & Criação

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