Os cortes, a crise e a responsa do Hip Hop

É preciso que se compreenda a diferença brutal existente entre o verdadeiro liberalismo econômico e o falso liberalismo, assassino, que está sendo implementado no Brasil

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Está mais do que na hora do Hip Hop acordar. Assim como na década de noventa – e anos anteriores -, o Brasil segue um rumo de destruição. A política econômica do governo atual, de Jair Bolsonaro, segue a risca os mesmos preceitos. É o liberalismo. Mas não um ‘liberalismo raíz’, disposto a diminuir a influência do Estado na economia, mas com responsabilidade, e disposto a resolver os problemas da sociedade, mas um liberalismo cruel, explorador e desumano.

A minha proposta aqui é esclarecer um pouco sobre o momento que passamos

Sei que estes são assuntos chatos: política e economia. Mas peço paciência e alguns minutos da sua atenção. É preciso que todos nós, que temos alguma relação com a Cultura Hip Hop – historicamente uma contra-cultura, que defende o povo mais humilde e necessitado desde sempre -, saibamos o que está acontecendo. A minha proposta aqui é esclarecer um pouco sobre o momento que passamos. Em algumas frase e palavras colocarei links (em azul), para que você possa comprovar o que estou dizendo.

Manchete da época. Foto: Reprodução/GGN

Tudo começou com o tal projeto “Ponte para o Futuro”. Você lembra? Este é um projeto que foi entregue a então presidenta Dilma Rousseff pelo seu vice-presidente, Michel Temer. Acho que o ano era 2014. O projeto previa o envio para aprovação, na Câmara e no Senado, de um Projeto de Emenda Constitucional (PEC), chamada PEC de Contingenciamento ou PEC do Teto. Sua premissa era a de limitar os “gastos” do Estado por 20 anos. Cortes em diversos setores. Praticamente um congelamento de investimentos. Dilma não aceitou.

Michel Temer chegou até a admitir, numa entrevista para TV, que foi dito a Dilma que se ela aceitásse tocar esta PEC, permaneceria no poder. Ela não aceitou e deu no que deu. Algum tempo depois, acompanhamos seu impeachment e deposição. Não vou aqui analisar este processo, por demais duvidoso. Estou pincelando a história pra que a gente possa compreender melhor o que acontece hoje.

Gráfico da Globo.com mostra claramente o efeito da PEC do Teto, com uma queda gigante no investimento em serviços públicos. Enquanto isto a população aumenta e a demanda por serviços também. (Clique na imagem para ampliar)

O fato é que Dilma foi derrubada e a PEC do Teto aprovada. Hoje estamos colhendo os primeiros frutos dela, com Estados e Municípios enfrentando cortes de verbas significativos e passando por dificuldades imensas.

Mas porque aprovar uma PEC como esta? Os políticos que a lançaram argumentam que um país não pode “gastar” mais do que arrecada e dão como exemplo o orçamento familiar, dizendo que todos nós vivemos assim: controlamos os nossos gastos, para que não ultrapassem o que temos como renda. Neste último caso, o familiar, podemos considerar plausível o argumento, mas quando o assunto é um país, eu afirmo: este argumento é errado e completamente mentiroso.

Primeiro um esclarecimento: eu uso a palavra “gastos” entre aspas, com relação a países, por uma razão óbvia. “Gastos” em educação, saúde, formação de frente de trabalho, segurança, etc, não são gastos, são investimentos.

A Coréia do Sul cresceu investindo em frentes de trabalho em diversas áreas. Cortar gastos, não resolve. A solução é investir. (Clique na imagem para ampliar) Foto: Slide Player

Continuemos… Todo país do mundo gasta mais do que arrecada. É normal. É natural. Até porque a população de qualquer país está sempre crescendo e, portanto, a demanda por serviços também. Então, não há como você congelar “gastos”. É preciso investir, investir e investir. É sabido, pela história da humanidade e por diversos exemplos vindos de outros países, que em momentos de crise e/ou recessão (crise aprofundada), é preciso que o Estado invista pesado. Os maiores exemplos que me ocorrem agora são China, Coréia do Sul e Japão. A Alemanha pós-segunda guerra mundial também pode servir como exemplo. Todos estes países, quando em meio a crises econômicas pesadas, investiram muito. Em especial na formação de frentes de trabalho, pois geram emprego e renda, fundamentais para fazer a roda da economia voltar a girar com maior rapidez. Algo imprescindível para que saiamos de momentos de recessão. Pesquisem e vocês comprovarão o que estou dizendo.

A PEC do Teto é, sem sombra de dúvidas, a grande vilã da atualidade brasileira. É ela quem vem destruindo, literalmente, Estados e Municípios

Resumo da ópera: a PEC do Teto é, sem sombra de dúvidas, a grande vilã da atualidade brasileira. É ela quem vem destruindo, literalmente, Estados e Municípios. Mas porque? Qual a intenção disto? A principal intenção é o sucateamento do Estado, em todos os níveis: federal, estadual e municipal. O objetivo não é um Estado mínimo liberal, verdadeiramente, mas um desmonte completo de todo o Estado, de todos os serviços públicos – da educação, passando pela saúde até a segurança.

O que isto acarreta está mais do que notável. A sociedade fica num estado de revolta. Você não tem acesso a educação gratuita de qualidade, você não tem mais acesso a saúde, você não tem mais segurança nas grandes metrópoles. Você se vê imerso no caos. E então chega o momento do governo Jair Bolsonaro vir com a solução: privatizações. Aí está o fio da meada, o cerne de tudo o que estamos vivendo. A entrega do Estado brasileiro a empresas privadas e ao mercado financeiro especulador.

Veja bem, eu não estou dizendo que antes de Jair Bolsonaro, o Brasil não tinha problemas na educação, saúde, etc. Tinha, é óbvio. Mas a situação era muito, muito melhor. Importante pontuar isto.

Observem países da Europa, como Dinamarca e Noruega (assista ao curto vídeo abaixo), que possuem economias liberais, mas, ao mesmo tempo, mantém o Estado forte e atuante, em especial no que tange energia, educação e saúde.

Conheça um pouco sobre a realidade do Estado na Noruega e compreenda a grande diferença entre o verdadeiro liberalismo econômico e o falso liberalismo que está sendo implementado no Brasil pelo governo Bolsonaro

Outra lance. Você já notou que, em momentos de crise, a maioria dos políticos liberais brasileiros – que não são liberais nem aqui, nem nos Estados Unidos (pra não usar a China) – focam suas ações na segurança? A mídia tradicional só noticia sobre a violência diária. Crimes, assassinatos, chacinas, roubos, assaltos a mão armada. Parece que a intenção é manter a sociedade num estado de temor, de medo constante. E é! É assim mesmo. É estratégico para os governantes. Eles desviam a sua atenção e preocupações para a segurança, enquanto sucateiam completamente os setores da educação e saúde. E você sabe: a educação é a maior ferramenta que temos para acabar com a violência e o crime. Você sabe disto, tenho certeza. Mas isto é assunto pra outro texto.

Atuemos no nosso cotidiano, na nossa rua, bairro. Esclareçamos as pessoas no trabalho, na escola, no ponto de ônibus, no banco, seja onde for. Precisamos agir. Precisamos esclarecer…

Fica aqui a esperança de que nossos artistas, em todos os elementos, acordem para o que está acontecendo no país e usem a arte para denunciar e alertar o povo. Precisamos de forma urgente, esclarecer o povo. Depois mobilizar, para então agirmos.

Temo pelo futuro do nosso Brasil. Um Estado mínimo, como querem os verdadeiros políticos liberais, até é possível, mas não da forma como está sendo realizado no Brasil. Eu sou contra Estado mínimo. Também sou contra o “Estado máximo”. O equilíbrio é sempre a chave.

Atuemos no nosso cotidiano, na nossa rua, no bairro. Esclareçamos as pessoas no trabalho, na escola, no ponto de ônibus, no banco, seja onde for. Precisamos agir. Precisamos esclarecer…

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