Falando de pertencimento, Sampa the Great lança o disco ‘The Return’

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Capa do álbum

Após lançar duas mixtapes elogiadas pela crítica (que muitos também chamam de EPs) e conquistar o Australian Music Prize, Sampa the Great apresenta “The Return”, seu primeiro álbum. Como todo artista negro que está inserido no mundo da música pop e enfrenta a diluição da cultura de rua com suas experiências, Sampa, assim como o brasileiro Edi Rock, faz um retorno às suas origens em “The Return”.

Sampa já é conhecida na cena alternativa por sua forma singular de encadear suas ideias sobre ser mulher no rap e fora dele, entre outros assuntos. No passado, a pequena estudante Sampa Tembo foi desencorajada a entrar no hip-hop pelos seus colegas da escola. O motivo: ser uma menina.

Em 1989, aqui no Brasil, Sharyline já rimava algo neste sentido: “Disseram então que eu não poderia cantar/ Que para outros grupos eu era 13 de azar”, canta a cantora na música “Nossos Dias”, que saiu na coletânea “Consciência Black”. Como nossa pioneira do rap brasileiro, Sampa não desistiu e teve certeza de que o rap era a sua arte quando lançou “The Great Mixtape”, em 2015.

De lá para cá, até o lançamento do disco “The Return”, são histórias de muito estudo, arte, mixtapes, singles e dedicação da MC, poeta e compositora que nasceu na Zâmbia e, antes de estudar nos EUA e na Austrália, foi criada em Botsuana . Sampa fez sua graduação em engenharia de áudio em Sydney.

“Austrália é o lugar onde eu comecei na música profissionalmente. Percebi que chegaria a um ponto em que as pessoas não se importariam muito com o local onde nasci ou cresci ou com a história por trás disso”, diz Sampa the Great sobre as origens de seu primeiro disco.

Para a rapper, havia a necessidade de fazer um trabalho com essa temática de retorno para sua própria narrativa em relação à sua história, e não sentir que há uma separação entre quem ela é, de onde ela é, onde está e onde trabalha.

“Como estou em um local diferente do de onde sou, havia uma sensação de saudade de casa e não me permitia me contentar com o lugar em que estou na minha carreira. Coisas incríveis aconteceram e eu fiquei tipo: ‘sim, isso é louco, mas eu quero ir para casa’, explica a artista.

Sampa voltou a questão das raízes no site The Guardian, a rapper disse que as pessoas estavam a rotulando como hip-hop australiano sem terminar a frase – ‘da Zâmbia, com sede na Austrália’. “Eu tive a sensação de estar perdida nessa narrativa porque não estava descrevendo completamente quem eu sou”.

Para colocar pra fora todos estes sentimentos, a rapper compôs 19 faixas com produções ousadas. O primeiro álbum de Sampa tem beats densos e carregados de soul, jazz, afrofuturismo e o principal: a sensação de pertencimento em cada letra, cada compasso.

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Juntando elementos para sua afirmação, a cantora convocou uma série de colaboradores e colegas para criar o álbum. Mixagens ficaram a cargo de Jonwayne  (Stones Throw), MsM (Skepta e Boy Better Know) e Andrei Eremin (engenheiro indicado para o Grammy). As produções ficaram a cargo de Silentjay e Clever Austin. Ecca Vandal e o coletivo de jazz de Londres, Steam Down, também participam do disco.

“The Return” pode ser considerado um dos melhores discos de 2019, pois, querendo ou não, vai além da música. É um álbum de posicionamento político e racial num momento em que mais precisamos disso. Pois, como disse recentemente Elza Soares, que também lançou hoje o disco “Planeta Fome”, “botaram Lexotan na água do povo. Está todo mundo calado […] Hoje, está todo mundo com medo de falar. É por isso que uso minha voz, para falar o que se cala.”

Ouça o álbum

*Fotos por Barun Chatterjee

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