Editorial: As eleições de 2026 e a ameaça ao futuro da política cultural
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Dez anos de políticas que marcaram o desmonte e a retomada do setor com um novo olhar que impacta a vida dos cidadãos brasileiros
Desde de 1999 na cena hip hop, o Bocada Forte acompanha a política cultural brasileira. O período entre 2016 e 2025 revela um padrão que ajuda a projetar impactos concretos sobre a periferia, os grupos historicamente excluídos e expressões como o hip hop em um cenário de vitória da extrema-direita nas eleições parlamentares, estaduais e presidenciais.
O ciclo começa em 2016, quando o governo Michel Temer extingue o Ministério da Cultura logo após assumir. A rápida recriação do MinC, pressionada por mobilizações do setor, não anulou o sinal político emitido. A cultura passou a ser tratada prioritariamente como ativo econômico, vinculada à lógica da economia criativa e à capacidade de gerar retorno financeiro.
Essa abordagem, embora não exclua formalmente as periferias, desloca o foco do direito cultural para a lógica de mercado, que historicamente favorece produtores com maior estrutura, acesso a patrocinadores e capacidade de captação.
Grande parte dos integrantes do hip hop raramente se encaixa nos critérios de rentabilidade exigidos pelo mercado de patrocínio. Quando o Estado reduz seu papel indutor e mediador, essas expressões tendem a ser empurradas novamente para a informalidade ou para a invisibilidade institucional.
A partir de 2019, no governo de Jair Bolsonaro, o processo deixa de ser indireto e assume contornos explícitos. O rebaixamento do MinC a secretaria especial, a fragmentação administrativa e a sucessão de gestores sem experiência na área comprometeram a capacidade do Estado de formular, executar e acompanhar políticas culturais.
Para a periferia, isso significou o enfraquecimento de programas voltados à cultura de base comunitária. Com a extrema-direita ditando as regras, o discurso da chamada “guerra cultural” atingiu diretamente linguagens associadas às periferias urbanas, às juventudes negras e às identidades dissidentes, sendo consideradas ameaças morais e ideológicas. Esse enquadramento orientou decisões administrativas, censuras e descontinuidade de ações públicas.

Durante a pandemia, os efeitos desse desmonte ficaram ainda mais evidentes. O veto presidencial à Lei Aldir Blanc e à Lei Paulo Gustavo afetou diretamente trabalhadores da cultura periférica, muitos deles fora dos circuitos formais e sem acesso a redes privadas de financiamento. A posterior aprovação dessas leis pelo Congresso permitiu que recursos chegassem a coletivos de hip hop, casas de cultura, grupos de dança, batalhas de rima e projetos audiovisuais independentes, mas sem coordenação nacional e com grandes desigualdades regionais.
DESMONTE
Estudos do Ipea apontam que o desmonte das políticas culturais não pode ser explicado apenas por restrições fiscais. Ele se articula a uma agenda de valores que ataca a diversidade cultural como princípio. Para a periferia, isso significa a negação do reconhecimento institucional de suas formas de vida, de suas estéticas e de suas narrativas.
O hip hop é um exemplo emblemático. Sem políticas públicas, o rap, o graffiti, o breaking e o DJing ficam ainda mais dependentes de plataformas privadas, algoritmos e lógicas de consumo que tendem a homogeneizar conteúdos e esvaziar discursos críticos.
Com a recriação do Ministério da Cultura em 2023, houve uma tentativa de reverter esse cenário. A retomada do diálogo com a sociedade civil, a reconstrução do Sistema Nacional de Cultura e a elaboração de um novo Plano Nacional de Cultura abriram espaço para recolocar a periferia no centro da política pública. A valorização das matrizes afro-brasileiras e indígenas, prevista no plano, dialoga diretamente com a história do hip hop e com sua função social nos territórios.
Ainda assim, os limites permanecem. O orçamento reservado para a cultura em 2026, estimado em R$ 3,25 bilhões, ocorre em um contexto de disputas intensas no Congresso. A dependência crescente de emendas parlamentares fragmenta a política cultural e enfraquece ações estruturantes voltadas às periferias, substituindo estratégias de longo prazo por iniciativas pontuais e descontinuadas.
RETROCESSO
Nesse contexto, uma eventual vitória da extrema-direita representa mais do que a redução de verbas. Ela aponta para a retomada de um projeto político que questiona a legitimidade da cultura periférica como política de Estado. Isso inclui o enfraquecimento de conselhos, a desmobilização da participação social e a reedição de discursos que associam expressões culturais das quebradas à desordem, ao crime ou à doutrinação.
Menos recursos, menos espaços institucionais, menos reconhecimento simbólico e maior exposição à criminalização. Isso significa o risco de um retorno forçado à margem, após anos de disputa por legitimidade cultural, educacional e política.
Políticas culturais não são neutras. Elas definem quem pode produzir, circular e permanecer no espaço público. Em um cenário de retrocesso institucional, periferias e culturas urbanas populares costumam ser as primeiras a sentir os efeitos pela escassez de recursos e pela perda do direito de existir como sujeitos legítimos da política cultural brasileira.
Neste ano, devemos reafirmar os princípios do hip hop e alertar aos nossos sobre o perigo de eleger políticos que discursam e atuam contra os interesses da grande massa pobre e trabalhadora.

OUÇA: Desarticulando a Mente Humana Remix 2.0 – 2ladujazz



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