Neura das Gangues – Parte 1

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As vezes é difícil acreditar que a maioria dos meus amigos passou dos quarenta anos. Foram tempos complicados pra quem viveu nas vilas. A violência era uma constante. Estávamos sempre brigando. Era na escola, na rua, no campo, nas festas. Existia uma necessidade de autoafirmação. Queríamos ser respeitados, queríamos marcar território, queríamos um lugar de destaque e o único caminho aceitável, que a gente conhecia, era a violência.

O início dos anos noventa foram de revoltas gigantes. Periferias lotadas. As invasões eram de grandes proporções. Na região metropolitana de Porto Alegre, bairros como Guajuviras, Vila Sapo, Santa Izabel, eram lugares tomados por famílias que buscavam um lar. Essas pessoas vinham de outros lugares, bairros distantes, com hábitos e costumes diferentes. E agora estávamos todos morando no mesmo “Quilombo” e, assim como em Palmares, a comunicação era muito complicada. Cada rua com seu jeito de pensar, com sua gíria particular. O Brasil vivia um momento tenso, pós-ditadura, sem um governo definido, sem políticas públicas, sem assistência aos mais necessitados. Éramos invisíveis, logo as diferenças começaram a surgir e junto com elas uma violência desenfreada tanto por parte dos moradores, mas principalmente por parte da polícia.

Cartaz do filme ‘The Warriors’. Foto: Reprodução/Google

A juventude estava perdida. Ninguém sabia lidar com a gurizada que ficava em casa para que os pais trabalhassem. Queríamos ter tudo que aparecia na TV: a melhor calça, o melhor estufão (jaqueta), o melhor par de tênis. Nossas carteiras eram cheias de papel ou fita-cassetes. Essa era a moda. Apesar de tudo, ninguém sabia brigar, era tudo no mata-cobra. Existiam academias, mas só pra gente de grana. Na vila quem queria se defender olhava revista do Bruce Lee ou os filmes de gangues americanas que rolavam na madrugada na TV aberta. “The Warriors” era um clássico, mas era antigo. A gente queria algo mais próximo da nossa realidade. Por isso a gente fazia uma vaquinha e alugava uns filmes: “Colors: as cores da Violência”, “New Jack City”, “Fresh”, “Boyz n the Hood”. Esses eram os filmes que nos alimentavam. Era a nossa realidade estampada na tela.

Nas vilas a justiça sempre foi cega, surda e muda. A polícia militar era abusiva, pior que hoje. Na época não existia Internet, nem celulares que gravassem vídeos. A polícia sumia com a gente sem dar explicação pra ninguém

Cartaz do filme ‘Colors’. Foto: Reprodução/Google

Com o passar do tempo começaram a surgir as primeiras gangues, seja pra defender a rua ou mesmo pra brigar nos finais de semana. Gangues praticavam um tipo de política territorial e alguns, com tendência a liderança, assumiam. Assim surgiam gangues todos os dias. Eu não participava de nenhuma, até que um dia a chapa esquentou pro meu lado. A primeira vez que me envolvi num treta grande foi no bairro Harmonia, lá tinha a gangue do Seco. Essa gangue era bem conhecida: Bicudo, Seco, Dentinho, Bill, Marrom e o Perna. Eles viviam aprontando.

Nas vilas a justiça sempre foi cega, surda e muda. A polícia militar era abusiva, pior que hoje. Na época não existia Internet, nem celulares que gravassem vídeos. A polícia sumia com a gente sem dar explicação pra ninguém. Era uma etiqueta no pé, e se ninguém reclamasse o corpo em sete dias tu era enterrado como indigente. Mas antes que o papo comece a ficar deprê, vou contar como e porque resolvi entrar pra uma gangue.

Minha mãe era empregada doméstica e às vezes ganhava roupas da patroa dela. Um dia ela ganhou um par de tênis, que o filho da mulher não gostou, minha mãe chegou em casa com aquele tênis novo e disse pra gente: “- É de quem servir e não quero choro”.

Meu irmão do meio sacou que era maior que o pé dele, mas eu sabia que era pra mim. A mãe quando queria me fazer alguma uma surpresa, sempre dava uma piscadinha, acho que mais ninguém sabia do nosso segredo.

Experimentei. Ficou justo! Naquele final de semana fui numa festa, às 16h, no salão Paroquial, no bairro Harmonia. Tinha um cara que era conhecido pela violência, o Dentinho. Ele era da gangue do Seco. Mano, o cara era foda. Me falaram que uma vez ele discutiu com um cara por causa da fumaça do churrasco. Na calada da noite, Dentinho colocou fogo na casa do cara, com a família dentro. Ele era sangue frio, mas também falavam que na mão ele era uma “barbada”. Por outro lado, ele tinha um revolver calibre vinte e dois e isso fazia muita diferença.

Dentinho chegou no salão paroquial e todo mundo se ligou, menos eu. Bem guri, só queria dançar com meu Adidas Maraton azul com amarelo, novinho. Algumas gurias vieram dançar comigo e foi assim que chamei a atenção do Dentinho. Quando ele viu o Maraton começou a me rodear. Até que alguém me disse pra ir embora. Pra não perder o tênis, larguei da festa, só que o demônio do Dentinho veio atrás.

Poucas vezes na vida eu corri de uma briga e aquele dia não foi diferente. O problema é que o Dentinho tinha a porra do vinte e dois. E assim que me alcançou deu merda.

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Chegou falando alto com a mão na cintura. Logo que se aproximou de mim, sacou a arma. Naquele momento percebi duas coisas (sei que muitos não vão acreditar): quando apontou a arma pra mim, desconfiei que não tinha balas. A segunda coisa, foi que ele era baixinho. Tudo bem, eu conhecia baixinhos bem invocados na vila, mas o Dentinho não era como o Vandi, por exemplo. Vandi era o baixinho mais forte que tinha na vila, não só ele como os irmãos dele também. Dentinho, perto do Vandi era fichinha, mas ainda tinha uma arma.

Coisa de guri. Poderia ter corrido, poderia ter morrido. Não faria isso hoje, mas no dia fiz. Fazer o que? Foda-se. Dentinho apontou a arma e disse:
“- Aí meu, tira o tênis”.
– Não vou tirar, eu falei.
“- O que, seu filho da puta? Tira a porra do tênis senão quiser tomar um tiro na cara.”

Meu corpo todo tremia, mas não seria desta vez que perderia meu único tênis.
– Não vou tirar, repeti.

Se formou uma roda. Todos conheciam o Dentinho. Ele era da gangue do Seco, mas ninguém sabia quem eu era, além disso estava no bairro errado. Foi quando ele encostou a arma no meu peito.
“- Tira a porra do tênis.”
– Não vou.
Foi aí que veio aquela voz:
“- Bah, vai aceitar, Dentinho?”

Sempre tinha um corno pra meter pilha, e a galera começou a meter uma pilha violenta. Ele me deu com o cano do revólver na cabeça. Na terceira batida escorreu sangue pela testa.
“- Tira o tênis.”
– Não.

Eu quase chorando de dor, segurei firme. Com o passar do tempo a gurizada já tava pelo tiro e o corpo jogado no chão.
“- Dá-lhe um tiro na cara desse merda!” – disse um cupinxa dele.
Até que um alguém gritou na esquina.
“- Vamo larga! Tá vindo os home.”
Dentinho, olhando na minha cara, com ódio, me disse:
“- Se falamo.” E saiu correndo.

Respirei aliviado. Agradeci ao Fernando por ter me ajudado. Na volta pra casa, com a camiseta lavada de sangue e uma puta dor de cabeça, pensei: tá na hora de entrar pra uma gangue. Vai ter volta. Olho por olho, dente por dente. Foi o melhor trocadilho que me veio à cabeça. Quando entrei em casa, a mãe tava tomando um chimarrão, levou um susto quando me viu daquele jeito. Ela levantou, olhou minha cabeça, limpou o sangue do meu rosto e me disse: “- Meu filho, o que aconteceu? Meu Deus, olha pra ti, Antônio.”

Ela só me chamava de Antônio quando estava puta comigo ou muito preocupada.
“- Foi por causa dessa merda de tênis?” Ela questionou.

Tentei acalma-la, com medo de perder o tênis e respondi:
– Não mãe, foi porque eu danço bem.
“- Ah, entendi! Te avisei que dançar não era a tua.”

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