Festival Batuque 2019 | Ghostface Killah foi a atração na ‘festa de final de ano da firma’

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Flyer do evento (clique para ampliar)

No último final de semana, dias 7 e 8 de dezembro (sábado e domingo), ocorreu no SESC Santo André, em São Paulo, mais uma edição do Festival Batuque. Antes de falar do que rolou, é preciso voltar um pouco no tempo e lembrar que este evento faz parte de uma sequência de shows com atrações internacionais, que começou há 20 anos atrás, em 1999 nos SESCs Belenzinho e Itaquera. Até se firmar como o que conhecemos hoje, foram 10 anos, 5 nomes diferentes, sem contar as Mostras de Filmes de Hip Hop e outros eventos organizados pela mesma equipe.

Começou Dulôco (1999), foi Hip Hop Experience (2000/SESC Pompéia), SP Rima Com Paz (2001/SESCs Belenzinho e Itaquera), Nos Porões do Hip Hop (2002), Indie Hip Hop (de 2003 a 2009) e finalmente Festival Batuque (2010 a 2019). Desde 2002 o evento passou a acontecer sempre no SESC Santo André, em dezembro, aos sábados e domingos. Em São Paulo ficou popularmente conhecido como “a festa de final de ano da firma”.

O Bocada Forte teve algum representante de sua Equipe em todas essas edições, seja fazendo a cobertura ou apenas curtindo. A partir de 2004 a Equipe do BF, naquele momento, teve um papel fundamental nos rumos que o evento tomou, já como Indie Hip Hop. Não cabe aqui toda a história, mas o BF nos seus 20 anos foi responsável por promover muitos encontros, um deles influenciou definitivamente o Indie e o Batuque. Em uma matéria que outras pessoas fizeram sobre o assunto, o BF não é mencionado, mas eu entendo, pois escolhemos ficar nos bastidores. Em julho de 2003 – olha o acaso – em um evento chamado “Do Micro aos fones – Os novos rumos do Hip-Hop”, fizemos uma conexão entre duas pessoas e o Indie Hip Hop ganhou uma grande parceira.

Visão do público no Indie Hip Hop 2004 – Foto Acervo BF

Em 2004, justamente por conta dessa nossa aproximação, conseguimos fazer uma das coberturas mais importantes e completas da história do Bocada Forte e talvez até do Hip Hop Brasileiro – em 11 e 12 de dezembro esse evento completou 15 anos.

O artista principal foi o Hieroglyphics, fizemos entrevista com um integrante um mês antes do show, montamos um especial no site com músicas para download e vídeos (detalhe, ainda não existia YouTube), fizemos a cobertura completa do show, com matéria, entrevista com os integrantes e fotos.

Se não bastasse tudo isso, fizemos o que até então apenas emissoras de TV faziam: filmamos o show e conseguimos publicar no site o vídeo da principal música do grupo, tudo filmado e editado por nós, sem contar o áudio que temos, gravado direto da mesa de som. (confira este especial)

Assista ao vídeo realizado pelo BF

Agora vamos ao que interessa, o Festival Batuque 2019. Infelizmente toda essa importância do site junto ao evento, não valeu de muita coisa, pelo menos para a assessoria de imprensa do SESC Santo André, que por algum motivo que desconhecemos, não liberou o site para fazer a cobertura. Estivemos lá apenas no domingo, mais uma vez graças a produção internacional (mais uma vez ela), que continua nos tratando com respeito e consideração desde 2004.

No sábado os shows nacionais foram de Black Alien,Tássia Reis e Projeto Nave, com apresentação do MC Max B.O e nos intervalos DJ Magrão. Ghostface Killah logicamente fechou os dois dias e já na noite de sábado e madrugada, era possível ver muitas lives, stories e postagens sobre o que aconteceu. A repercussão foi ótima, muita gente elogiando o show do Black Alien, que se apresentou com DJ Erick Jay nos toca-discos, muitos elogios também ao Ghostface e principalmente ao seu DJ, o Technician The DJ.

Xis, Dory, Thaide e DJ King – Foto BF

No domingo, algumas lógicas se inverteram. Pelo menos ao meu ver. O evento foi apresentado pelo MC Espião (Rua de Baixo), com a DJ Vivian Marques nos intervalos. A abertura ficou com Mel Duarte e aí, na sequência, aconteceu o que considero a “inversão”, pois o Xis deveria ter sido o terceiro show. Rincon Sapiência foi o último show nacional da noite, se apresentou apenas com o DJ A.S.M.A (Mista Luba), cantou músicas do novo disco, foi um show morno, até que músicas como “Ponta de lança”, do trabalho anterior, vieram pra meio que salvar a apresentação.

Em comemoração aos 20 anos do disco ‘Seja Como For’, pudemos ver juntos novamente a dupla Xis e DJ King, juntamente com Dory de Oliveira e Tine Black. As principais músicas do disco foram apresentadas e ainda rolou uma participação especial de Thaíde na versão do single da música “Esquina paranoia delirante”. Antes Xis já havia cantado a primeira parte, mas na versão “vb”, quem tem o disco sabe (ouça aqui).

Xis e DJ King – Foto BF

Xis e King é o tipo de dupla DJ + MC que nunca devia ter se separado e para alegria dos fãs estão fazendo diversos shows nesse formato – falei com DJ King e em breve eles vão soltar um vídeo dessa apresentação. Sobre a inversão da lógica que citei acima, é o fato de um artista novo, com um disco recente, aclamado nas redes sociais como um dos melhores do ano por alguns, ao vivo não surtir o efeito esperado. Do outro lado, um artista que está há quase 30 anos no Rap, com um disco de 20 anos atrás, conseguiu que todo mundo cantasse junto praticamente todas as músicas, sinceramente me surpreendeu, não a qualidade do show, pois deles eu já esperava o melhor, mas sim a resposta do público.

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Antes que a principal atração subisse ao palco, encontrei bastante gente, principalmente DJs. Conversamos sobre os shows e principalmente sobre o som. Por algum motivo, nas apresentações nacionais o som estava baixo, dava pra trocar ideia durante as apresentações sem precisar gritar. Como geralmente acontece em eventos com atrações internacionais, quando o gringo vem ao palco a coisa muda.

Já na abertura do show, feita pelo DJ Technician, a diferença no som e o peso dos graves foi nítida, alguns motivos a gente desconfia, mas deixa no gelo. O DJ abriu com uma sequência de clássicos eternos do Rap para só depois Ghostface e o MC Trife Diesel (Trife Da God) entrarem no palco e abrirem com a música “2getha Baby”, do disco ‘Apollo Kids’.

Technician The DJ

Na sequência um freestyle em cima de “Children’s history” do Slick Rick e ai veio só pedrada – “Ice cream”, “Criminology”, “Stay true”, “Supa GFK”, “Biscuits”, “One” e mais um freestyle em cima de “Shook ones” do Mobb Deep. Claro que nem todas as músicas foram apresentadas inteiras. É muito comum emendarem uma na outra, afinal Ghostface é um dos integrantes do Wu-Tang com mais discos solos, então é muita música pra pouco tempo, sem contar as suas participações em outros sons.

Não parou por aí. Continuou com “We made it”, “Mighty healthy”, “Eye for an eye”, “Smith Brothers” e ai vem aquela improvisada em “We will rock you” do Queen. E aí se seguem alguns covers, participações e freestyles em cima de outros sons “Summertime”, “Killing me softly”, “I got 5 on it” e “Deep cover”. Tudo isto com os graves batendo no peito e então ele retoma seu trampo solo e músicas do Wu-Tang: “Rainy dayz”, “Tearz”, “Shame on a nigga”, “Motherless child”, freestyle em “U don’t know”, e antes do ponto alto, rima a sua participação na faixa “4th chamber” do GZA. O DJ ganha o público de vez. Ele toca “Negro drama”, do Racionais e “Bom senso”, do Tim Maia. Conversei com ele. Falou que iria tocar nos shows algum “pancadão”, mas foi aconselhado por outras pessoas que não seria legal para o público presente. Fez bem em seguir o conselho.

Feita a conquista do público pelo DJ, o show caminhou para o que viria a ser o grande ápice da noite, assim como foi no sábado – e os vídeos compartilhados deixaram muito claro isso. Depois dos clássicos da música preta brasileira, ele voltou com “Da mistery of chessboxin” e então um sonho seria realizado com “Protect ya neck”, um dos maiores clássicos do Wu-Tang. Para a surpresa dos fãs, tanto no sábado quanto no domingo, ele convidou duas pessoas do público para cantarem as partes do Method Man e do Ol’ Dirty Bastard.

Lembrei da edição de 2003 do Indie Hip Hop, em que os MCs Marechal e Kamau fizeram freestyle junto com Chuck D (Public Enemy), que apareceu apenas para curtir o evento. No sábado subiram ao palco Kdaver (Method Man) e Goldman (O.D.B), já no domingo apenas Neto (Síntese), já apelidado de “Nethod Man”, subiu ao palco.

Assista ao vídeo de Kdaver e Goldman rimando no sábado

Sem dúvida foi um dos pontos mais altos do show. Algo inesperado e uma ideia genial por parte do artista. Não pesquisei, mas talvez ele faça isso em outros países também e os fãs do Wu-Tang até já sabiam que isso poderia acontecer.

Pra manter o nível lá em cima, homenagem ao O.D.B e mais Wu-Tang. O show caminha pro final com “Shimmy shimmy ya”, “Got your Money”, “Wu-Tang Clan ain’t nuthing ta f’ wit”, “C.R.E.A.M”, “You (remix)” e fecha com “Triumph”.

O show terminou e todos continuaram ali, tirando fotos, dando autógrafos e vendendo camisetas do Wu-Tang. Foi louco e vale ressaltar a valorização do DJ, não apenas pelo Ghostface, mas também pelo Xis e o Rincon. Os dois melhores shows da noite contaram com a participação fundamental de DJs de verdade, não estive no sábado, mas muita gente comentou sobre o show do Black Alien, que também se apresentou com um grande DJ, um dos melhores do mundo.

Assista ao vídeo do Neto (Síntese) rimando no domingo

Que sirva de lição para MCs ou rappers que insistem em não utilizar DJs de verdade. É triste, mas é preciso usar o “DE VERDADE”, porque infelizmente são inúmeros os casos de manos que usam essa sigla antes de seus nomes, mas não fazem jus a ela. Obrigado mais uma vez a produção por nos permitir estar presente, testemunhar e participar da história. Não rolou entrevista com o Ghostface. Antes de ele chegar já fomos avisados que ele não falaria com a imprensa, mas conseguimos trocar uma ideia rápida com o DJ e o MC Trife. O MC disse que amou o público brasileiro e nos pediu para divulgar seu último vídeo, já com o DJ trocamos uma ideia rápida sobre a sua função na engrenagem do show, suas referências e as músicas brasileiras que tocou. Confira abaixo o vídeo do Trife e a entrevista com o DJ.

Assista ao vídeo “Candyman” de Trife Diesel

Leia a entrevista com Technician The DJ

Bocada Forte: Você já conhecia as músicas brasileiras que tocou no show ou alguém sugeriu?

Technician: As duas músicas que eu toquei, eu não conhecia, eu pedi ajuda. Eu conheci algumas outras músicas quando estive no Brasil antes. Venho para o Brasil acho que desde 2008, talvez 8 ou 9 vezes, toquei em algumas casas em São Paulo, Rio, Curitiba e algumas outras cidades. Eu ia tocar músicas de “Baile Funk”, mas me disseram que é mais popular no Rio.

BF: Infelizmente, muitos grupos de Rap e MCs não valorizam DJs aqui no Brasil. Nos EUA, esse também é o caso, muitos MCs ou grupos não usam DJs em seus shows?

Technician: A maioria dos DJs não está tão envolvida no show, eles praticamente tocam a música e é só isso! Muitos artistas nem têm DJ! Entendo que é uma nova era com a tecnologia, mas ainda gosto de manter a autenticidade usando toca-discos e atuando como DJ.

Bocada Forte: Você é um DJ muito participativo, isso ajuda bastante o MC. Quais são as suas referências, com quem você “aprendeu”?

Technician: Eu acompanho e estudo todos os DJs, mas minha principal influência é o DJ Kid Capri. Eu aprendi muito viajando pelo mundo com ele. Aprendi a presença de palco e como controlar o público. A parte técnica, aprendi e me inspiro muito no meu DJ favorito, Jazzy Jeff. Ele é muito preciso e seu timing é perfeito, os scratches são muito afiados. Também tem o DJ Jaycee de Detroit. Ele já foi DJ do Ludacris e atualmente é DJ do Goodie Mob. Tem também o DJ Koco, do Japão, gosto de DJs bem precisos, afiados e com boa noção de tempo. Também estudei o DJ Premier pelos riscos que ele fez nos discos de Gang Starr e o Pete Rock quando ele estava no programa do Marley Marl ‘In Control’, na WBLS de Nova York, em 1989. Ele estava à frente de seu tempo.

Assista ao DJ em ação em um quadro da Rádio Hot 97

Confira o histórico e atrações internacionais de todas as edições citadas no texto

1999 – Duloco – Afrika Bambaataa & Soul Sonic Force, Common Sense, Grand Master Flash, Jungle Brothers, De La Soul, Zion-I e DJ Spooky
2000 – Hip Hop Experience – Rahzel
2001 – SP Rima Com Paz – Pharcyde e Kid Koala
2002 – Nos porões do Hip Hop – Lyrics Born
2003 – Indie Hip Hop – Blackalicious
2004 – Indie Hip Hop – Hieroglyphics
2005 – Indie Hip Hop – Jurassic
2006 – Indie Hip Hop – De La Soul
2007 – Indie Hip Hop – Pharoahe Monch
2008 – Indie Hip Hop – Talib
2009 – Indie Hip Hop – Mos Def, DJ Mista Sinista e Ken Swift
2010 – Festival Batuque – Femi Kuti
2011 – Festival Batuque  – Q Tip
2012 – Festival Batuque – Deltron 3030, Dan The Automator, Kid Koala
2013 – Festival Batuque – Erykah Badu
2014 – Festival Batuque – Santi Gold
2015 –  Festival Batuque  – Joey Bada$$
2016 – Festival Batuque  – Digable Planets
2017 – Festival Batuque  – Raekwon
2018 – Festival Batuque  – Slick Rick
2019 – Festival Batuque  – Ghostface Killah

*O material de grande parte desses eventos está em nosso Acervo, sendo separado, organizado e aos poucos publicaremos novamente para que todos tenham acesso.

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