Primeira Mostra de Hip Hop e Madlib em SP

Capa do Folder da Mostra – Digitalizado do Acervo BF

Terminou na última quinta-feira (28/07) a 1ª Mostra de Filmes Hip-Hop de São Paulo. Foram sete dias (de 22 à 28/07), em que foram exibidos 6 longas documentários, 3 longas de ficção e 3 curtas. Um total de 12 filmes, divididos em 23 sessões, todas gratuitas!

A Mostra teve uma festa de abertura no dia 21/07 (quinta-feira), no Sesc Pompéia, com a discotecagem do DJ Nuts e a presença do MC, DJ e produtor da Califórnia (E.U.A), Madlib, conhecido por projetos paralelos como Yesterdays New Quintet, Quasimoto e Jaylib. Esse último em parceria com o MC e produtor Jay Dee, que também veio ao Brasil, mas devido a sérios problemas de saúde, precisou voltar às pressas para ser tratado nos Estados Unidos e não pôde se apresentar.

Os ingressos para a festa estavam esgotados três dias antes, cerca de 800 pessoas (capacidade do local) lotaram a Choperia do Sesc Pompéia para ver Madlib cantar, tocar bateria e discotecar. Os ingressos eram vendidos antecipadamente a no máximo R$ 12,00, mas na porta estavam sendo vendidos paralelamente por até R$ 50,00. A vontade de assistir a apresentação era tanta, que algumas pessoas que não conseguiram ingressos invadiram o local durante a apresentação. Isso não gerou nenhum tumulto ou confusão e não interferiu em nada no andamento do show.

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O único incidente, que gerou grande revolta e provocou algum tumulto, foi uma lata jogada por alguém do público, que acabou atingindo Madlib enquanto ele discotecava. A falta de respeito quase custou uma surra em quem atacou, pois Madlib deixou o palco na mesma hora, muito chateado e sem se despedir, nessa hora uma roda formou-se em volta do mal educado, que até queria subir no palco e pedir desculpas, mas já era tarde. Fora isso, tudo correu bem e a grande maioria saiu satisfeita com o que assistiu. Foi um belo começo para a semana que viria, repleta de filmes sobre a Cultura Hip-Hop.

A Mostra

Parte da programação no folder – Digitalizado do Acervo BF

Pela 1ª vez a cidade de São Paulo recebeu uma mostra de filmes totalmente dedicada à Cultura Hip-Hop. Todas as sessões foram realizadas no Cinesesc, com entrada gratuita e praticamente lotadas (a capacidade era de 326 pessoas).

A importância da mostra não se deve apenas ao fato de ser a primeira, mas por exibir filmes inéditos por aqui – com exceção do documentário ‘Freestyle’. Todos os filmes exibidos mostram um pouco sobre a verdadeira história do Hip-Hop e servem para acabar com lendas e mitos muito divulgados em nosso país, já que boa parte dos depoimentos são feitos por quem participou, viveu ou é a própria história.

Algumas pessoas, inclusive eu, sentiram falta de filmes como ‘Wild Style’ e ‘Beat Street’, mas ambos já foram lançados e exibidos no Brasil e por isso ficaram de fora. Mas em compensação muita gente pôde ver pela primeira vez o maior clássico do Hip-Hop, o primeiro filme sobre o assunto, o filme/documentário ‘Style Wars’. Quem foi à Mostra e não assistiu ‘Style Wars’, é como se tivesse visto pela metade, pois assim como Wild Style e Beat Street, ele é referência obrigatória para quem quer saber parte da verdadeira história do Hip-Hop. Para que saber a verdadeira história? Para poder passar nas músicas, na dança, no Graffiti ou através dos discos o que é o Hip-Hop, a sua essência e a sua raiz, entender porque se tornou uma Cultura Universal e o mais importante, para parar de dizer ou escrever coisas sem fundamento. Veja mais detalhes sobre cada um dos filmes:

Longas Documentários

Style Wars (Henry Chalfant e Tony Silver – 1983) – O filme é um clássico absoluto da Cultura Hip-Hop, pois retrata a cena original dos B.boys, MCs e DJs, mas principalmente os Grafiteiros de Nova Iorque no início dos anos 80. Depoimentos importantes de Grafiteiros como Dondi e Seen, considerados os reis do Graffiti naquela época e ídolos de muitos Grafiteiros ainda hoje. Imagens e depoimentos dos B.boys da Rock Steady Crew, ainda garotos. Henry Chalfant é fotógrafo e é o mesmo que lançou, juntamente com a fotógrafa Martha Cooper, o livro “Subway Art”, a “bíblia” da arte do spray. Sem dúvida nenhuma esse documentário de 70 minutos é referência obrigatória para quem quer entender um pouco sobre a Cultura Hip-Hop.
www.stylewars.com

Assista ao Style Wars legendado

Keepintime: A live recording (B+ – 2004) – Esse mostra o show de lançamento do curta “Talkin´Drums & Whisperin´Vynil”, que registrou o primeiro encontro entre lendários bateristas de funk e os DJs Cut Chemist, Numark, Shortcut, J-Rocc, Babu e Madlib. São 53 minutos de performance. Durante a primeira exibição o diretor B+, conversou com o público e fez uma exibição inédita de 10 minutos do “Brasilintime”, com imagens gravadas em 2002, durante o Red Bull Music Academy. Além dos DJs e bateristas de fora do país, tem a participação de bateristas brasileiros e também do DJ Nuts.
www.keepintime.com

Assista ao documentário

Tupac Shakur – Thug Angel (Peter Spirer – 2002) – Tudo que envolve Tupac e sua morte, até hoje gera polêmica e dá muito lucro, se a exibição fosse paga, com certeza muita gente iria assistir da mesma forma. Esse documentário traz imagens inéditas e uma entrevista de Tupac com 17 anos. Muitos depoimentos de amigos e familiares, inclusive do seu padrastro, ex-Black Panther, que está preso até hoje. Quem assistiu pôde ver muitos depoimentos de que definitivamente ele não está vivo, os amigos dizem que jamais ele ficaria quieto por tanto tempo. Tupac foi assassinado aos 25 anos em Las Vegas, quando saia de uma luta de Mike Tyson acompanhado do dono da Death Row, Suge Knight. Sobre esse último, alguns amigos preferem não tecer comentários e dizem que quando Tupac assinou com a Death Row, foi como se tivesse assinado a sua sentença. O filme tem 92 minutos.
www.qd3store.com

Assista ao documentário

Letter to The President (Thomas Gibson – 2004) – Filme narrado por Snoop Dogg, que mostra mais o lado político e reacionário da música Rap nos EUA. A narrativa vai sendo feita à partir de depoimentos de grandes nomes da música Rap, produtores, empresários e jornalistas como, Quincy Jones, Larry Flint e o fundador da The Source. Entre os rappers e MCs estão Dilated Peoples, 50cent, Common, Ice Cube, Chuck D, Ghostface Killah e o cara que roubou a cena, KRS One. São 90 minutos de opiniões diversificadas e muita informação, mostrando que o Rap por lá não é apenas “pimp” e “bling-bling”.
www.qd3store.com

Freestyle (Kevin Fitzgerald – 2004) – É o único da Mostra que já foi exibido por aqui, mas como ainda não foi lançado no Brasil, mais algumas pessoas tiveram o privilégio de assistir esse importante documentário. São muitos depoimentos e batalhas de gente que sabe tudo sobre a arte do improviso. Grandes nomes do freestyle como Supernatural, Juice e Craig D, além de dar depoimentos, fazem rimas e algumas de suas batalhas são exibidas. Uma das imagens mais impressionante, é a que mostra Notorius Big rimando nas ruas de Nova Iorque, na mesma roda que Tupac. Rimam também Mos Def, Pharoahe Monch, Planet Ásia, The Roots e muitos outros. No primeiro dia de exibição o diretor também esteve presente e bateu um papo com o público. O filme tem 72 minutos de muita rima.
www.organicfilms.com

Assista ao documentário

The MC: Why We Do It (Peter Spirer – 2005) – Esse é da mesma produtora de Letter to The President e Thug Angel. Depois do Style Wars, achei o mais importante de todos. Mostra a evolução do MC desde os primórdios e traz depoimentos dos maiores e mais importantes MCs da história. Mais uma vez KRS One rouba a cena e dá uma aula, explicando porque um MC pode ser um rapper, mas um rapper nunca será um MC. Além de KRS, falam ainda Guru, Rakim, Kanye West, Aesop Rock, Common, Slick Rick, Too Short, Q-Tip, Opio, Phife Dawg, Talib kweli, Method Man, Jurassic Five, etc, etc. Excelentes 90 minutos e em boa parte deles KRS One ensinou pra muita gente a diferença entre o rapper e um MC, na teoria e na prática.
www.qd3store.com

Assista algumas partes do documentário

Longas de Ficção

On The Outs (Lori Silverbush e Michael Skolnik – 2004) – Muito bom também, não é um filme de Hip-Hop, na verdade o filme mostra a vida de três meninas que moram em um bairro latino de New Jersey. Suas histórias são bem tristes, uma tem uma filha e é drogada, outra vende drogas, tem um irmão deficiente, a mãe drogada e vive entrando e saindo da cadeia, a última leva uma vida comum, mas se envolve com o cara errado e acaba sendo presa. Por um momento as três se encontram na cadeia. O filme é bem triste e tem 86 minutos, apesar de não ser de Hip-Hop, tem muito Rap na trilha e a realidade mostrada tem muito a ver com o que acontece nas periferias brasileiras.
www.ontheouts.com

Assista ao filme

The Beat (Brandon Sonnier – 2003) – Flip e Cash são irmãos, moram em South-Central (Los Angeles) e correm para ser astros da música Rap. O sonho não se realiza, pois Cash é assassinado e Flip acaba desanimando e tendo que escolher: ou trabalha na polícia, como seu pai ou tenta ser estrela no Rap. A história é bem legal, muito melhor que 8 Mile, assim como o documentário Freestyle, tem muita rima.

Assista o trailer

Bomb The System (Adam Bhala Lough – 2005) – Dos longas de ficção esse é o melhor, sem dúvida. A trilha sonora feita por El-P ficou bem louca e se encaixou perfeitamente nas imagens. O filme conta a história de dois grafiteiros, que foram influenciados por aqueles mesmos do Style Wars, inclusive um dos Grafiteiros das antigas tem uma pequena aparição no filme dando conselhos a um dos atores, quem aparece é Lee Quinones, que fez o papel principal no filme Wild Style. Esse merecia mais do que qualquer outro ser lançado em circuito nacional. São 95 minutos de muita arte, perseguição e algumas cenas tristes.
www.bombthesystem.com

Ouça o tema feito por El-P

Curtas

The Funk Hunt (Romain Gravas – 2002) – Esse é da França, tem apenas 11 minutos e dos curtas foi o único que assisti. Não vi na Mostra, vi aqui na seção de vídeos do site. Conta a história de um vinil de funk abandonado, que passa pela mão de várias pessoas, até que um produtor de Rap sampleia e o faz virar um grande sucesso. Não tem diálogo nenhum, as imagens e o som dizem tudo.

Assista ao curta

The Bliss (Dayo Harewood – 2000 – 20min) – Como não assisti, reproduzo aqui o mesmo texto do material de divulgação. Uma jovem fotógrafa é fascinada por murais de Graffiti assinados por Bliss. Eventualmente, conhece o artista responsável pelos painéis, e esse relacionamento a levará a entender o verdadeiro significado de “bliss”.

The Clinic (Jessey Torrero – 2003 – 10min) – “Uma comédia para todos aqueles que pensam e uma lição para aqueles que fazem isso. Um filme que promove o sexo seguro”, define o diretor.

Essa foi a Mostra, quem viu, viu. Quem não viu, perdeu muita coisa importante, pelo menos para quem se interessa em entender a nossa Cultura.

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Confira as fotos da abertura com Madlib

 

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