Opinião | Quarentena, Páscoa e o viés de classe

A liberdade de expressão, a quantidade de possibilidades de interpretação, e o fato - Quarentena, Páscoa e viés de classe

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Por Camilla Cidade*

Estamos na quarentena, na quaresma, algumas coisas doloridas, são as que mais precisam ser ditas.

Há uns dias atrás postei em tom de deboche que não era legal ver as quarentenas de férias, com piscinas, mar e dias de sol, sombra e água fresca. Fiz isso com o tom de quem lembrava que a maioria das famílias Brasileiras mora em casa com dois cômodos, locais pequenos, muitas vezes sem ventilação adequada. Que as pessoas estão confinadas. Sem saber como será o dia de amanhã. E cada dia que passa, se percebe quem pode se retirar em quarentena e quem, apesar dos mais de 1000 mortos no Brasil, prefere se negar a acreditar na gravidade.

Essa quarentena é claramente dividida por classes. Como tudo na vida. E daqui um tempo, infelizmente não vamos estar falando de stories, mas de quem terá acesso ao equipamento para respirar e quem não terá.

Pelo viés de maternidade, quem são as mães que estão pirando e quem são as que estão de boa. Muito pautado pela classe, e não pela capacidade de uma mãe ser de boas e a outra não. Eu sei que há verdades inconvenientes, e que ser portador do chamado “se liguem!” não é papel fácil. Desperta muitas antipatias. Mas se ninguém fala, talvez eu, que esteja no meio de dois mundos totalmente diferentes, me sinto na obrigação de falar, pois já venho me comunicando através desta ferramenta há muito tempo, e recebo feedbaks no inbox, que me dão certezas e agradecimentos até pelas reflexões despertadas. E esse é o abraço que me faz, volta e meia, ser portadora de “toques chatos”.

No dia que eu postei stories numa piscina, tive muitos feedbacks. Alguns positivos, mas a maioria negativo. Muitas pessoas achavam que eu estava falando direto com elas ou delas, quando não estava. Estava apenas propondo um exercício de empatia, sugerindo cada um se colocar no lugar do outro.

Ontem (10/4), aconteceu o mesmo.

Eu falei das comidas. Não entendo o prazer que as pessoas tem de mostrar que estão comendo bem, quando a crise e a fome pela Pandemia já está atuando com força.

Estamos em plena crise. Muitos não podem fazer suas compras, quase um mês afastados de suas ocupações. Outros em isolamento, sem acesso à compras. Outros preocupados com o futuro, fora os preços superfaturados.

O brasileiro teve coragem de superfaturar álcool e instrumentos de contenção da Pandemia, ao ponto de a esfera governamental ter que agir. Os humanos, reflexão. Somos nós mesmos.

Proponho o exercício de empatia. Eu não sei se na sua bolha das Redes Sociais só tem pessoas como você, mas se você achar que sua comunicação é ampla e com pessoas de diversas classes, que tal, neste momento, pensar como seria estar em casa na Páscoa, com dificuldades e preocupações? Garanto que você consegue chegar a conclusão sozinho, que as fotos das lagostas, camarões, e todo tipo de iguarias, não contribuem para uma Páscoa mais feliz ao seu próximo.

A Páscoa é tempo de ressurreição, tempo de ação e esperança. Cristãos e não-cristãos, religiosos ou céticos podem transformar nossa realidade. A realidade do seu conteúdo e da sua rotina, é você que faz. Sejam reais sentinelas da nova era. Atitude-se.

Uma Feliz Páscoa, para todos!

*Texto originalmente publicado no dia 11 de abril, na fanpage da NIEM (Núcleo Interseccional em Estudos da Maternidade), por Camilla Cidade, bacharel em Produção Cultural pela UFF, diretora do Filme 8 da Maré, Pós-graduanda em Jornalismo e Comunicação Digital, Administradora do Coletivo Mães Da UFF, mais conhecida como RootsCidade.

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