Opinião | Corpos, por Luciénè Cortes

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Foto: Divulgação

Aprendi com uma das minhas mais novas que existem dois tipos de perfis, bem marcantes, em debates ou discussões. Um é o perfil que debate pelo intelecto, conceito, leituras e tals, o outro é o perfil que debate com incremento psiquê e corpo físico. A diferença é que no segundo perfil o próprio corpo é a experiência, nele se expressa a prática de uma teoria intensa e dolorida – “o dono da dor sabe o quanto dói” -, esse aprendizado fez e faz todo sentido para mim.

Na última semana do mês de fevereiro fui atravessada pelo assunto corpo, de todas as maneiras possíveis. Dia 22/02 o Rap Plus Size lançou o clipe da música “Só pago o que me cabe” e alguns trechos ecoaram na alma – “quem dita a moda é a rua, não seu padrão eurocêntrico … destrava querida … grandes marcas, tamanhos pequenos, não entendem nossos corpos diversos”. Depois de assistir várias vezes o clipe, observei a semana toda o impacto do meu corpo no mundo.

Deixa-me escurecer uma questão aqui antes de prosseguir, não saí de casa e observei isso na segurança que meu lar me proporciona e que minha consciência também proporciona aos meus vizinhos e familiares. Falar sobre corpos, no meu caso, é estar no segundo perfil. Sou gorda, tenho tom de voz grave e pele, assim como traços, que não deixam dúvida que sou preta. Reforço esses adjetivos para que façamos um exercício sobre a desumanização dos nossos corpos, provocada por um padrão estético desenhado por quem detêm o poder e determina padrão com base da binaridade estúpida do certo ou errado.

Exemplificando: Minha infância foi nos anos 80 e adolescência nos anos 90, nessa época os programas de tv tinham como apresentadoras Xuxa, Angélica, Mara Maravilha e Eliane, as músicas diziam – “nega do cabelo duro, que não gosta de pentear”, “entre tapas e beijos, é ódio é desejo” – e por aí vai, assim como programas com quadros ‘a banheira do Gugu’ e/ou personagens negros em novelas e séries que sempre foram associados a subalternidade, criminalidade, hipersexualização dos corpos, vícios e toda marginalidade possível. Tudo que foi apresentado na tv era com base no bonito versus feio, bom versus mau, aprovado versus desaprovado, normal versus anormal etc.

De que lado seu cérebro assimilou que você estava? O meu deitou e rolou nesse lugar de subalternidade, hipersexualização e complexo de feiurinha, ou seja… entre o bom versus o mau cá estava eu na totalidade do mau, do ruim, do perverso, do preguiçoso, da servidão desumanizada.

E sobre o futuro, vixi… dizimados seríamos. Eu assistia os Jetsons e naquela época não tinha gente preta não, só essas versões atuais que aparecem poucos personagens pretos.

Aí eu te pergunto, você acha mesmo que seu cérebro sem qualquer esforço de mudança te leva para um lugar acolhedor ao se deparar com diversidade, pluralidade ou individualidade? Ou ainda, no debate sobre esses temas você é o perfil 1 ou perfil 2?

E mais intenso, se você está mais próximo dos padrões estabelecidos como normal, você tem traços de senhor a ser reverenciado, aceito a qualquer custo e servido por tudo e todo considerado anormal? Essas reflexões devem envolver caráter e personalidade, bem como reforçar que nossa individualidade, diversidade, pluralidade e complexidade deixa estampada a necessidade de humanização dos humanos.

Sim, deixar de nos colocar nesse pacote da binaridade escrota. Exercitar usar o nome das pessoas para identificá-las e não um conjunto de características que nos desumaniza. – “porque não falar da sua experiência como ator negro” “sendo ator negro, o que acha dessa coisa toda de racismo?” “Como é fazer um médico, arquiteto, surfista, Roque Santeiro, boêmio da Lapa, padre, gay, ou seja lá quem for… negro?” “Quando ouço essa última, sempre me dá conta de responder algo bem esdrúxulo, do tipo. “Não sei, pois nunca fiz um médico, arquiteto, surfista, Roque Santeiro, boêmio da Lapa, padre, gay, ou seja lá quem for … verde.”

Livro: Na minha pele, Lázaro Ramos

Os adjetivados não ficarão nas tabelinhas binarias e nem eternamente no lugar de desgraça e dor que foram colocados, a roda está girando.

Constatar que estamos saindo desse lugar não é ousadia e nem vingança, é sobre VIVER sendo o que se É e amando Ser quem se É. Se ajusta aí porque o mundo está mudando e “me gusta saber que Maria que fez… eu só visto o que me serve, eu só pago o que me serve”. “Estamos nos (re)orientando, (rea)alinhando e (re)construindo nosso ser e estar no mundo”

Referências:
Livro: Interseccionalidade – Carla Akotirene
Série: Feminismos Plurais
Livro: Na minha pele – Lázaro Ramos
Música: Rap Plus Size lançou o clipe da música “Só pago o que me cabe”
Música: Triste, Louca ou Má
Música: Mis Beleza Universal – Doralyce
Filme – M8 Quando a Morte Socorre a Vida – Netflix

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