Memória BF | Primeiro álbum do Arrested Development completa 28 anos

Formado em 1988, o grupo Arrested Development demorou 3 anos, 5 meses e dois dias para conseguir um contrato com uma gravadora. Usando isso eles resolveram intitular o seu primeiro álbum assim, ‘3 Years, 5 Months and 2 Days in the Life of…’.

O álbum é um clássico dos mais inesperados da história, até por eles mesmos, que não esperavam os 6 milhões de cópias vendidas, 4 discos de platina, 2 Grammys, premiados por TVs e revistas e os primeiros lugares em diversos rankings ao redor do mundo.

O grupo era uma família gigante, com vários integrantes, mas começou com Speech e Baba Oje, esse último o mais velho deles, quando se conheceram ele já tinha mais de 50 anos. Baba Oje teve problemas de saúde, até mesmo por conta da idade, ele faleceu em 2018 de leucemia.

Veja a apresentação deles em 1993 na MTV

Os outros integrantes eram DJ Headliner, Kamaal Malak, Montsho Eshe, Aerle Taree, Ajile, Kwesi Asuo, Nadirah Shakoor, Foley, Rasa Don, Nicha Hilliard e Isaiah “Zā” Williams. Ao longo dos anos o grupo foi sofrendo várias alterações, atualmente Speech é o único remanescente da primeira formação e ainda conta com One Love, JJ Boogie, Tasha Larae e Fareedah Aleem.

Assista uma parte do acústico do grupo para a MTV

Esse álbum foi lançado em 24 de março de 1992, sempre reforçamos aqui no BF o quanto a cena da música Rap era diversa nos anos 90 e por isso mesmo muito rica. Mas mesmo com tanta diversidade o que estava reinando nesses primeiros anos da década era o tal do “gangsta rap” da costa oeste. Por isso mesmo ninguém esperava que um grupo com foco no afro-centrismo, falando de paz, amor e vindo do sul do país poderia ser a maior revelação do ano. Sim, eles eram de Atlanta e até hoje sinto que a história deles é ignorada nos Estados Unidos, não apenas por artistas, mas por críticos e veículos especializados também.

Assista a outra parte do acústico do grupo para a MTV

Eu consegui comprar esse vinil mais de 10 anos depois dele ter sido lançado e paguei muito barato. Uma vez vi uma cópia dele na extinta loja A-Place, no centro de SP, essa loja era o ponto de encontro da geração de MCs paulistas que hoje são sucesso (Rincon, Emicida e Nocivo por exemplo), inclusive tem até vídeos de batalhas realizadas na loja. Eu conhecia o DJ Zinco e o MC Dejavu (Contra-Fluxo), proprietários da loja, então sempre estava lá. Escrevo isso, porque eu via discos como esse lá pra vender e a molecada não tava nem ai pra esses discos, eu ficava indignado. Mas enfim, é só pra mostrar que por aqui o AD também ficou pra trás, o que é uma pena.

Assista ao vídeo da música “Revolution”, uma das trilhas do filme ‘Malcolm X’

Esse disco é maravilhoso, foi um dos álbuns que fiquei mais feliz em adquirir, mesmo que seja a prensagem nacional. São 15 faixas no vinil, nos EUA foi lançado pela EMI/Chrysalis e no Brasil pela EMI-Odeon. A produção foi toda do Speech, na abertura eles já mostram um diferencial, a música “Man’s final frontier” traz uma performance do DJ Headliner. A segunda faixa demonstra a preocupação e o respeito pelas mães solteiras, geralmente abandonadas por homens covardes e irresponsáveis, na letra Speech rima – “irmãos falando em revolução, mas deixam seus bebês para trás”. Em um dos refrões de “Mama’s always on stage” eles cantam – “Não haverá revolução sem mulheres, não haverá revolução sem filhos”.

Assista a performance deles no Grammy de 1993

Foram lançados três singles, “People everyday” foi o segundo a ser lançado e ganhou o prêmio de melhor vídeo na MTV. Pode sem dúvida ser considerado um dos maiores sucessos do grupo, inclusive aqui no Brasil, em qualquer pista não tem quem não cante o refrão. A letra fala sobre a visão de Speech na época, onde ele via a Cultura Negra mais ligada a África, enquanto outros irmãos negros zombavam dele por ser assim, das suas roupas, dos seus locks, as tranças. O vídeo da música mostra um pouco disso e na letra ele fala sobre a briga que isso pode causar entre irmãos, mas ao final da letra fica a moral da história – “os africanos precisam se amar e se unir”. Essa música tem várias versões, o título e o refrão foram inspirados na música “Everyday people” do Sly and The Family Stone.

Assista ao vídeo

O single “Tennessee”, o primeiro a ser lançado, foi o grande premiado no Grammy em 1993 como Melhor Performance de uma Dupla ou Grupo de Rap. Nesse mesmo Grammy eles ainda levaram o prêmio de Melhor Artista Novo ou Revelação, sendo o primeiro grupo de Rap a vencer nessa categoria. Ganhar esse prêmio com “Tennessee” e alcançar todo esse sucesso com ela foi muito significativo para Speech. O título da música faz referência às suas origens e também ao lugar onde ele viu dois de seus entes queridos pela última vez, sua avó preferida e o seu irmão mais velho. Ele encontrou seu irmão no Tennessee para o funeral da avó, uma semana depois seu irmão também veio a falecer. A letra é uma conversa com Deus, uma oração, o refrão diz – “leve-me para outro lugar, leve-me para outra terra, faça-me esquecer tudo o que me machuca e me ajude a entender seu plano”.

Assista ao vídeo de “Tennessee”

Essa música ainda teve uma polêmica por conta da liberação de um dos samples utilizados. Eles usaram a voz do Prince, retirada da música “Alphabet street”, os advogados esperaram a música fazer mais sucesso para então pedir o pagamento de U$ 100,000 dólares. De acordo com Speech, Prince ainda deu um boi pra ele, porque ele poderia pedir que fosse considerado co-autor da música e continuar recebendo os direitos, o que naquela época, com todo o sucesso, renderia muita grana. O último single, também de muito sucesso, foi “Mr. Wendel”, música dedicada a homens e mulheres que pra muitos são invisíveis, os sem-teto, moradores de rua. Metade da renda conseguida com esse single foi doada para a National Coalition For the Homeless dos Estados Unidos, uma entidade que cuida dos sem-teto.

Assista ao vídeo de “Mr. Wendel”

Esse disco é um exemplo de que dá pra fazer música boa, com letras positivas, poesia pro bem, revolucionária, ativista e também fazer sucesso, ganhar prêmios e entrar pra história. Não troco nenhum álbum do que chamam de “gangsta rap” por esse disco, mas infelizmente muitos que se dizem ativistas, militantes e revolucionários fizeram o contrário e preferiram outras influências.

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A importância do Arrested Development nessa época foi tanta, que poucos meses depois do sucesso alcançado com esse disco eles foram procurados por Spike Lee para fazer uma música para a trilha do filme Malcolm X. Para essa empreitada fizeram o clássico “Revolution”, com vídeo dirigido pelo próprio Spike. Assista ao vídeo abaixo e entenda mais uma vez o quanto é mais importante fazer música na quebrada apontando soluções do que ficar apenas ostentando armas, drogas e violência.

O AD continua em atividade (não confunda o grupo de Rap com o seriado norte-americano), sendo ativista, militante e fazendo música boa, por conta disso segue sendo ignorado nos Estados Unidos. Da minha parte, sigo o que o Public Enemy desde sempre nos ensinou, a não acreditar no “hype”.

Ouça o álbum completo

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