Bruno Candé: uma tragédia racial portuguesa, com certeza | Por Def Yuri

Foto destaque: Diogo Ventura

Por Def Yuri*
Fotos por Diogo Ventura

Sábado de sol. Da minha janela posso ver que o dia está lindo aqui no bairro. Moro em Casal dos Machados um bairro social, que é parte da moderna freguesia do Parque das Nações, em Lisboa.

Meu nome é Bruno Candé Marques, tenho 39 anos e estou aqui desde o início do realojamento no fim dos anos 90. Vim com familiares do bairro onde nasci, a antiga Zona J, atual bairro do Condado, fica aqui na mesma região, distante cerca de 3 quilômetros.

Opa! O silêncio da casa começa a ser quebrado. Certamente meus filhos que acordam. Ivo, Ruben e a pequena Bia que fará 4 anos no início de agosto. Junto deles tenho outra alegria que também é da família, se chama Pepa, minha labradora.

Creio que podem imaginar a alegria quando estamos juntos. Meus amores me trazem forças para enfrentar as dificuldades que desde que me entendo como gente se apresentam. Minha maior preocupação é com o futuro deles. Se para os meninos já será difícil, imagina para minha menina? Exaltam o nosso bairro por conta da localização e alternativas de transporte, mas esquecem da falta que faz alternativas de empregabilidade, estudos, saúde, cultura e tudo mais que possa estimular o nosso crescimento.

Aqui no bairro tem muita gente boa que batalha para sobreviver, mas temos que ser realistas, aqui diferentes mazelas são potencializadas: racismo, preconceitos, delinquência juvenil, violência, consumo abusivo de drogas, gravidez na adolescência… Para vocês terem noção, ainda me recupero de um acidente. Só recentemente retomei minha rotina de caminhar com Pepa, isso me ajuda muito. É como uma fisioterapia. Minhas limitações, mesmo que momentâneas me afastam do teatro, meu trabalho e paixão.

Que saudades tenho do “Conveniente”! Casa de teatro “Conveniente” é como se chama. O dia de hoje me traz tantas lembranças boas.

Só Deus sabe o que passei nessa minha vida. Só quem está na nossa pele para entender o
peso do racismo, desconfiança, ausência de oportunidades e tudo mais que sofremos nesse meu Portugal que me enche de amor e de desesperança.

Não quero que meus filhos passem pelo mesmo que eu passei e que passo diariamente. Sinceramente? Não sei se Portugal quer o bem de todos os seus filhos de forma igual. Meus sentimentos e percepções parecem contraditórios, né? Eu sei. O hoje é confuso, mas no futuro, se houver, eu quero que o amor prevaleça.

Apesar de tudo busco externar esperança e fé que algo mude.

Do apartamento vizinho vem em alto volume rimas de um rap que diz:

Por favor diz me porquê
Às vezes queria entender
Acredito num futuro mais bonito mas o barulho dos tiros faz-me contradizer
Por favor diz me porquê
Só queria poder saber
Se ainda existe uma outra vida para além desta minha vida
Ou se o propósito é nascer pra morrer
[Trecho da música Meu Deus, do rapper Plutônio]

Essas rimas contemplam minhas inquietações e sentimentos. Depois vou perguntar ao vizinho quem canta essa música. O copo de café ainda quente e um pedaço de pão da avó me revigoram. O negócio é aproveitar esse início de tarde para fazer uma caminhada.

Pepa já sabe o que está para ocorrer. Sabe que é hora do passeio. Sua felicidade é grande. Pula de um lado para o outro. Como se dissesse – anda logo!

O meu prédio e outros vizinhos parecem vazios, poucas pessoas circulam, em tempos de quarentena isso se tornou comum. Muitos estão recolhidos. Salvo pelos mais jovens que teimam em se aglomerar e fazer suas bagunças. Dia sim e dia não a polícia vem fazer “operação anticovid” aqui no bairro. Apesar disso, seguimos à mercê de todo tipo de vulnerabilidade.

Descemos pela rua João Pinto Ribeiro até a rotunda que fica sob um viaduto, aqui tem um ponto de táxi e alguns motoristas sempre me cumprimentam. Nasci e cresci nessa região. Conheço todos e todos me conhecem.

Como não pretendo demorar, não irei até o Parque das Nações na beira do rio Tejo. Seguirei para Moscavide que fica no município de Loures. Estamos na fronteira de Lisboa com a Grande Lisboa ou Lisboa Metropolitana. No fim das contas, tudo é Lisboa. Ao falar parece que é um local distante, mas da minha casa até aqui, na Avenida de Moscavide, não são 500 metros.

A melhor coisa é caminhar com tranquilidade sem preocupações. Apesar que minha última caminhada, tem dois dias, foi marcada pela irritação.

Vejam só, um homem idoso, reclamou da minha cachorra e até o momento não sei o motivo. Ele sequer me deixou argumentar para entender do que se tratava. Não consigo esquecer os xingamentos racistas. Não foram os primeiros que ouvi e nem os últimos. Como pode esse tipo de gente ainda existir? Gente que não respeita nada. Que não respeita ninguém. Ele disse por mais de uma vez que me mataria.

– Vou te matar, seu preto! Eu vou te matar!

Manifestação em homenagem a Bruno Candé. Foto: Diogo Ventura

Esses racistas acham que podem tudo. Acham que podem ameaçar os outros livremente, mas de certa forma podem, pois muitos portugueses ao negar o racismo legitimam tudo isso, sempre foi assim, mas deixa para lá. Não será isso que estragará o meu dia.

Pessoas nas ruas entram e saem dos comércios, conversam nas calçadas, algumas se aglomeram, é verdade. Por segundos paro e observo tudo a minha volta. Do outro lado da rua a casa azul. Impressionante como ela destoa pela beleza e simplicidade.

Prossigo e já no segundo quarteirão me vem uma alegria grande ao lembrar da bagunça com meus filhos logo cedo. Agradeço a Deus. São esses momentos que deixam o coração
mais leve.

Logo a frente, um restaurante está cheio. Com tanta gente no lugar, parece que a comida está boa. Tenho a impressão de ter visto alguém se esconder entre os outros clientes. De repente ouço um grito:

– Seu preto!

Me assusto. Mal virei para olhar e me deparo com o idoso da confusão na última quarta-feira.

Parece tomado pelo ódio. Em sua mão tem uma pistola.

Diz algo, mas não consigo entender.

Ouço um estampido e sinto uma ardência no meu peito. Esboço uma reação para fugir. Mais estampidos e mais tiros. Um nas costas seguido de outro no ombro Tento respirar, mas não consigo. Sinto o sangue sair pelo meu nariz e boca. Não consigo ficar mais em pé. Caio perto de uma jardineira, nesse momento as únicas coisas que consigo ouvir é o som da minha cabeça se chocando com o solo e os gritos das pessoas na avenida.

Tudo é muito rápido. Penso nos meus filhos. Por que isso aconteceu comigo? Não consigo
me mover.

Pepa foge desesperada enquanto eu luto para respirar. Sinto que estou com a roupa encharcada de sangue. Meu Deus, por quê? Não posso ser mais um que vai morrer assim. Consigo focar meu olhar. Vejo que o homem se aproxima. Seu olhar é de ódio. Diante de mim ele para aponta a pistola e grita:

– “Volta pra senzala!”

E dispara mais uma vez arrancando parte da minha testa. O cheiro de pólvora fica muito forte. Assim como o esfumaçamento.

O homem foge.

Se o prenderem sequer divulgarão seu nome. Serei vítima concreta daquilo que chamam por aqui de “racismo subtil”. Não duvido que tentem me transformar em culpado pela minha própria morte. Afinal em Portugal não existe racismo. Todos são portugueses. Pessoas gritam:

– “Mataram o angolano! Mataram o preto!”

Tento responder: – Eu sou português. Sou preto. Sou de Lisboa. Sou da Zona J. Sou daqui! Quem cuidará dos meus filhos? Não posso deixá-los. Minha pequena Bia não pode ser mais uma mulher preta sem o pai. Tudo parece um círculo vicioso, mais uma história que se repete.

Ninguém me ouve. Ninguém parece me ouvir. Será que me ouviram algum dia?

Sequência de espasmos, seguidos de engasgos com meu próprio sangue e lágrimas, minha
barriga se dilata.

Manifestação em homenagem a Bruno Candé. Foto: Diogo Ventura

A aglomeração aumenta como uma plateia ávida à espera do meu último suspiro. Amanhã os jornais devem publicar a seguinte nota:

“Ator negro Bruno Candé Marques, 39 anos, foi assassinado no sábado, 25 de julho de 2020, por volta das 13 horas da tarde, segundo testemunhas, por motivação racial. Após xingamentos racistas um desconhecido efetuou quatro tiros contra a vítima em frente ao número 11 da Avenida de Moscavide, Concelho de Loures, Grande Lisboa, Portugal. Bruno deixa três filhos menores: Ivo, Ruben e Bia. O autor do crime, um homem de cerca de 80 anos, foi detido por populares até chegada da PSP (Polícia de Segurança Pública) que manteve sua identidade preservada.”

Ou tão somente dedicar um rodapé que reproduzirá o de sempre:

“No último sábado,25, homem foi morto em Moscavide. Polícia descarta motivação racial. O assassino com cerca de 80 anos foi detido e encontra-se preso, mas sua identidade é preservada.”

E assim, em frente ao número 11 da Avenida de Moscavide encerro minha participação nessa tragédia racial portuguesa, com certeza.

*Def Yuri é jornalista e cronista. Desde 1983 atua em diferentes vertentes da cultura Hip Hop.

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