Um artista único! Na Rima, no flow, nos refrões. Este é Black Alien em ‘Abaixo de Zero: Hello Hell’

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A capa do disco é uma criação de Parteum

“Diga-me o que ouves e eu te direi quem és”. Quem segue a risca este ditado precisa urgentemente ouvir o disco de Gustavo Black Alien.

O gosto dele é público, ele cita suas referências musicais em diversas letras ao longo da carreira.

Tem jazz, funk, Rap, punk rock, hardcore, rock’n’roll, reggae e cinema. Enfim, ele curte os artistas raiz, os autênticos de todos esses estilos.

Não sigo este ditado a risca (só um pouquinho), pois existem artistas que escutam as mesmas coisas, mas não conseguem transmitir essa influência para a música que fazem. Mas com Black Alien isso parece ser natural. Musicalmente ele consegue passar isso para que os produtores coloquem essas referências nos instrumentais e ai o mérito não é só dele. O produtor/beat maker tem grande importância. Não é fácil assimilar e colocar em prática as ideias de um gênio. Sim, hoje posso considerá-lo um gênio da música brasileira.

Ele é único. Explico: Não existe alguém no Rap que faça ou fez algo parecido com o que ele faz, da maneira que ele faz, seja nas rimas, no flow, na criação de refrões, nos trocadilhos e na brincadeira com as palavras. Ele me soa único e autêntico, nasceu com um dom. Há 10 ou 15 anos atrás eu não diria o mesmo. É preciso tempo para entender e reconhecer os gênios, ainda mais quando eles não lançam trabalhos com tanta frequência.

Ouça uma pequena amostra do disco:

 

Desde o dia que assisti uma apresentação dele, em 12 de dezembro de 2004 – no Indie Hip-Hop, lançando o “Babylon By Gus”, apenas ele e o Basa no palco -, mudei radicalmente as opiniões que tinha sobre o trabalho dele. Nesta época ele ainda não estava “limpo” e mesmo assim segurou um show inteiro sozinho, sem perder a voz, sem vacilar nas rimas, não precisou nem da ajuda do público. Hoje, com tanto artista de Rap apelando pra auto tune, ouvir um disco sem maquilagem, sem nada que esconda alguma imperfeição é um oásis no deserto.

Este é o tipo de disco que me inspira nesse retorno ao BF. Gosto de música para ouvir e não apenas pra ver. Uma coleção de músicas para diversas ocasiões, pra escutar andando de skate, caminhando, rolar em qualquer pista, músicas que não vão ficar presas dentro de aplicativos. Tem várias deste disco que com certeza serão tocadas por DJs. Não sei como outras pessoas que escrevem sobre Rap fazem por aí, mas eu, particularmente, antes de escrever sobre uma música, procuro escutar em diversos lugares e não apenas no celular ou computador, como é mais comum hoje em dia.

É nossa responsabilidade, como mídia alternativa, passar pra frente músicas de artistas que tenham preocupação com a qualidade. Em se tratando de Rap, por usar muitos elementos, essa preocupação tem quer ser maior, porque uma produção ou mixagem mal feitas destroem a chance de um artista ter a sua música tocada por um DJ que entenda de Rap.

O disco começa com “Área 51”. Não sei se este título tem algo a ver com a base militar estadunidense, mas o que é certo é que ela precisava ser a intro, porque nela ele começa apresentando esse “novo Black Alien”. E se o título não tem ligação com a base militar, não dá pra dizer o mesmo sobre a cachaça. “Nada que vale a pena é fácil”, “meus refrões mantras”, “e problema com pó quem tem é o dono do bar”, são algumas frases importantes pra destacar, que já na primeira música consegue resumir o que vem pela frente.

Em “Carta pra Amy”, ele traz no refrão e em muitos versos, a mistura de inglês e português que é uma marca registrada das suas composições. “Se um dia a coragem foi liquida, agora ela é sólida irmão. Tenho não só que lidar com a vida, lido com ela sem pó e sem dó, então”“…nunca mais é tempo demais…”. E assim segue a letra toda, direto ao ponto, citando algumas de suas referências musicais: Rakim, Nina Simone e Black Flag. “Vai baby” é uma das que tem vídeo. É romântica e cheia de malícia, um tema que ele desenvolve sempre tão bem. Ainda acho que um dia ele vai lançar um disco todo nessa pegada. Na sequência, mais uma que teve vídeo lançado: “Que nem meu o cachorro”. E desta tirei uma expressão que serve pra vida: “se custar a minha paz já custou caro demais”. E o mestre dos refrões consagra mais um mantra.

Em “Take ten” eu entendi uma letra com muitos trocadilhos, mas não vou me prender a eles. Esta faixa tem tantas referências que merecia uma resenha apenas para ela, mas focando no título e no refrão, é uma referência direta ao jazz, mais precisamente a música “Take five” do The Dave Brubeck Quartet e também é uma das poucas onde ele dá uma pitadinha do seu lado ragga. Para quem gostou da faixa “Como eu te quero”, vai curtir “Au revoir”, é a música fofa do disco.

Não gosto de usar palavrões em textos, mas se isso fosse uma reação filmada ou áudio gravado, eu iria gritar bem alto: “PQP”! A música “Aniversário de sobriedade” é a mais direta sobre o seu problema com as drogas e mesmo sem ter refrão é de longe uma das melhores do disco. Puro jazz, um refrão estragaria e aí é que temos que reconhecer sua genialidade.

A penúltima música é uma clara referência aos Raps mal feitos. O título está no refrão e diz “música boa é pra sempre, esses otários JAMAIS SERÃO, mais uma vez muito jazz. O instrumental da última música é praticamente o mesmo da anterior, o título é “Capítulo zero” e tem um final interpretativo, pra mim ele deixa registrado o seu adeus à Babilônia.

Tem discos, na maioria, que começam bem e vão ficando cansativos nas últimas faixas, mas esse vai ficando melhor no final o que te leva a ouvir novamente e novamente e cada vez você vai entendendo de formas diferentes e identificando a enorme quantidade de referências musicais e de filmes. As linhas de baixo e os claps são uma marca registrada em todas as faixas. Uma outra característica, é o uso de muitas gírias de São Paulo e o uso de alguns palavrões, algo que não me lembro dele ter usado nos discos anteriores. Só não dou nota 10 e nem 5 estrelas por conta da ausência de um DJ. Infelizmente grandes nomes do Rap nacional padecem desse mal de não incluir DJs nas músicas.

P.S.: Em 19 Setembro de 2004, quando ele lançou o Babylon By Gus Vol.01, publicamos uma entrevista feita pelo DJ Tamenpi. Dessa vez tentamos uma entrevista novamente, mas ainda não foi possível.

Ouça o disco completo

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