‘Não há retorno, o novo vai se dar a partir do coletivo’, afirma a dupla Rap Plus Size

Dupla Rap Plus Size fala sobre “A Grandiosa Imersão em Busca do Novo Mundo”, seu novo disco. Matéria publicada na Edição #01 da Revista BF de Novembro/2019

Jupi77er e Sara Donato

“A gente pensa que representatividade só importa mesmo se ela for transformadora, se ela ocupar espaços para além do “tapa buraco” que a grande mídia e as marcas têm feito ao longo dos anos”, afirmam Sara Donato e Jupi77er, integrantes da dupla Rap Plus Size, que lançou recentemente  “A Grandiosa Imersão em Busca do Novo Mundo” (AGIBNM), seu segundo álbum.

Com um novo trabalho produzido por Vibox, Sara Donato e Jupi77er trazem a legitimidade de quem enfrenta os preconceitos com Raps que vão além das trilhas de campanhas publicitárias e singles encomendados, faixas que já nascem como jingles. Já faz tempo que o mercado está de olho na discussão sobre empoderamento, combate ao racismo e aos diferentes tipos de privilégios, porém, no mundão dominado pela imagem, os empreendimentos consideram apenas o poder de consumo dos grupos sociais excluídos.

Ouça o álbum completo

A crítica social é tida como adereço. E quando a experiência cotidiana ainda mostra a violenta desigualdade, notas de repúdio são divulgadas pelas empresas… E a vida segue. Segue? Não.

“Buscamos aprofundar as ideias, achamos que os assuntos estão cada vez mais rasos, então aí se dá essa ruptura, sair da zona de conforto para mergulhar em busca do novo. E não há retorno, pois o novo vai se dar a partir do coletivo, do diálogo e de corpos dissidentes que entendem que esse mundo aqui é falho, esse sistema não é pra nós. Por isso essa grandiosa imersão em busca do novo mundo”, conclui Jupi77er.

A dupla afirma que tem observado um grande levante de mulheres, LGBTQIA+ que vem se consolidando e mostrando em nível nacional o potencial e a diversidade que o movimento tem como um todo. “Isso se deve basicamente aos espaços que têm sido ocupados e subvertidos. Lógico que ainda há muito silenciamento, e a invisibilização, mas aos poucos estamos construindo juntas uma nova cena, que querendo eles ou não, vai ser tomada de assalto por todos os tipos de corpas”.

Construindo algo novo, a dupla conta com velhos e nem tão velhos parceiros para contar suas histórias numa versatilidade que impressiona. “Esse trabalho mais do que nunca tem nossa cara, desde a produção com Vibox, que é nosso produtor e amigo, até as participações de Ingrid Martins, Luz Ribeiro, Monna Brutal, Mulamba, que são pessoas com quem convivemos e que são amigas pessoais, Cris SNJ, que já compartilhamos vivências incríveis, até Djonga e Kamau, que são pessoas relevantes para cena. E também tem as pessoas que tivemos prazer de produzir e ter essa troca tão importante para  nós, artistas independentes”, diz Sara Donato.

Com seus aliados, Sara Donato e Jupi77er alternam flows suaves e profundos com a energia punk que apresentam em seus shows e que também é marca de seu primeiro disco (Rap Plus Size), mas não abandonam o Hip Hop. “Acreditamos que muita gente se surpreendeu, pois muitos tinham uma ideia fixa do que era o Rap Plus Size. Só que nesse disco mostramos que nós podemos ser o que quisermos ser, e sim, nossa evolução é notória. Muito disso tem o dedo do nosso produtor Vibox que é exigente e muito paciente (risos)”, comenta a dupla.

Confira a dupla falando sobre as faixas do disco

Fazendo referência à água e ao oceano, “AGIBNM” faz crítica ao patriarcado, dispara contra o machismo, a gordofobia e a transfobia, fala sobre a fase política em que os brasileiros estão envolvidos e discute gênero. O resultado está registrado nos depoimentos de pessoas que têm a dupla Rap Plus Size como referência de luta.

De acordo com Jupi77er,  a dupla fala de desconstrução de gênero e não apenas de uma masculinidade ou feminilidade tóxicas. “É uma percepção além disso, é sobre os papéis de gênero, as suposições de gênero que são feitas desde o começo para todos e desconstruir isso”, explica Jupi77er. E essa desconstrução ecoa. Em 2018, em entrevista ao site Hypness, a dupla disse que “ouvir de mulheres que você salvou a vida delas é algo muito profundo”. Na época, a dupla já estava vivenciando essa imersão que abordam em seu mais recente trabalho.

Acreditamos que representatividade é muito importante e esse feedback do nosso público sempre foi muito presente, é motivador saber o que fazemos chegar no coração das pessoas

“Desde que Rap Plus Size surgiu, a gente passou escutar isso constantemente, acreditamos que representatividade é muito importante e esse feedback do nosso público sempre foi muito presente, é motivador saber o que fazemos chegar no coração das pessoas. Sempre estivemos buscando aprofundar os debates para além do raso, e agora levamos isso como ponto de partida do nosso trabalho. Nosso objetivo sempre foi propor soluções para os problemas sociais que enfrentamos”.

“A Grandiosa Imersão em Busca do Novo Mundo” figura entre os melhores discos de 2019. Além da desenvoltura, liricismo e originalidade de Sara e Jupi77er, sua temática é urgente e passa longe das discussões, tretas e disputas do mundo masculino e machista do Rap. Mais um motivo para não ser ignorado.

Confira a Edição #01 da Revista Bocada Forte na íntegra. FAÇA O DOWNLOAD

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