Hip Hop Socialista | Clã Nordestino- A Peste Negra Troca Os Pentes

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Por Jeff Ferreira
Submundo do Som (publicado originalmente em fevereiro de 2022)

Lamartine Silva, também conhecido como Negro Lamar, é uma das importantes e fundamentais figuras do Hip Hop Brasileiro. Conheceu o breaking em meados dos anos 80 em São Luís, no Maranhão. Em 1988 conhece o mano Reitut que o convida para fazer rap. Lamartine se torna o primeiro rapper da região e em seguida, no ano de 1992, forma o Quilombo Urbano, uma entidade em prol do Hip Hop e da identidade negra.

Em 1993 Márcio Vicente Góis, mais conhecido como Preto Ghoez, passa integrar o Movimento Hip Hop Organizado do Maranhão, o Quilombo Urbano, sendo influenciado a adentrar no rap pelas músicas dos Racionais MC’s e história de Malcolm X. Mais adiante Ghoez integraria alguns grupos maranhenses como o Skina e o Milícia Neopalmarina.

No início do milênio, Negro Lamar e Preto Ghoez se unem a Hertz, Verck, Preto Nando, Lilian e o DJ Juarez e formam o icônico Clã Nordestino, um dos maiores (se não o maior!) grupo de rap do país. Com essa formação os maranhenses lançam um álbum demo com pouco menos de 1 hora de duração onde puderam mostrar sua característica: a mistura do rap com ritmos tradicionais do Maranhão, como o reggae, bumba-meu-boi e o tambor de crioula. O Clã Nordestino, através do Hip Hop Movimento Organizado, que promovia debates e encontros, bem como fazia a Nação Hip Hop, a qual teve como presidente o rapper Aliado G, do grupo Face da Morte, viajou o país na militância em prol do povo politizado. Os dois movimentos organizados do Hip Hop se encontraram e passaram a trocar figurinhas. Através da Face da Morte Produções, em 2003, o Clã Nordestino lança o seu álbum de estreia (e também único disco do grupo), A Peste Negra.

Nesse projeto, os integrantes Hertz e Rosenverck, o Verck, optam por deixar o grupo e formam o Gíria Vermelha em 2002, grupo filiado ao Quilombo Urbano e que contou com a participação da cantora de MPB Luciana Pinheiro, uma das vozes mais bonitas do Maranhão. Desse modo, o Clã Nordestino seguiu com Negro Lamar, Preto Ghóez, Nando e Lílian e o DJ Juarez. O trabalho rendeu ao grupo o Prêmio Hutúz de 2003 na categoria Revelação, onde desbancaram nomes como DBS e a Quadrilha, Mzuri Sana e Trilha Sonora do Gueto.

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O álbum A Peste Negra abre com um introdução, a “IntroduClã” e vem como um cartão de visitas mostrando o tom do disco e o que o ouvinte poderá encontrar ao longo das outras quatorze faixas, ou seja, denúncia, protesto, contestação, revolta, ódio, amor e propostas de mudança, uma verdadeira convocação para a periferia:

“A Peste Negra está viva
Dos pretos, pelos pretos, para os pretos, com os pretos
Todo ódio à burguesia
Dos pobres, pelos obres, para os pobres, com os pobres
Orgulho de ser da periferia
A Peste sobrevive no horror dos olhos da vítima
Na quebradeira de coco babaçu e a fome de sua família
No estudante em Pequim lutando contra os tanques
Na criança nordestina vomitando com nojo do yankee
A Peste é um moleque no morro no Rio com um fuzil na mão
É a menina prostituída por um pedaço de pão
É o corpo do sem-terra que tomba por um pedaço de chão
A Peste Negra é o espectro que ronda as mansões”

Seguindo, a música “ClãNordestimenteAfro”, com participação de Funk Buia, do Z’África Brasil, mostra “a verdadeira faceta da indignação”. Se na faixa introdutória ainda ficou alguma dúvida sobre o peso do álbum, logo na primeira música é exemplificado tudo que foi proposto na intro. Com algumas homenagens ao rapper GOG, como no trecho: “como é que é Gêógê, original R.A.P., nacional, vai demarcando terreno, em um busca da P.A.Z. mundial” e nas colagens com trecho do poeta em “Periferia Segue Sangrando”, o Clã descorre:

“Revolução socialista afro-brasileira
Aqui não é brincadeira
Saúde não convém
Rebelião na FEBEM
E fogo se altera
Demônios na favela
Sobreviver no seu curral é o mesmo de estar na merda
Desemprego aperta
Que porra de salário
Governo salafrário
A burguesia já matou milhões dos nossos irmãos
Caralho!”

A música “Leva pra Mente”, tem uma interessante construção, seu refrão busco inspiração em canção interpretada por Tim Maia, em “Leva”, o síndico cantou: “Leva! O meu som contigo, leva! E me faz a tua festa, quero ver você feliz! Uh! Uh!”, na voz de Lilian o refrão sofre uma leve alteração: “Leva! O meu som contigo, leva! Pra alegrar a tua festa, quero ver você feliz! Uh! Uh!”, a melodia entra em contraponto aos versos pesados e densos, mas que dialogam com o instrumental “pra cima” com ótimos riffs de guitarra e um potente grave no baixo. A faixa ainda tem participação de Sócrates e Marcelo Carvalho, a guitarra sai e entra o cavaquinho, e no canto de louvou a dupla entoa versos incidentais de Originais do Samba em “Vamos Decidir”: “Pra que vou me importar com que há de vir depois? Se o paraíso é feito de nós dois!”. O Clã busca inspiração em guerreiros socialistas para também inspirar quebrada: “dentro de você existe um Che, um Marighella, o espírito guerreiro que vive na favela”, se segue:

“Levante, avante, me siga, resista
Basta ser socialista
Ou ter consciência crítica
Nossa lei, na favela, quem escreve somos nós
Temos que ter a dignidade que teve nossos avós
Versos africanos que dichavo no compasso
Produto original que ultrapassa o seu fracasso”

Ases de Periferia” tem um instrumental suavizado, com um leve delay que lembra o reggae, ritmo forte do Maranhão, e canto melódico pedindo que “Jah me guie pelos caminhos da verdade / Jah me guie pelas veredas da justiça / Jah me guie pelo caminho da paz / Jah guie a consciência dos nossos irmãos pelos caminhos de quem quer se libertar”, entoados por Lilian. A música é uma crônica sobre a periferia:

“Nos labirintos da vida muitas coisas aprendi
Nunca desejes aos outros o que não queres pra ti
Horrores, crimes, desgraças
Formam seu império
Filhos perdidos, mães soluçam no seu abrigo
Olhai meu filho que passa na trilha pecaminosa
Perdoai, Senhor, ele não sabe o que faz
Antes o braço forte, exemplo de dignidade
Situação atual, presente totalmente fraco, sentindo sem fé”

A faixa cinco é um hino. ‘Todo o Ódio a Burguesia”, com a participação da dama do reggae, a maranhense Célia Sampaio, é a síntese da revolução do proletariado é a canalização e direcionamento para a revolta: os ricos. A burguesia deve ser nosso alvo enquanto militantes periféricos em busca de redenção. O ódio é a chama que nos move para dias melhores. Os ricos são causadores das mazelas nas quebradas, o medo deles deve ser o sorriso do revoltado, como o Clã canta: “Esconde o Rolex, cancela o caviar. Tem medo de morrer? Parou de ostentar. Mais-valia: a palavra mágica pra uma noite trágica. É terror, é terror, na casa da madame, cena sádica”. Não é preciso exemplificar como os canalhas oprimem a classe trabalhadora, mas mesmo assim o Clã Nordestino o fez para que não restem dúvidas de quem é o inimigo:

“Cê vai ter que engolir minha carteira de trabalho
Cê vai lembrar de mim na redução de quadro
Logo eu que não fazia, partido, sindicato
Sempre obedeci, sempre cheguei no horário
Agora eu sou o terror de canhão politizado
Então segura a fuga, a matilha de desempregado
Desemprego, desespero, filhos com medo, não é segredo não!”

Em 1999 o cantor maranhense Zeca Baleiro se juntou com os pernambucanos do Faces do Subúrbio para a faixa “Piercing” e agora se junta aos conterrâneos do Clã Nordestino para a canção “Coração Feito de África” a qual também tem participação de Gaspar, do Z´África Brasil e do DJ Edy, em faixa que traça paralelo das mazelas vividas nos países do continente africano com o cotidiano dos pretos nas periferias brasileiras e, em meio a cantos africanos, clama pela vida: Faz o Brasil uma segunda África, faz do Brasil uma segunda África do Sul”.

Fita Cantada” é uma vinheta de 30 segundos com berimbau, scratchs e colagens realizados pelos DJ’s Grelo e Edy, do grupo Anjo dos Becos. Como bem disse meu mano Gil, do site Bocada Forte, A Peste Negra é o primeiro álbum de rap a usar colagens do disco Nada Como Um Dia Após O Outro Dia do Racionais, o sample usado é voz de Mano Brown em “Negro Drama”: “mas é isso aquilo, que? Cê não dizia…”. A faixa serve como um intro ou prelúdio para a canção seguinte.

“Se a revolução fosse um jardim, Clã Nordestino era uma flor!”, assim se inicia a “Toada do Clã” é faixa mais diferente do disco, diferente pois traz a música maranhense em sua essência, ao mesmo nome que não se descaracteriza como um rap, tendo como destaque para as participações de Chagas do grupo de bumba-meu-boi Bumba Boi da Maioba, e Gérson da Conceição da banda de reggae Manu Bantú (falecido no dia 22 de abril de 2019 vítima de um infarto fulminante aos 52 anos de idade), além do DJ Edy. “Toada do Clã” é a prova de que se pode fazer um som pra cima, envolvente, suingado e ao mesmo tempo contundente, como no verso de Ghoez: “Preto Ghoez ladrão na prosa e no verso, entoa a canção que manda a burguesia pro inferno”. O berimbau e o contrabaixo marcando são responsáveis pela melodia e groove, junto com a locomotiva que se apresenta de pano de fundo: “Coisa de preto, velho guerreiro, a foice e o martelo grafitada no pandeiro”:

“Pick-ups, scratches, bandeirões
Clã Nordestino a Peste Negra do Nordeste
referência suas raízes, negras raízes
revolução, Hip Hop, Bumba-Boi, dias felizes
eu quero ver esse povo cantar e dançar com motivos
eu quero ver esse pai e essa mãe de periferia estampar um sorriso”

Aice Man, do grupo Conceito Moral (que lançou em 2002 o excelente álbum O Início da Guerra, participa da música “Eu Sou + Eu”, faixa que se inicia com uma autocritica nas linhas de Preto Ghoez: “Errei, eu sei, usei, vendi, contribui, e quantos manos meu viciei, ajudei a destruir, e quantas minas apaixonadas usei, abusei, magoei, desiludi, e quantas vezes no trampo abafei o pranto, peleguei, me humilhei, calei, me consenti, me omiti”. Através dessa análise em si próprio o Clã convoca para o embate contra o opressor: “sorri burguês cínico, para o veneno periférico não existe antiofídico, dia fatídico, linchá-lo para nós, é um dever cívico!”. A música tem a voz de Maria Bethânia através da colagem de “Sonho Impossível” com o trecho “é minha lei, é minha questão virar esse mundo, cravar este chão”. Nos versos de Aice Man a música também aponta as vitórias da organização coletiva e dessa consciência que buscam:

“Não gastei com flores, não chorei suas dores,
Não vou mentir, sorri vendo televisão
Me diverti vendo as torres no chão
A grande águia de joelhos, com medo
Não é segredo, ave de rapina também tem os seus segredos
Esse é o preço, custe o que custar
Hora do pesadelo, hora de acordar
Serial killer no governo, pronto para matar
Aice Man, 1 da Sul, nos tambores da garganta
Novo quilombola em defesa de Alcântara”

Ocupar, Resistir, Produzir” é uma faixa em homenagem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. A faixa é uma vinha de pouco mais de um minuto. “MST, eu e você somos um só!” é o mantra que se inicia sussurrado e vai ganhando força até virar um grito de guerra, em meio a frase há a voz de Mano Brown: “Preto aqui não tem dó”, colagens de “Capítulo 4, Versículo 3” feita pelo DJ Grelo.

“Aos que tem tudo: Nada! Aos que tem nada: Tudo! Clã Nordestino mudou a minha visão de mundo!”, essas são algumas linhas da faixa “Manifesto” que como o nome sugere vem como uma declaração de guerra, logo no início ouvimos: “Clã meu irmão é a esperança é a figa, rima de cabra da peste de louco comunista” e vem com o objetivo de acordar o anseio de luta de classes na população:

“Despertando a consciência negra aqui do Rio
A minha palavra tem a força de uma bala de fuzil
Na luta de classes eu enxergo o Brasil
Que nada seja de ninguém
Que prevaleça o bem”

A faixa doze é “Lokomotiva da Vida”, com a presença de Lipinho, Juninho e Alemão, e se inicia com uma chamada em sala de aula: Che Guevara, Presente, Emiliano Zapata, Presente, Rosa Luxemburgo, Presente, Rei Zumbi de Palmares, Malcolm X e Rosa Luiz Sundermann são chamados e ouvimos vozes de crianças respondendo: Presente! Com um instrumental denso a música se inicia com o verso: “Façamos a chamada dos guerreiros camaradas / Dos que sobreviveram ou trombaram na jornada / De todos aqueles que se ergueram em armas / De todos aqueles que mantiveram a calma”. Uma canção de convocação para a mudança que se inspira em grandes revolucionários da história:

“Eu sei que eu sou mais eu se você for mais você
Só depende de nós a tomada do poder
Nas mansões eu quero ouvir gritos de pânico
Expropriando retomando a riqueza dos bancos
Chama os punks para falar de um mundo diferente
Onde cada um de nós será tratado como gente”

Na faixa treze, “Quantas Histórias pra Contar”, o Clã lembra casos e mais casos de desespero e descasos com a favela. O instrumental suave e romântico acompanha a letra triste que aborda o pranto: “quantas histórias pra contar, periferia sangra, quantos túmulos pra visitar, periferia chora” e deixa explana “todo ódio para quem nos oprime, todo ódio para quem nos odeia, pra quem nos rouba oportunidades e depois nos joga nas cadeias”. A música conta com participação de Lakers, do grupo Código Fatal.

“Observe no fundo dos olhos
O monstro que você criou
Quando ele foi te pedir emprego
Você negou, você humilhou
Mesmo que a tua raça não queira
Igualdade é a saída
Se você tem carro, casa e comida
O pobre também tem que ter autoestima”

Na penúltima faixa, “Desacato”, a qual conta com a participação de Rappin Hood, o Clã Nordestino dedica linhas para a classe militar, outro pilar da opressão com a periferia. Aqui o grupo nos passa a visão sobre a nocividade dos porcos fardados e clama para que os desprivilegiados não reconheçam autoridade no fascismo do braço armado do estado: “fodam-se vocês sanguessugas no poder, desacate autoridade é assim que tem que ser”. A faixa é groovada e tem peso no baixo bebendo na fonte do original funk. As últimas fala de Hood sintetizam bem a música: “pra revolucionar, pra educar, pra transformar, aí, pra incomodar! Tô ligado que aí na terra de Sarney, muita maracutaia há!”.

Fechando o álbum A Peste Negra temos a faixa “Regando as Flores” que nos traz influências do reggae. A canção nos remete a Jamaica dos anos 60 nos guetos de Kingston quando através dos sound system os selectas rolavam uma base instrumental e os toasting declamavam poesias de cunho social sobre a situação degradante em que viviam e apontavam a natureza podre dos governantes e autoridades. Enquanto a base suaviza com a cadência do reggae a backing vocal Lilian entoa as linhas melódicas: “se a revolução fosse um jardim… Clã Nordestino era uma flor”, os MC’s do grupo derramam suas rimas em levada falada, como em um discurso de convocação: “de pé todos juntos mais uma vez, dizem que somos poucos, mas somos poucos em muitos lugares, então somos muitos, e a cada um de nós compete uma coisa, simplesmente uma coisa só: propagar o amor nos corações da humanidade e quebrar o gelo da hipocrisia e da maldade, arrebentar de vez as algemas da mais-valia e da opressão e cantar em uma só voz a canção que faz florescer o jardim de uma manhã melhor”. Lilian volta para cantar um verso incendiário e romântico:

“Eu sei que você sofre e eu também
Eu sei que você quer mudar e eu também
Então vamos juntos, nos unirmos
E lutarmos contra quem destrói o jardim”

As quinze faixas do álbum A Peste Negra mostram a periferia quem é o inimigo: a burguesia, a ALCA, o FMI, o imperialismo, a mídia sensacionalista, nos mostra como derrotá-lo, as canções nos convocam não só para a reflexão, mas também para a ação: se a revolução fosse um jardim, Clã Nordestino era uma flor. O disco, sem dúvida alguma, é um dos melhores, senão o melhor, trabalho feito dentro do rap neste país que necessita urgentemente de uma vacina contra o capitalismo desacerbado, vacina essa que tem nome: A Peste Negra.

No entanto, em 2004, um ano depois do lançamento do álbum A Peste Negra, o rap nacional iria chorar a morte de um de seus maiores letristas e ativistas: Preto Ghoez. No dia 09 de setembro, no estado de Santa Cataria, o MC se envolveu em um acidente de carro e sai sem vida. Ghoez tinha pouco mais de 30 anos, e em parceria com o Ministério da Cultura do governo Lula o qual era comandado por Gilberto Gil, lançou o projeto “Fome de Livro na Quebrada” a fim de levar a literatura nas periferias, Ghoes havia lançado o livro A Sociedade do Código de Barra, Gilberto Gil lamentou publicamente sua morte: “é uma imensa perda. Como artista, líder e articulador talentoso do Hip Hop, Ghoez deixou um trabalho sedimentado, voltado para a construção de políticas para a juventude brasileira. Ele era uma inteligência a serviço dessa revolução silenciosa que os grupos culturais promovem hoje nas centenas de periferias do país”.

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