Revanche – 31 Anos de Rap e Luta: Vicente Blood no Vale
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Por: DOC SUJO
Local: LA CASA, SJC
“O único efeito do nocaute foi fazer ele voltar ainda mais forte”
No último sábado, 17 de janeiro, São José dos Campos testemunhou a materialização de três décadas de história. Vicente Blood, o “Conselheiro”, celebrou o lançamento de ‘REVANCHE’ no La Casa. O registro é um manifesto de quem sobreviveu ao sistema e ao tempo dentro do Rap e da cultura Hip-Hop.
O SIGNIFICADO DO TÍTULO
Doc Sujo: Blood, o que 0 título’REVANCHE’ representa depois de 31 anos de caminhada? É um acerto de contas?
Vicente Blood: Então, é um pouco das duas coisas, é um acerto de contas contra o sistema, por isso que esse disco tem esse nome, porque eu entendo que a partir do momento em que eu tive um período de ser privado da liberdade, de ter caído no mundo dos vícios, eu fui nocauteado. Estar há trinta e um anos fazendo Rap e lançar um disco após trinta e um anos de caminhada é a revanche. Vai mostrar para o sistema que esse nocaute, o único efeito que ele trouxe foi fazer eu voltar ainda mais forte, preparado. E aí pra doze, pra quinze, pra vinte, pra mais trinta e um anos… trinta e um rounds sem pedir arrego. Deixa vir, que nós estamos prontos.
A RESPONSABILIDADE DO MICROFONE
D.S: Você sempre bate na tecla da mensagem. Como você enxerga a função do MC hoje?
Blood: O Rap que eu conheci, o Rap que me fez amar a Cultura Hip-Hop, lá no final da década de 80, era exatamente isso, contundente. Não que nós não possamos ter letra onde nós estamos nos divertindo, falando das coisas boas da vida, mas tudo tem que ter um equilíbrio, tudo tem que ter uma direção correta. Uma frase de uma música minha que diz: “cantar Rap não é só subir no palco e blá blá blá, tem que ter uma ideia pros moleque assimilar”. Senão ao invés de estarmos plantando boas sementes para o futuro, estaremos enviando a molecada pra trás dos muros. Então é com essa responsabilidade que eu faço Rap.
DO RINGUE AO BEAT
D.S: A capa traz o Kickbox e o disco mistura boom bap com trap e drill. Como foi esse desafio?
Blood: A questão do kickbox, da luta, é que foi um esporte que eu conheci, me apaixonei. Acredito mesmo que nós temos um time de peso na produção, Rato, Augusto Spike Loops, Moitão, time de peso. A ideia de rimar em vários estilos, nessas novas vertentes que surgiram durante essa caminhada da cultura, foi um autodesafio mesmo. Mais do que desafiá-los, era me desafiar pra fazer algo moderno sem perder a essência da mensagem que eu sempre gostei de trazer. Rimar num drill, rimar num trap, pegar a essência desses ritmos dentro das vertentes do Rap foi um desafio e eu acredito ter feito um bom trabalho.

A UNIÃO EM SJC
D.S: O evento reuniu uma seleção de artistas de SJC. Qual a importância dessa união?
Blood: O evento no La Casa, celebração de lançamento do álbum foi algo muito lindo e significativo. Consegui trazer alguns amigos e amigas e alguns deles estavam já um bom tempo parado e escutar dessas pessoas – “cara esse convite me reviveu” – me revigorou. É isso que me trouxe de volta pra cena, celebrando a potência dessa cultura mesmo. Realmente parecia uma seleção. Sem precisar pagar jabá pro La Casa, que foi a casa que aceitou esse desafio, essa minha ideia. E os convidados também, que vieram pela amizade, pela vivência. Vivências e convivências trazem experiências e são essas experiências que a gente procura levar para letra, levar para o palco.
A VISÃO FINAL
D.S: Pra fechar: Deixa um recado (ou um sermão, já que você é o Conselheiro) pra essa molecada que acha que fazer Rap é só postar stories e não tem coragem de botar a cara na rua, igual você faz há 30 anos.
Blood: É mais do que escrever uma letra bem bolada. Hoje em dia dá pra fazer isso com o chat gpt, uma letra bem tecnicamente, bem colocada, bem elaborada, num beat também tecnicamente perfeito, da moda… Não é a parte mais difícil de se fazer a arte que nós fazemos. O que traz a verdade é essa troca de energia, esse convívio saudável e mutuamente pedagógico aonde você tá numa experiênica onde cê tá aprendendo e ensinando. É isso que traz a verdade pra cultura.
Ouça o disco!




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