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Confira a entrevista com Xilito, MC vice-campeão da Batalha da Mente 2025

Confira a entrevista com Xilito, MC vice-campeão da Batalha da Mente 2025

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MC do Jardim Dom José, Xilito é um dos nomes que emergem da Zona Sul de São Paulo a partir da vivência direta nas batalhas de rima e nos projetos de base que sustentam a cena. Natural de Fortaleza (CE) e radicado em São Paulo desde 2016, ele construiu sua trajetória a partir das rodas culturais, tendo no Valo das Batalhas e no Projeto Mais Rap espaços centrais de formação artística e política.

Representante do Projeto Mais Rap na segunda grande final da Batalha da Mente 2025 (confira a matéria), onde foi o vice-campeão, Xilito fala nesta entrevista ao Bocada Forte sobre origem, território, responsabilidade coletiva, profissionalização das batalhas e os dilemas atuais do freestyle, sem perder o vínculo com a rua que molda sua escrita, sua postura e sua identidade como MC.

XilitoEntrevista01-scaled Confira a entrevista com Xilito, MC vice-campeão da Batalha da Mente 2025
Xilito, foto por MC Áries – @aries.mc2

Bocada Forte: Como o Rap e as batalhas de rima entraram na sua vida e qual foi o primeiro contato com o microfone?
Xilito: O rap chegou na minha vida junto com a música em geral, seja no som dos carros na rua, no vizinho, ou com meus primos escutando, mas só em 2017 que ele esteve como protagonista. Foi nesse ano que me mudei pra São Paulo, também foi nesse ano que comecei a entender o que era a cultura, muito influenciado por um grupo de RAP da rua onde eu morava (Na Ironia), comecei a escutar diariamente e até a escrever minhas próprias letras/poesias. Em fevereiro de 2018 nasceu o Valo das Batalhas, e junto com ele, a minha carreira de MC, foi a primeira vez que fui numa roda cultural e que me expressei como artista.

BF: Você representou o Projeto Mais Rap na Segunda Grande Final da Batalha da Mente. O que significou carregar esse nome e esse território no palco?
Xilito: Responsabilidade, essa foi a palavra/sentimento. O Projeto+Rap é um dinossauro da Zona Sul, chega a ser mais antigo do que o próprio Valo, batalha que eu sou cria. Além disso, tem um papel social muito importante na vida de vários jovens que não sabem onde encontrar refúgio do cotidiano, muitas vezes pesado. Eu sabia que carregar esse nome não era qualquer coisa.

BF: O que da quebrada você carrega quando sobe no palco pra rimar?
Xilito: Procuro carregar a essência. Acredito que é um lugar muito plural, tem de tudo, desde pessoas até idéias. Então, ser um camaleão e estar preparado pra se adaptar a qualquer tema faz sentido, mas sem se perder do cordão umbilical.

BF: Qual o papel do Projeto Mais Rap na sua formação como MC e como sujeito político dentro da cultura Hip-Hop?
Xilito: O +rap foi uma batalha que eu demorei pra ir, mas mesmo assim ela teve um papel importante. Considerando que é uma das clássicas da ZS, ela ajudou a moldar a cena que temos hoje, seja na conduta, respeito, ideias artísticas, etc.

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Xilito, foto por MC Áries – @aries.mc2

BF: Durante o processo até a final da BDM, qual foi o momento mais marcante pra você?
Xilito: Acho que o envolvimento com o público, principalmente com as crianças. Muitas vezes a gente, como MC, sente que a ideia para na inércia da mente de quem escuta, mas naquele dia parece que estavam todos dispostos a escutar o que tínhamos pra dizer. Cada salve depois das batalhas, foto tirada, elogio, aplauso e grito vão ficar na memória. Como MC, é sensação de dever cumprido sentir que fez quem tava te escutando refletir.

BF: Na sua leitura, como está a cena atual das batalhas de MCs em São Paulo e quais desafios ainda precisam ser enfrentados?
Xilito: É um assunto extenso. Acredito que a cena, não só de SP, mas do Brasil inteiro como um todo, está se distanciando da fonte, perdendo a conexão com as origens. Sei que furar a bolha era necessário, também precisamos nos sustentar e pagar as contas, mas não podemos fazer da maneira errada. A cultura está ficando esquecida, em batalhas não se fala mais sobre outros elementos, mal se fala sobre o conhecimento. Acredito que a cena esteja passando por um momento de profissionalização, seja dos MCs, das organizações, do filmmaker, do técnico de áudio, do editor, etc. Creio que o desafio mora aí: como fazer girar, sem sair do eixo.

BF: De que forma sua história, seu território e suas experiências moldam o conteúdo das suas rimas hoje?
Xilito: Molda completamente. Quem eu sou tem muito a ver com o que expresso. Identidade, revolta, luta, decepções, autoestima, ego. Tudo isso influencia, seja na escrita, na sonoridade, no freestyle, em tudo. Nossas vivências nos moldam, sou o Xilito porque vim de onde vim, até no vulgo trago isso.

BF: Você sente que hoje as batalhas cobram mais conteúdo, mais técnica ou mais presença? Como você equilibra isso?
Xilito: Sinto que as batalhas exigem mais performance, não necessariamente mais conteúdo ou técnica, líricamente falando. A cena do Rap como um todo vive isso. O que vale é como você entrega, sinto que as pessoas precisam de tudo mastigado, pois não conseguem ir até a segunda linha.

BF: Além das batalhas, você já pensa ou constrói outros formatos de trabalho artístico, como música gravada ou projetos culturais?
Xilito: Sim, faço parte de um coletivo chamado Mezanino, temos alguns trampos na rua. Sobre projetos culturais, gosto muito de fazer, já ajudei alguns, mas nunca encabecei nenhum.

BF: Que mensagem você deixaria para quem está começando agora nas batalhas e ainda busca confiança na própria voz?
Xilito: Vai. Apesar de cada um seguir seu próprio caminho, uma coisa é universal: quem sabe de onde veio, nunca esquece para onde vai. Saber quem pavimentou pra não zuar a construção.

CONFIRA A PLAYLIST BF

Jaime Diko Lopes, 39 anos, natural de São Paulo. Mais popularmente conhecido como Diko, desde adolescente realizava de forma autônoma e independente o evento Projeto Hip Hop no Monte no Jardim Monte Azul, na época de 1999 para 2000 aprendendo, praticando e promovendo a cultura e arte pela comunidade onde vive até hoje.