Em memória do DJ Subroc (KMD): a tragédia que deu origem ao MF DOOM

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Em 23 de abril de 1993, o jovem Dingilizwe Dumile, então com 19 anos, faleceu vítima de um atropelamento. Se você não o conhece, esse era o nome de batismo do DJ Subroc, irmão de Daniel Dumile, Zev Love X, que ficou mundialmente conhecido como MF DOOM alguns anos depois. Subroc, dois anos mais novo, era os outros 50% do KMD (Kausin Much Damage) – Jade 1/Rodan e depois Onyx também fizeram parte do grupo, mas as cabeças pensantes por trás de todas as criações eram os dois irmãos. A morte de Subroc foi uma das primeiras grandes tragédias na vida de MF DOOM e não há como dissociar a criação e o surgimento do seu personagem desse acontecimento. Seu irmão faleceu um ano antes do KMD lançar seu segundo álbum, que estava praticamente pronto.

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Assista e ouça primeira gravação oficial de Zev Lov X

Se já não bastasse a perda familiar, Daniel ainda teve que lidar com o não lançamento do álbum. Ele já tinha finalizado o que faltava para colocar o disco na rua. Seria a oportunidade de honrar o nome do seu irmão, mas isso não foi possível naquele momento. A data de lançamento seria em 03 de maio de 1994. Em abril do mesmo ano, o primeiro single foi lançado: “What a nigga know”  (a palavra “Nigga” foi alterada para “Niggy”). Foi gravado até um vídeo que eu nunca assisti e não encontrei, se alguém tiver, avise, pois o vídeo foi rapidamente retirado de circulação.

A gravadora deu suas justificativas para a desistência, elas até fazem sentido se olharmos o contexto à época, mas até hoje ainda é difícil saber o real motivo. A Elektra era da Warner, a mesma gravadora que, em março de 1992, lançou o primeiro álbum do Body Count, banda do Ice-T. Um dos motivos para não lançar o álbum do KMD, de acordo com os diretores da gravadora, foi o medo de acontecer o mesmo que aconteceu com o Body Count.

Aqui é preciso contextualizar resumidamente o que aconteceu: em 1991 o então taxista Rodney King foi covardemente espancado por policiais de Los Angeles. Em 1992 os policiais foram absolvidos e isso desencadeou uma grande revolta. O Body Count em seu primeiro álbum incluiu uma faixa chamada “Cop killer” (assassino de policiais), fazendo referência direta a esse e outros casos, a música foi proibida e o álbum teve que ser recolhido.

Ouça a música do Body Count com a tradução

O KMD, apesar de também fazer algumas músicas de protesto, não tinha essa intenção com o álbum, mas a gravadora não quis ouvir explicações e entendeu que o disco poderia ser interpretado como uma referência ao caso Rodney King. Sabe por que isso? O título do álbum era ‘Black Bastards’ e trazia na capa o Sambo (saiba mais sobre esse personagem e seu estereótipo racista) sendo enforcado e com um soco no olho, personagem esse desenhado por DOOM e que eles já haviam usado no álbum de estreia com um risco vermelho, como uma placa de proibido. Por incrível que pareça, como o próprio DOOM já explicou, o enforcamento não tinha nada a ver com o que tinha acontecido, era apenas uma forma de dar fim a um personagem. Se eles lançassem um terceiro disco, o Sambo não seria mais utilizado e talvez até criassem outro personagem, pois tanto ele quanto o irmão já tinham planos de criar personagens e alteregos desde o primeiro álbum.

Eu tenho minha teoria e é apenas suposição e achismo, acredito que a gravadora pensou em diversas coisas e a principal foi o lado financeiro. Como sempre, e isso não é novidade. Na cabeça deles, pode ser que o fato de o grupo não ter o outro integrante também influenciasse na promoção do disco. A partir disso, usaram o título do álbum, do primeiro single e também a capa como pretexto. DOOM saiu da gravadora com o álbum embaixo do braço e com cerca de 200 mil dólares, grana equivalente ao que foi gasto na produção do disco e do vídeo. Para ele foi como se o irmão tivesse morrido novamente, pois os dois eram muito apegados. O apego e a vontade de botar o disco na rua era tanta, uma questão de honra, que até no velório do irmão DOOM ficou ao lado caixão tocando as músicas ainda sem finalizar em um Boombox.

Depois disso, ainda abalado com a perda do irmão e arrasado por ter nas mãos um disco que ninguém queria lançar, Daniel Dumile/Zev Lov X sumiu da cena, viveu muitas dificuldades, chegou a viver na rua, foi para Atlanta (Georgia) e, nos últimos anos da década de 90, reapareceu com uma máscara de metal e como MF DOOM. Foi o seu renascimento, essa história é mais conhecida, deu no que deu. Em 2000, ele lançou oficialmente o ‘Black Bastards’ pela primeira vez, depois foram realizados outros relançamentos.

Eu não sou fã de MF DOOM, ouço as músicas, gosto de muitas, mas não sou fanático por ele. Ainda assim enxergo ele como um dos maiores gênios do Rap mundial e gosto muito mais do KMD. Acho estranho quando as pessoas idolatram o DOOM, falam da sua genialidade e não citam o KMD, os discos do grupo são ótimos. O ‘Black Bastards’ é um álbum genial. Parece que o próprio público, inconscientemente, reproduz a atitude que a indústria teve – cancelar o que para eles não está dentro de certos padrões. Pra mim é difícil esquecer do KMD. Houve uma época em que precisei vender alguns discos meus pra levantar uma grana, sinto falta de muitos deles, mas o que mais me doeu foi o disco ‘Mr. Hood’, álbum de estreia do KMD. Lembro até do comprador, vendi para o DJ Nuts no começo dos anos 2000.

Algumas curiosidades

– Ainda esse ano, em agosto, Subroc completaria 50 anos;
– O álbum tem uma pequena contribuição do irmão mais novo da dupla,
Dimbaza Dumile, que encontrou a bateria para a faixa “Constipated monkey”, que além de ser a última finalizada após a tragédia é também o nome da Crew que eles tinham;
– A maior inspiração para esse disco e muitos dos samples utilizados foram retirados do álbum ‘The Blue Guerrilla’ (1970) do ex-The Last Poets, Gylan Kain;
– Que DOOM usava vários alteregos todos sabemos, mas como disse antes isso já estava nos planos de ambos, Subroc também era conhecido como Raheem ou Heem e também usava os nomes Dead Roach e
Q3 113.
– Em suas primeiras aparições e até o primeiro álbum, os irmãos eram mulçumanos praticantes, faziam todas as orações, frequentavam templos, seguiam e se inspiravam em lideranças religiosas, não faziam uso de álcool e drogas. Durante a produção do ‘Black Bastards’ isso mudou bastante, já não levavam tão a sério a religião, passaram a beber e fazer uso de algumas drogas. Amigos e pessoas próximas chegaram a ventilar a ideia de que os efeitos do uso de drogas sintéticas podem ter influenciado para o acidente que vitimou Subroc.

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Ouça o álbum em duas versões

 

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