Acervo BF | Entrevista com Promoe, MC do grupo sueco Looptroop

Entrevista publicada originalmente em 05 de abril de 2007. Última edição em 13 de fevereiro de 2020.

Introdução por Gil, em 12/02/2020

Em 2007 enviei um e-mail para o grupo sueco Looptroop, o qual sou fã, para tentar uma entrevista e também para tentar contato para uma futura apresentação no Brasil.

Para minha surpresa, o MC Promoe respondeu o e-mail e disse que viria ao Brasil em março. Perguntei se ele viria fazer shows e ai ele explicou que sua vinda seria para visitar seu irmão, que morava aqui.

Expliquei sobre as minhas intenções e também que eles tinham um certo público por aqui e ai ele pediu meu telefone e que me procuraria quando chegasse, mas que só teria um dia para fazer isso, pois passaria os outros dias viajando com seu irmão. Quando eu menos esperava o telefone toca e era ele dizendo que estava no centro de São Paulo. Fui ao seu encontro, o Bocada estava com uma sede na região central e aí fomos pra lá, onde eu e o Noise D o entrevistamos.

Tivemos o prazer de conhecer um MC muito humilde, nos tratou com muito respeito, sem nenhum estrelismo, veio de ônibus até nós, mesmo sem conhecer nada na cidade. Na hora de ir embora, perguntei se ele sabia voltar para a casa do irmão, ele disse que sabia onde era, mas não sabia qual ônibus pegar, indiquei o busão e ele seguiu rumo a região dos Jardins, parte rica da cidade, onde seu irmão morava. Na entrevista abaixo, ele mostra o quanto suas letras e ideias estavam à frente do tempo, preocupado com questões raciais, sociais e ambientais, até parece que a entrevista foi feita ontem. Infelizmente as tentativas de um show do Looptroop por aqui não deram certo.

Promoe liberou pra gente nesse dia uma música para download, abaixo você ouve e baixa a música “Murder murdoch”, que até hoje continua no mesmo link!


Confira abaixo a entrevista


Promoe. Foto: Divulgação

A equipe Bocada Forte recebeu no final do mês de março uma visita importante, o MC sueco Promoe do grupo Looptroop. De passagem pelo Brasil, para visitar o irmão, ele reservou o último dia da viagem para nos conhecer e trocar idéias sobre o Hip-Hop aqui e em seu país.

Desde o início da conversa ele se mostrou muito interessado sobre a cena brasileira, onde ele nem fazia ideia da quantidade de admiradores que ele e o Looptroop têm por aqui. O grupo formado em 1992 pelo DJ e produtor Embee e os MCs Promoe, Cosmic e Supreme, é uma das maiores referências da música Rap, não apenas na Suécia, mas em toda a Europa.

Em 1998 eles fundaram a sua própria gravadora com o nome David vs Goliath. Através dela lançaram os álbuns ‘Fort Europa’, ‘The Struggle Continues’, ‘Modern Day City Symphony’ e todos os trabalhos solos dos integrantes, EPs e singles.

‘Fort Europa’ foi o último trabalho do grupo, que já está trabalhando no próximo álbum ainda sem previsão de lançamento. Por enquanto a novidade é o álbum solo de Promoe (‘White Man’s Burden’). O disco tem a participação de Capleton, Kardinal Offishall e Leeroy do grupo francês Saian Supa Crew. Esse último, é junto com o Loop Troop um dos melhores grupos da Europa, inclusive é o preferido do próprio Promoe. O MC foi embora, teve pouco contato com o Hip-Hop brasileiro, mas deixou bem claro que quer voltar, mas dessa vez para se apresentar com o grupo ou sozinho. Leia a entrevista a seguir para saber mais sobre o Hip-Hop Sueco, Promoe, Looptroop e ainda baixe uma música nova.

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Assista ao vídeo da música “Long arm of the law”, clássico do Looptroop

Bocada Forte: Conte-nos sobre a música Rap e a cultura Hip-Hop em seu País e sobre o início da sua carreira.

Promoe: Bem, meu país é muito pequeno. Temos cerca de nove milhões de habitantes em todo país. A maior cidade, que é Estocolmo, tem apenas um milhão de habitantes. Então, você pode imaginar a cena… Ela não é tão grande. Eu comecei a ouvir a música Rap por volta de 1986 e também comecei a brincar com o Graffiti. Eu tinha por volta de 10 anos na época. Eu fui literalmente pego pelo estilo de vida e tudo mais, mesmo sendo difícil de achar discos de Rap. Assim, naquela época nós colocávamos mais a imaginação pra funcionar. Mas eu acho que isso era até bom, comparado com a forma atual. Hoje é tudo muito rápido. Você pode achar qualquer coisa a qualquer hora. A imaginação não tem o mesmo rumo que antigamente. Algumas vezes alguns amigos iam até Londres e de lá traziam as novidades sobre Graffiti, sobre música. Os filmes ‘Beat Street’ e ‘Style Wars’ também me levaram a conhecer a cultura. Mas no início eu me identifiquei mesmo com o Graffiti.

BF: Quando você começou a trabalhar com a música Rap? As gravadoras não se interessaram pelo seu trabalho no início?

Promoe: Apenas em 1991 é que eu comecei a fazer Rap e gravar meus primeiros sons, juntamente com DJ Embee, produtor do Looptroop. Naquela época existiam poucas pessoas que faziam Rap em Sueco. Alguns rimavam em inglês. Eu realmente não fui influenciado pela cena de meu país, pois era muito pequena. Eu só escutava o Rap norte-americano, então comecei a rimar em inglês. E foi assim que fomos fazendo nosso nome na cena underground. Não assinamos com um selo nem nada, pois nossa música era, digamos, “pequena demais” para que algum selo se interessasse. Ao menos na Suécia.

Talvez se tivéssemos assinado com outro selo, de outro país, a coisa poderia funcionar, mas não naquele tempo. Assim nós fomos construindo nossa reputação fazendo Hip-Hop Jams pelas cidades, com os Graffiteiros e dançarinos de rua. Foi nesse tipo de cultura que crescemos. Porém, por volta de 1996 as coisas mudaram. De 1996 a 2000 os grupos que faziam Rap em sueco explodiram. Assinaram com grandes gravadoras, venderam muitos discos, fizeram grandes vídeos-clipes e tudo mais. Enquanto isso acontecia, nós ficamos meio de lado nisso tudo. Estávamos realizando tours na Alemanha e países de fora da Suécia. Assim a gente nunca quis mudar e começar a rimar em sueco porque já havíamos conquistado muitos admiradores em outros países. Após o ano de 2000 tudo mudou de novo. O grande público não perdeu seu interesse pelo Rap feito em sueco. Nós não fomos afetados por isso.

Assista ao vídeo da música “Don’t hate the player”

BF: Como anda a cena atualmente em seu país e na Europa? Porque existem tantos grupos que preferem rimar em inglês ao invés de se utilizar de sua língua local?

Promoe: Eu não sei… Agora a cena está bem diferente. Eu sempre caminhei e tracei meus caminhos meio que fora da cena. Sobre os anos passados eu até posso falar, como falei. Mas agora, em 2007, eu não estou muito certo do que anda acontecendo. Muitos artistas rimando em inglês, outros inspirados nessa nova onda de mixtapes que vem dos Estados Unidos e outros ainda rimando em inglês e em sueco ao mesmo tempo. O Looptroop faz sons com rimas em inglês e já fez músicas com rimas em sueco, mas nunca na mesma música. No entanto a realidade é que a maioria dos artistas suecos escolhem uma forma ou outra. Os que resolvem rimar em inglês, em sua maioria optam por isso para que não fiquem circunscritos somente à Suécia, mas para que possam ser ouvidos em qualquer canto do mundo. Mas isso não impede que se possa fazer um som em sueco só por diversão.

BF: Fale-nos a respeito do conteúdo das suas letras e do grupo Looptroop?

Promoe: Nós sempre procuramos rimar a respeito de aspectos políticos e sociais. Comparado com a maioria dos rappers na Suécia eu poderia dizer que eles não são tão engajados como o Looptroop, por exemplo. Esse também é um motivo que nos fez ficar fora da cena de meu país. A maioria dos rappers rimam sobre coisas típicas do Hip-Hop, como “o quão bom eu sou”. Nós já havíamos rimado isso antes, então nós resolvemos nos focar não só em coisas políticas, mas em coisas da vida. Sobre a vida e a morte, sobre amor, sobre coisas que nos afetam em nossas vidas.

BF: Como é a vida nas ruas da Suécia e como ela te influencia na hora de você escrever?

Promoe: A vida das ruas da Suécia não é como aqui. A Suécia é um país muito rico. Quero dizer, nós ainda temos segregação entre os ricos e pobres. Temos ainda problemas de racismo e essas coisas e também encontramos moradores de rua por lá, mas não é grande coisa. Eu acho que nós devemos rimar sobre isso, pois mesmo não sendo um grande problema continua sendo um problema. E não rimar somente sobre isso, mas sobre muitas outras coisas que acontecem pelo mundo. Afinal nós somos conectados. O mundo todo é conectado. Nós somos ricos na Suécia porque outros lugares são pobres. Nós viemos pegando os recursos naturais de vários lugares do mundo. Então, nós precisamos ver essas conexões e entende-las. Por exemplo, como estava comentando em off, sobre como a Suécia é considerada um país neutro, que não entra em conflitos e guerras, mas ao mesmo tempo vendemos armas e produtos bélicos para outros países, como Estados Unidos e Inglaterra. Existe inclusive uma lei em meu país que diz que não podemos vender armas a países que estão em guerra. Mas o que estão fazendo EUA e Inglaterra? Os políticos dizem que vendem a eles, pois eles são países em democracia. Mas isso é uma coisa muito hipócrita da parte deles. Dessa forma, nós precisamos falar sobre isso nas letras.

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Confira o tributo que eles fizeram ao Guru (Gangstarr)

BF: Como você vê a cena musical na Europa. O Rap e a cultura Hip-Hop. Você tem algum grupo que você gosta muito?

Promoe: Um dos meus grupos favoritos em todo o mundo é o francês Saian Supa Crew. Eu não falo francês, mas eu já os assisti ao vivo muitas vezes e eles são realmente uma grande inspiração. A realidade é que nós não temos como ter uma cena de Hip-Hop unida. Devido as diferentes línguas. Nós temos cada país com suas características bem próprias. Mas, ao mesmo tempo, nós temos grupos como o Looptroop e o Saian que podem transitar por todos os países. O Saian Supa Crew, por exemplo, pode ir a qualquer lugar da Europa realizar shows. Não importa se o público não entende francês. Porque o Saian tem a melodia, o flow, a dança e toda a performance no palco. Não posso dizer que o Looptroop tenha a mesma energia que o Saian. Nós temos características diferentes. Pra nós é um pouco mais importante que as pessoas possam entender um pouco de nossas letras. Boa parte do nosso público costuma ler nossas letras e tal. Assim torna-se mais fácil realizar nossas tours. Porém, existem países como França e Inglaterra que são mais difíceis de conquistarmos público, pois eles são muito orgulhosos de sua cultura e sua língua… Os ingleses, por exemplo, não gostam de nos escutar rimando em inglês americano. Se alguém rima em inglês americano na Inglaterra é considerado falso. Já o nosso público, ele é diferente do público tradicional do Hip-Hop. É muito comum que pessoas venham conversar conosco, ao final dos shows, e digam “Eu não costumo escutar Rap, mas gosto muito de Looptroop”. Talvez isso aconteça justamente porque nossas letras são mais políticas, mais densas.

BF: Quais são as suas preocupações a respeito do mundo hoje?

Promoe: É interessante você me perguntar isso porque eu estava mesmo assistindo a alguns documentários aqui em São Paulo e um deles – que por coincidência é da Suécia, chamado ‘The Planet’ – trata sobre o aquecimento global e a natureza. Talvez essa seja minha maior preocupação agora. Interessante porque eu nunca rimei sobre esse assunto antes. Acredito que esse seja um tópico difícil pra se rimar. Mas eu pretendo fazer uma música sobre esse assunto. Quem sabe falar em “desprogramar” ou re-programar a mente das pessoas, de forma que elas passem a se preocupar mais com isso.

BF: Você continua realizando trabalhos com Graffiti?

Promoe: Eu meio que parei de fazer Graffitis lá pelo fim dos anos 90, pois comecei a me dedicar mais a música. Mas eu continuo fazendo meus tags por aí. Sempre que eu vou à Alemanha, por exemplo, o pessoal depois do show vem me convidar pra fazer uns graffs pela cidade, mas eu digo que não posso. Afinal eu tenho de fazer um show no outro dia, enfim… É perigoso demais fazer isso agora.

BF: Como são feitas as produções em suas músicas e pro Looptroop?

Promoe: Na realidade eu não produzo. Eu apenas faço as letras. DJ EmBee é o responsável pelas produções, utilizando-se da MPC, Logic. Ele é muito secreto quando o assunto é produção. Nem eu sei direito como ele faz, pois só recebo o instrumental pronto.

Assista ao vídeo da música “Loose after midnight”

BF: Você já realizou shows em algum país da América Latina?

Promoe: Não. É o único continente em que não realizei shows. Nem eu, nem o Looptroop. Mas temos muito interesse em fazer shows no Brasil e em outros países.

BF: Como você vê a questão do download de músicas pela Internet?

Promoe: É um problema. Mas eu gosto de focar nas coisas positivas. Esse “problema” fez com que circulássemos ao redor do mundo com nossa música, por exemplo. Mas essa onda de download é uma das razões que vem fazendo com que diversifiquemos as coisas. Vendendo roupas, livros e etc. É assim que temos respondido. Nós tentamos fazer nosso trabalho mais diversificado. Não há como viver só da venda dos CDs. É um grande desafio. Precisamos achar outros caminhos, outras maneiras… Agora, eu sou contra as pessoas colocarem na Internet Álbuns que sequer saíram no mercado oficial ainda. Isso prejudica muito o artista. Às vezes o trabalho sai sem qualidade, sem mixagem ou masterização. Isso prejudica demais o trabalho do artista.

BF: Você pretende lançar um novo álbum com o Looptroop?

Promoe: Nós já estamos trabalhando no novo álbum. O grupo não tem mais a mesma formação, já que Cosmic decidiu sair. Mas o trabalho já está sendo desenvolvido e deve sair ainda esse ano. Ao mesmo tempo venho fazendo shows do meu último disco, o “White Man`s Burden”. Nesse álbum existem muitos sons com artistas jamaicanos, sons que foram gravados lá. Até porque sou muito influenciado pela música Reggae. Em breve devo estar lançando um DVD. Nele irei mostrar os bastidores de produção, shows e etc.

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