KL Jay na Batida Vol.03 | 20 anos depois… As ruas continuam olhando, observando…

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No primeiro semestre de 2001, há 20 anos atrás, o DJ KL Jay lançava seu primeiro álbum solo, o CD duplo ‘KL Jay na Batida Vol.III (Equilíbrio – A Busca)’. O título desse texto foi inspirado na abertura do disco II feita pelo próprio KL Jay, era assim que ele começava o “puxão de orelha”As ruas estão olhando, observando.

Pois é, já nessa época havia no Rap os que não eram reais, autênticos, que não respeitavam os mais velhos e os mais humildes, portanto o que vemos atualmente não é novo, só foi potencializado e amplificado por curtidas, prints, recortes e compartilhamentos.

Esse álbum pode ser considerado um divisor de águas em vários sentidos e agora, em 2021, chegando oficialmente nas plataformas de streaming*, ele pode novamente ser um divisor de águas tamanha a qualidade, força das músicas e dos discursos presentes ali. Vamos olhar pelo lado desse resgate, de trazer pra dentro das plataformas músicas que muitas pessoas mais novas talvez nunca tenham escutado. Muitos álbuns e músicas lançados nos anos 80, 90 e 2000 estão nessa mesma condição, não são reconhecidos pelas plataformas, é como se eles nunca tivessem existido.

Alguns estão nas plataformas, mas os artistas que criaram as músicas não são remunerados pelos direitos autorais arrecadados dentro desses impérios bilionários, que cada vez mais prejudicam e escravizam artistas independentes. Claro que existem diversos fatores para que isso ocorra dessa forma. No caso dos pagamentos, existem contratos que foram mal feitos, má fé de donos de gravadoras/selos, burocracia, etc.. A inciativa do DJ KL Jay pode ser a oportunidade, o incentivo, o precedente para que outros artistas façam o mesmo com suas obras, resgatem suas músicas e tragam para a realidade atual de forma profissional e organizada.

Olhando pelo lado artístico, nesse álbum está o que de melhor existia no Rap naquele momento, distribuído em 31 faixas**. O DJ conseguiu, por exemplo, reunir na mesma faixa artistas que fizeram parte do mesmo grupo nos anos 90, que se separaram, não mais se falavam, mas rimaram juntos com KL Jay na primeira música do álbum – depois da abertura. Xis e LF rimaram juntos na faixa “O sonho”, onde falaram sobre “o sonho que une a verdade, a justiça e o poder”4P.

O RZO estava no seu melhor momento, participaram com a Família RZO e seus maiores talentos e revelações na faixa “Piripac”. MV Bill estava voando alto, Rappin Hood estava no auge, lançou seu primeiro álbum solo também em 2001, SNJ e Potencial 3 fizeram a união de duas gerações, o Consequência era uma revelação, DJ Cia estava entre os melhores DJs do país, Nelsão e Funk Cia eram a representação da raiz, Voz da Periferia foi a novidade, mesmo sendo um grupo formado no início dos anos 90, ocuparam o espaço que KL Jay sempre faz questão de abrir para grupos de quebrada.

Além de todos esses nomes, ainda tem B.A.D (Tribunal Popular), Posse Mente Zulu e Rota de Colisão na abertura, Paulo Brown e Ice Blue em interlúdios. A voz que abre o álbum é do Edi Rock e para fechar Mano Brown, dando 16 minutos de ideia, distante de todos os outros, na faixa de número 31, que naquele momento também era a idade do líder dos Racionais. E as mulheres? Kléber sempre lembra delas em seus projetos, Negra Li participou com o RZO, a Chris Lady Rap teve uma faixa só sua e o único vídeo lançado também foi de uma mulher, “Mente engatilhada” da Dina Di com participação do Lakers (Código Fatal).

Já que citei a Dina Di, aproveito para comentar a parte triste dessa história que completou 20 anos. Sabotage e Negro Útil participaram também com o RZO e J.L ‘A Lenda’ gravou um freestyle com Kamau. Foram 4 grandes perdas, 4 talentos, cada um com sua particularidade e com certeza tods deixaram saudades. Foram representantes da Cultura periférica e as suas mortes foram como a de tantas outras pessoas da periferia, excesso de violência, descaso do poder público, pobreza, falta de cuidado na saúde.

Ao mesmo tempo, na faixa “Tudo por você também”, Xis traz a esperança, o futuro, fala dos filhos, cita nomes que hoje estão trabalhando com o pai – Kalfani, William, Hanifah – só pra citar três dos filhos do KL Jay. Vinte anos depois surge a KL Música, onde os filhos são artistas do selo, é como uma dinastia.

O álbum foi lançado pela 4P com distribuição da Trama, gravadora que naquele momento era a que mais apostava na música Rap, não vou entrar no mérito se foi bom ou ruim para o Rap. Posso falar da relação Trama X mídia alternativa, o Bocada Forte era tratado como qualquer outra mídia, tínhamos o mesmo acesso aos artistas, recebíamos o mesmo material de divulgação, não havia a falta de respeito, reconhecimento e desvalorização que existe hoje, até por parte de alguns artistas, selos e gravadoras que dizem ser do Rap. Não que isso faça alguma diferença pra mim, mas respeito é bom e todo mundo gosta. Em relação a esse álbum mesmo, recebemos o disco, pôster, fizemos entrevista dentro da 4P, tiramos fotos e ainda fiz meu papel de fã e pedi autógrafo!

Cada faixa que vou ouvindo, vou notando como esse álbum é importante para entender tanta coisa que aconteceu nesses 20 anos. Tem uma faixa que é de recados deixados na caixa postal do DJ KL Jay, onde alguns registros são muito simbólicos. Tem uma mensagem da Meire, era ela quem cuidava da agenda do Racionais naquela época, era com ela que falávamos pra tentar entrevistas e saber qualquer outro detalhe sobre o grupo. Outra mensagem interessante é a do Xis, ele deixa um recado avisando que terminou a letra da música “Entre o amor e o ódio”, que se eu não me engano demorou bastante tempo pra ser lançada.

Mas sem dúvida a mais marcante é da do Alexandre Youssef – ele era o Coordenador da Juventude da Prefeitura de SP, no governo da Prefeita Marta Suplicy (na época do PT) – onde ele fala que precisa conversar sobre a parceria para o Hip Hop DJ ser realizado no SESC, isso elevou o campeonato a outro nível.

Quando estava trabalhando na construção desse texto recebi uma mensagem do meu mano Black Alquimista informando sobre a morte do Ugli C.I (Filosofia de Rua). Não consegui continuar, retomei 3 dias depois e deixo aqui mais uma vez meus sentimentos à família do Ugli, aos amigos e fãs. O fato de muita gente que hoje faz parte de uma cena do Rap que podemos dizer que é paralela, uma cena alheia e desrespeitosa com a história, diversos artistas, selos, produtoras, sites, blogs e também alguns perfis de rede social, sequer deixaram uma nota de pesar. Não fazem falta nenhuma no mundo real, mas isso diz muito sobre o tipo de gente por trás dessa “indústria paralela”. Esse álbum tem a tudo a ver com isso, pois nas faixas “Ouve aí” e “Privilégio 02 (O tempo é rei)” temos muitas referências e alertas sobre esse tipo de gente.

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Ouçam muito esse álbum e todos os outros trabalhos feitos por representantes autênticos e compromissados com a música periférica. Eu particularmente escolhi valorizar quem não fecha com indústrias que trabalham pela destruição em massa do povo preto e pobre. Já basta de armas, álcool em excesso, alimentação ruim e exploração de mão de obra que está criando uma nova forma de escravidão (vide plataformas digitais, apps de transporte e entregas). A “BUSCA” e o “EQUI-LÍBRIO” devem ser uma constante na vida de tods nós!

* O álbum não está completo nas plataformas, ficaram de fora as faixas – “Balanço Rap 1”, “Convocação geral”, “Sbcalux”, “Guerreira”, “9616.1234”, “Balanço Rap 2”, “Ao vivo”, “Se liga na rima” e “Valeu!”.
** Só quem tem o CD ou quem ler a entrevista com o DJ KL Jay vai entender o porque de 31 faixas

[+] Para saber mais detalhes, leia a entrevista com DJ KL Jay

Ouça o álbum na sua plataforma preferida

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