Acervo BF | Entrevista com Ugli C.I – Eterno Compositor e Intérprete

Essa é uma entrevista do nosso Acervo, infelizmente Ugli C.I faleceu no dia 09.09.2021. Última edição em 10.10.2021

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Bocada-Forte: Por que você saiu do Filosofia de Rua?

Ugli C.I: Antes de responder essa pergunta quero mandar um abraço pro DJ Man, pro Fex e dizer que tenho orado muito por suas vidas e de seus familiares. Tenho feito orações ao senhor pra tirar toda a raiva e mágoa que se encontra no meu coração pela forma como sai do grupo que eu fundei… Ao contrário do que andam dizendo pelas ruas, eu não saí por causa do meu disco solo ou por causa da minha religião, até por que eu sou convertido desde 28 de outubro de 1999.

O Filosofia de Rua foi a minha vida, eu fundei o grupo em 1991 junto com o Man, no mesmo dia em que saímos do Fulminantes do Rap (hoje Fulminantes MCs). Gravei 5 trabalhos pelo grupo, uma coletânea, os álbuns “Valeu a experiência” e “Da rua”, quatro remixes e o EP “As histórias continuam…”. Tanto é que o público vê 3 formações diferentes e em todas eu estou lá, enfim eu sai porque os caras (Fex e Man) precisavam de um certo tempo para cuidar dos assuntos do grupo, e eu fui macho o suficiente pra dizer que hoje tenho apenas 30% do meu tempo pra dedicar ao Rap.

Eu esperava pela irmandade, que os caras aceitassem meu tempo, afinal foram mais de 10 anos se dedicando ao grupo. Eu trabalho em dois empregos de segunda a sábado. Casei e meu 1º filho chega ao mundo em junho. O Rap não me dá o dinheiro pra pagar o aluguel, a prestação da máquina de lavar, fogão, geladeira, conta de luz, condomínio, leite e fraldas. Então é aquilo mano, eu preciso trampar cada dia mais e me dedicar ao Rap no tempo vago que é de 30%, como tenho feito. Qualquer coisa que disserem ao meu respeito, fora isso, é mentira e inveja.

B.F: Você vai continuar fazendo Rap, já tem algum grupo novo? Se tiver, qual o
nome e quem são os integrantes?

Ugli: Aí mano eu vou continuar no Rap, porque o Rap é a minha vida, eu sou velha escola tá ligado mano, eu tenho amor pelo bagulho, porque o bagulho me afastou do crime, me afastou das drogas e me direcionou tá ligado. Eu entendi que minha missão na terra é informar e evangelizar através da rima, dom que o senhor me concedeu. Bom, projetos eu tenho vários, o 1º deles é o meu disco solo que vai se chamar “Foi a vontade de Deus que se fez…”.

O grupo A Cúpula, meus verdadeiros irmãos, que mesmo sendo de religião oposta a minha me convidaram para entrar no grupo, sem ciúmes do meu disco solo e dos meus outros projetos, eles mostraram que são irmãos de verdade, entenderam meus 30%. Tanto eu como eles temos o mesmo tempo pra nos dedicar ao hip hop, os integrantes são : Ugli C.I, Braiam, Canhoto, Sam e DJ Branco.

Como você pode perceber eu, o Braiam, o Canhoto e o Sam (todos ex integrantes do Filosofia de Rua) é a vontade do senhor que nós fiquemos juntos, é coisa divina morô mano! É a verdadeira irmandade, a verdadeira família, os meus verdadeiros manos. O 2º projeto que quero colocar em prática após meu disco solo e meu grupo a Cúpula, é o meu grupo gospel que se chama Filhos do rei, sou eu e uns maninhos que colam comigo na Igreja Renascer lá da minha quebrada, a formação é a seguinte: Eu, Moisés, Elias, Nego Abrão e o mano Davi. O 3º e último projeto da minha carreira se chama Parceria Definitiva que sairá tipo em 2005 ou 2006, a gente já escreveu as letras, que são muito evoluídas pros dias de hoje os integrantes são: Ugli C.I & dener (Voz Negra).

B.F: Por você ter feito parte de um grupo conhecido, isso facilita no início
de um outro grupo?

Ugli: Não mano, não facilita em nada. Nós da Cúpula produzimos 2 faixas com o Erick 12, nós mesmos bancamos tá ligado? E tá embaçado pra arrumar uma Gravadora que acredite no grupo, um dos caras pra quem oferecemos nosso trampo chegou a sugerir, a dizer pra nós, que o nosso grupo deveria se chamar “O Filosofia sem o Man”, porque a gente quer dar continuidade no trabalho de conscientização que a gente fazia no Filosofia de Rua, a gente não quer um CD na loja sem divulgação, a Cúpula é um recomeço tá ligado mano? Um recomeço de quem tem a vontade de vencer, o nosso som é pra tocar na rádio, pra minha Mãe e pra sua escutar, o meu filho ou o seu, a sua mina e ninguém se assustar ou se ofender com o que está sendo cantado, eu quero voltar com a rima consciente no Rap, eu digo consciente tipo: valorização da nossa raça, vamos voltar a estudar, vamos ser os advogados, médicos e administradores, vamos lutar por uma cota maior de negros na faculdade, vamos dizer não as drogas, vamos nos prevenir de doenças sexualmente transmissíveis, vamos praticar o amor. É isso que a Cúpula vai pregar em seus versos, exatamente o que nós fazíamos com muito êxito no Filosofia.

B.F:Qual a sua opinião sobre o Rap hoje?

Ugli: Olha mano, eu conheço todos manos da velha escola e quase todos da nova. No meu ponto de vista o Rap de hoje não faria na minha vida o mesmo que me fez o Rap de ontem. Eu digo o resgate tá ligado? O som que faz o Thaide, o Racionais, o Bronks, o Sistema negro, o MRN, o RPW, o Face da Morte, o Comando DMC, etc. Porém, hoje existe muita gente legal e consciente como o Império Z/O do mano Axé, o Expressão Ativa é bem loco eu curto as ideias do MP, O Sabotage, que apareceu agora mas vem de milianos de correria, o Consequência trinca na rima, o West Rap, o Façção Ant Sistema, Trama da Rima, tudo mano que sabe o que fala, tem ciência de quem os escuta. O Rap hoje mostra muito o lado do crime, porém em meu ponto de vista não manda ninguém pro crime, os caras dão o exemplo de como é o veneno, abraça quem quer, não é minha linha, porém eu não critico, mas também não faço.

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B.F: Hoje, o seu estilo de Rap é Gospel?

Ugli: É mano, eu conheci uma verdade na palavra do evangelho e essa verdade me fez enxergar que a minha missão era conscientizar e evangelizar através da rima, aí você me pergunta – ‘Mas a Cúpula não é gospel?’ Eu te respondo – e o Filosofia também não era. Eu tenho esse compromisso com a palavra do evangelho e assim como arrumei o espaço no Filosofia pra pregar o evangelho, na Cúpula, em minhas composições fica claro que eu sou um soldado de cristo, levando nas rimas a esperança, a paz e o amor. Meu disco solo é 100% gospel, e dentro da Cúpula eu sou o pastor Ugli, sempre conversando com meus irmãos, aconselhando, cada um tem sua religião. Eu não me julgo o dono da verdade, mas é aquilo, cada um tem uma crença e a minha se chama Jesus Cristo.

B.F: Como você começou sua carreira?

Ugli: Eu comecei em 1989 sozinho, curtia o breaking e comecei a rimar. Era umas riminhas meio bobas, mas foi assim que eu comecei. Um cara fundamental nesse jogo, foi o Tchelão (cunhado do Canhoto) que em 1990 a gente se conheceu e ele me convidou pra entrar no grupo dele, que se chamava Fulminantes do Rap. Ele me disse que cantavam sempre no clube do Rap que acontecia às segundas feiras, se não me falha a memória o local era na barra funda, no Clube da Cidade. Nesse grupo do Tchelão, os DJs eram o MAN e o Marcelinho (ex-Câmbio Negro) o Man mais olhava e quem metia a mão mesmo era o Marcelinho, dali pra frente fui trilhando minha história.

B.F: Quantas letras já compôs que foram gravadas?

Ugli: Das que eu escrevi, a mais famosa de todas se chama “A cor da pele não influi em nada” que lançou o Filosofia de Rua no cenário. Só o Man, o Canhoto, o Dom, o Braiam e o Sam sabem o que o Filosofia de Rua passou por causa dessa letra, até hoje o Filosofia de Rua é boicotado por causa dessa música, morô mano? Eu escrevi e foram gravadas 15 letras, entre elas: “Paz interior”, “A noite de ontem”, “Se não fosse você”, “As histórias continuam”, “Quem é você”, “Perseguição infernal”, “Kaianagandaia”, “Role pela noite”, “A
banca é nossa”, “Valeu a experiência”, etc.

B.F: Quer mandar um recado para o público?

Ugli:
Bom mano em 1º lugar quero te agradecer a oportunidade, pois eu estava precisando desabafar com um veículo de comunicação sério, que não distorce o que é falado, a você e toda equipe do Bocada, valeu!!! Aos meus irmãos de verdade Canhoto, Braiam, Sam e DJ Branco eu amo vocês, Deus é um só. Aos manos Rudok e Rk, que fizeram parte do Filosofia de Rua na época mais power do grupo, quando o bicho pegava e todo mundo queria matar a gente, eu amo vocês. Ao Erick 12, ai mano Deus tem uma obra maravilhosa em sua vida, Marrom valeu meu truta, ao Cacau e James D Rap Sensation, a favela toda da velha escola, ao Pregador Luo e toda família 7 taças. Lembrem-se, é a vontade de deus que prevalece e não a do homem. Paz!

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