Cultura Hip Hop à flor da pele com a rapper Mih

Mih. Foto: Divulgação

Cantora, compositora e também produtora de eventos, a rapper Mih é pioneira na Cultura Hip Hip em Santa Catarina, em especial na capital, Florianópolis. Ela é uma das vozes femininas mais importantes da cena da região sul e produz, junto com DJ Glazer e Miguel Santos, a festa de Hip Hop mais tradicional da ilha, a Hip Hop de Raiz.

Suas raízes musicais são fortes e vem da família. Seu avô, Paulo Guedes, foi um grande Seresteiro e também seu maior incentivador. Apaixonada pelos gêneros do Rap, r&b e soul, Mih já desenvolveu trabalhos com artistas importantes da cena catarinense, como Rael LDC, P.D.R, DJ Glazer, dentre outros.

Mih é uma daquelas artistas que você vai trombar direto em qualquer evento relacionado a Cultura Hip Hop em Floripa. Se você visitar a ilha, souber de algum evento de Rap, graffiti, dança de rua ou um show de Rap, ela provavelmente estará lá. É claro, ela é só uma, mas sempre dá um jeito de prestigiar a cultura de rua em todas as suas expressões.

O Bocada Forte procurou a rapper e produtora Mih para um bate-papo. Confira a entrevista!

BF: Você é uma das artistas pioneiras no Hip Hop em Santa Catarina. Fale pra gente sobre esta caminhada, os desafios, as dificuldades. Como mulher você deve ter enfrentado muita resistência, principalmente no meio da música Rap, ainda tão machista.

Mih: Realmente não foi fácil e ainda não é! Comecei a escrever minhas letras em 94, com 16 anos, quando conheci o Rap, mas já escrevia poesias antes. Se hoje ainda é do jeito que é (isso que melhorou bastante) imagina há 26 anos atrás, quando tínhamos maior dificuldade também na comunicação e informação. Hoje acredito que eu escolhi o Rap, mas também fui escolhida por ele de alguma forma. Quem me conhece sabe que muitas pessoas vem conversar comigo esperando alguma mensagem positiva, uma mão, um incentivo pra vários tipos de coisas que estejam enfrentando. Sempre foi assim, e através da música eu consigo passar essas mensagens pra muito mais pessoas ao mesmo tempo. Comecei a ter coragem de ‘botar a cara’ em 2007, em parcerias com alguns homens que admiro pela postura. Fui a primeira mulher a subir num palco e cantar meu som solo aqui, com meu nome no flyer, em 2011. Daí você faz as contas e vê quanto tempo demorou, de quando eu comecei a escrever até este dia aí.

Hoje eu continuo com minha música, e produzo, junto com o Glazer e o Miguel Santos, uma festa, na qual já participaram, chutando baixo, mais de 300 artistas entre DJs, MCs, dançarinxs, poetas e grafiteirxs. Como em qualquer outro setor, onde a maioria ainda é masculina, ser vista como ‘igual’, ‘estar inserida’ e ser respeitada são tarefas difíceis. O machismo está sempre presente, só que algumas vezes mascarado. As cobranças e comentários vem de diversas formas, tentando obrigar você a provar algo o tempo todo. Enfrentei sim, e mesmo depois de tantos anos, ainda enfrento. Ainda dói, esta é a verdade.

(…) existem homens que querem ter mulheres que caminhem junto, lado a lado, mas existem aqueles que só aceitam ter do lado a mulher que eles poderão comandar… E fazem a pose de não machistas! Seja a mulher que escolhe os homens que você quer por perto!

Mih em ação na festa Hip Hop de Raiz. Foto: Divulgação

BF: Você acha que a presença negativa do machismo é uma característica no Hip Hop brasileiro ou é algo que ocorre no mundo todo? Que recado você daria para as artistas que estão iniciando sua caminhada na Cultura Hip Hop?

Mih: Ocorre no mundo todo! Inclusive acredito que nem preciso citar uma letra de Rap machista aqui… São tantas que com certeza quem está lendo agora já deve ter lembrado alguma. Um recado é “façam o que seu coração mandar, acreditem em vocês, e sejam fortes acima de tudo. A mulher tem que amar realmente o Rap para viver o Rap.” Posso dar vários exemplos sobre o machismo no Hip Hop. Já começa se você vai fazer um som com ‘eles’. A sua parte é a última e se a sua parte se destacar, então nem se fala. No Instagram do Hip Hop de Raiz quem responde as mensagens sou eu, e a maioria começa com ‘- é aí, irmão’ ou algo masculino desse tipo. E eu respondo: – é irmã aqui. Já fui de não ligar, mas hoje faço questão de mostrar que existe, sim, mulheres fortes, na linha de frente de grandes coisas!

Existe uma cobrança da presença de mulheres nos núcleos, sendo assim, existem homens que querem ter mulheres que caminhem junto, lado a lado, mas existem aqueles que só aceitam ter do lado a mulher que eles poderão comandar… E fazem a pose de não machistas! Seja a mulher que escolhe os homens que você quer por perto!

BF: Conta pra gente sobre o Hip Hop em Santa Catarina e em Floripa. Você vê diferenças diante das outras cenas?

Mih: Eu ando com um orgulho enorme de quanto o Hip Hop cresceu em Floripa e em Santa Catarina! Cada vez mais conheço e vejo pessoas de muito talento, responsabilidade e caráter no Hip Hop. Lógico que sempre existe o contrário disso, infelizmente, mas esses não se criam.

Tem diferença das outras cenas sim. Em termos de visibilidade, nas cidades maiores, onde o acesso a TV é mais fácil e as grandes emissoras de rádio, mas com as Redes e Mídias Sociais, estamos mostrando que aqui tem voz, e muita também! Em relação a outros fatores, acredito ser tudo muito parecido hoje em dia. A luta continua!

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Mih em ação. Foto: Divulgação

BF: Além de artista, você também é produtora de eventos. Atualmente você produz, junto com DJ Glazer e Miguel Santos, a festa mais tradicional de Florianópolis, o Hip Hop de Raiz. O legal desta festa é que ela não é voltada somente a música, mas também busca dar espaço a todos os quatro elementos do Hip Hop. Isto é raro. Fale pra gente sobre esta festa, como surgiu a ideia dela.

Mih: Sim, já trabalho com produção faz alguns anos. Em 2011 produzi a Antivirus, no casa noturna Mustafá. Uma festa com MCs, DJs tocando no vinil e artistas fazendo live paint. Em 2017 criei a Happy Hour na Joaca, e em todo esse tempo ajudava na divulgação de outros eventos envolvendo o Hip Hop. Eu, Miguel e DJ Glazer sempre estivemos juntos nestes eventos de alguma forma e o Hip Hop de Raiz foi criado com tudo que amamos e o que também sentíamos falta nessas festas, ou seja; é a festa que sempre quisemos ir! No Hip Hop de Raiz nossa palavra de ordem é o RESPEITO, e além de passar informação, a formação completa é imprescindível.

BF: Na próxima quinta-feira, dia 5 de março, vai ter a Hip Hop de Raiz vai ter uma edição especial dedicada as mulheres. É sua ideia realizar mais eventos como este, dedicados a arte feminina? Fale sobre a festa e sobre projetos futuros.

Mih: Hip Hop de Raiz ocorre todas as quintas-feiras e em todas as edições temos mulheres no line up. Isto é algo que não abrimos mão. Dia 8 de março é Dia Internacional das Mulheres e, em homenagem, nosso line up será completamente feminino. Teremos 3 DJs incríveis: Tamy (RJ) , Maryjane e Kist; pocket show da Gritto, Live paint da Emily Estranha e eu estarei lá no mic apresentando tudo isso! Quem quiser participar deste momento a festa começa as 22h30, no bar DeRaiz, na Joaquina [Veja abaixo].

Hip Hop de Raiz tem noite dedicada às mulheres em Floripa

BF: Quem você destacaria da cena Hip Hop catarinense, que atualmente vem desenvolvendo bons trabalhos, seja como MC, DJ, no Graffiti ou na Dança.

Mih: Essa é uma pergunta difícil de responder… Tenho uma admiração enorme por tanta gente e a maioria sabe da minha admiração por elxs porque eu falo diretamente! Poderia fazer uma lista enorme. Primeiro preciso destacar duas produtoras de eventos que envolve o Hip Hop de alguma forma e fazem um trabalho incrível: DJ Brum (Baile da Brum) e Drika (Whatafunk?). Em destaque na cena popular (vou juntar aqui catarinenses e não catarinenses que moram aqui e também compõem a cena) vejo artistas como a Versa, Pikena Ketty, Gritto, Beal, Caíme, Young Daddy, Laionel, Nado, Preto Lauffer, DJ Glazer, DJ Maryjane (primeira mulher tocando só com vinil aqui), DJ Koke, DJ Guro, DJ Mad, Wagz, Nick Luz, Mandin, Rootstencil, Quatrolho, Sara, Nazska, Emily Estranha (conheci o trabalho agora e amei a proposta)… E na pista Elfo, Hulk, Dezion, David Botelho, Carlos, Bryan, Yuri, Duda (adoro ver a evolução dela a cada quinta feira), Emilyn, Jubis Black, Jess, Raquel, e muitxs mais!

Estão cortando pela raiz tudo que tantos lutaram e suaram pra plantar! É o passado controlando o futuro e nosso futuro está perdendo a liberdade. Os que obedecem cegamente estão cada vez mais cegos e nós passamos os dias precisando estar ‘com o grampo da granada nos dentes’ pra enfrentar cada dia e cada novidade!

BF: Vivemos tempos difíceis no país, com uma onda de ideias reacionárias que atingem diretamente a cultura, a arte, a música. Como você encara este momento e como você acha que o Hip Hop deve se portar diante de tudo o que vem acontecendo?

Mih: Estamos em retrocesso cultural. Ninguém estará saudável ajustado a uma sociedade doente. Estão cortando pela raiz tudo que tantos lutaram e suaram pra plantar! É o passado controlando o futuro e nosso futuro está perdendo a liberdade. Os que obedecem cegamente estão cada vez mais cegos e nós passamos os dias precisando estar ‘com o grampo da granada nos dentes’ pra enfrentar cada dia e cada novidade!

Não podemos deixar de lutar pela cultura, pela educação, por nosso espaço e modo de expressão! Devemos passar pros mais novos a informação pra que lutem com sabedoria e não percam a postura! Assim como os mais novos podem ensinar os mais velhos a desconstruírem alguns hábitos. O que temos é fruto do que fazemos. Temos que nos manter de pé!

Mih em ação na festa Hip Hop de Raiz. Foto: Divulgação

BF: Muitos dizem que Hip Hop e política não devem se misturar. Mas, se analisarmos com atenção, a Cultura Hip Hop, por si só, é pura política. Aliás, a Cultura Hip Hop nasceu em 1973 com um forte ingrediente político de resistência. Você acha que o Hip Hop vem perdendo sua essência com o passar dos anos? O que podemos fazer para resgatar a postura de contra-cultura, tão significante no Hip Hop?

Mih: Tenho uma música em que falo ‘Viver hoje eu sei, que não tem sido nada fácil, o tempo passa, tenho que agir e que ser ágil. Todo dia no jornal crime político é destaque, temos que acordar, somos a mira do ataque!’ (Depende de Você) e outra em que falo ‘querem nos calar, o que escrevemos é nocivo, nocivo pro sistema, pros ricos e pros políticos. Continuo lutando cada batalha dessa guerra, escrevendo, falando, cantando o que acredito. Quero as flores em vida, não debaixo da terra, mas que mesmo debaixo da terra ecoe meu grito’.

Vejo muita gente lutando pra manter a essência e muita gente indo contra. É difícil esse contra-fluxo. Realmente temos que conscientizar a postura de contra-cultura, que anda um pouco esquecida no Hip Hop, pra não virarmos ‘robozinhos do sistema’. O Hip Hop veio como forma de reação aos conflitos sociais e contra a violência, pra ir contra a organização criada pela sociedade capitalista de ‘cultura de massa’, ‘indústria cultural’, aonde a maioria pensava, sentia e agia da mesma forma consolidando a ideia.

Não devemos esquecer que cabe a nós a construção do diferente, onde haja justiça e liberdade. Para construir sociedades livres, devemos limitar o controle do passado! ‘Me diz então, aonde vamos viver, aonde o seu filho vai crescer? Me diz então, aonde vamos assim? Temos de mudar o fim’ (Depende de Você)

Leia e faça o download da segunda edição da Revista BF
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