Revista Fafanto abre alas para a cultura periférica e a memória viva do Hip-Hop brasileiro
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A estreia da Revista Fafanto marca uma nova fase para o projeto Hip-Hop Mulher, que há anos articula debates sobre cultura, gênero e educação nas periferias brasileiras. O nome escolhido, inspirado no símbolo adinkra “Fafanto” — a borboleta que representa metamorfose, ternura e transformação — traduz bem o espírito dessa edição inaugural: um voo em direção à autonomia e à valorização da produção intelectual e artística negra.
Logo no editorial, Tiely, editor e um dos fundadores do coletivo, aponta a transição do antigo Zinotícias para a Fafanto, reafirmando o compromisso com a “cultura periférica de ontem, hoje e sempre”. A edição reúne textos e entrevistas que costuram história, política e arte, reafirmando o papel do Hip-Hop como movimento de pensamento e ação.
Entre os destaques, o texto de Jupi77er sobre Devilzinha MC narra como a artista, vinda do Engenho de Dentro (RJ), subverte as batalhas de sangue ao rimar “putaria” como gesto de poder e consciência corporal, enfrentando o machismo e a transfobia que ainda marcam a cena. Jupi77er, também MC e ativista, reconhece nela “um ponto de luz num movimento que parece regredir no quinto elemento — o conhecimento”.

Na sequência, o artigo da socióloga Luciane Soares da Silva questiona as Leis anti-Oruam e o moralismo político que criminaliza o funk. Ao relacionar a proibição dos bailes ao racismo estrutural, Luciane lembra que “o funk sempre incomodou por ser ingovernável”, e denuncia como o Estado transforma corpos negros em alvos.
Outro eixo da revista é o reconhecimento acadêmico dos Racionais MCs. Em texto de Arthur Dantas Rocha, o grupo é apresentado como “intelectual público”, ao receber títulos de Doutor Honoris Causa pela Unicamp e pela UFSB. A presença dos Racionais nas universidades simboliza a inversão histórica: o conhecimento das quebradas agora ocupa o espaço que antes o ignorava.
O centro da edição é a longa entrevista com Sueli Chan, pedagoga e militante do movimento negro. Ao conversar com Marciano Ventura, ala revisita os anos 1990, quando, ao lado de nomes como Nelson Triunfo e Nino Brown, articulou a chegada do Hip-Hop às políticas públicas e à educação. De São Paulo a Diadema, projetos como RAP…ensando a Educação integraram o rap às escolas, aproximando a pedagogia freireana das linguagens da rua. “Paulo Freire queria uma escola sem muros”, diz Sueli. “Nós levamos o Hip-Hop para dentro dela.”
Sueli também narra a fundação da Zulu Nation Brasil, criada a partir do diálogo direto entre Nino Brown e Afrika Bambaataa. Para ela, essa conexão representou “a união entre ancestralidade africana e juventude periférica brasileira”, ampliando o alcance político e educativo da cultura.
O número ainda traz espaço para as DJs da coletiva Discopretagem, que transformam os bailes em atos de afirmação negra e feminina, e a seção Quinto Elemento, que indica livros recentes sobre Hip-Hop e cultura preta — de Na Trama do Rap, de Amailton Magno Azevedo, a Racionais: Entre o Gatilho e a Tempestade, de Daniela Vieira e Jaqueline Lima Santos.
A Fafanto encerra com a sessão Som na Caixa, apresentando lançamentos de Stefanie MC, Melly, Linn da Quebrada e da banda punk Punho de Mahin, mostrando que a produção periférica segue pulsante e diversa.




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