Territorialismo, rivalidade e competitividade feminina

Uma reflexão sobre a estruturalidade do sexismo

Uma das faces mais difíceis do combate ao machismo é o desafio da desconstrução das práticas relacionadas ao sexismo e misoginia entre as próprias mulheres. Muitas vezes, é necessário a reflexão para combatê-lo até com mulheres que se sentem e intitulam feministas. A questão é bem profunda.

O quanto desconstruída (ou reconstruída) cada uma está e se encontra?

De fato, se reconhecer feminista não é algo que vem da esfera do fácil. Se fácil, é superficial, pois é necessária toda uma bibliografia histórica e de direitos para se entender a sua estruturalidade, base de nossa sociedade. E esta sociedade odeia mulheres.

Foto ilustrativa. Reprodução/Google

O Brasil é o quinto país do mundo que mais comete feminicídio. É preciso entender que a violência contra a mulher é uma coisa inaceitável, que foi normalizada, assim como tantas das práticas ao longo da história humana. Na própria pré-história, a imagem que se cria do macho caçar a fêmea com uma pancada na cabeça. Daquela época pouco sabemos do comportamento, apenas sabemos que eles existiram pelos fósseis e que utilizavam ferramentas pelo encontro destes objetos. Da onde e por que razão este mito foi criado? A agressão as mulheres foi construída, em diferentes culturas e de diferentes maneiras ao longo do tempo. Territorialismo, rivalidade e competitividade femininas. É parte do plano machista, que as mulheres briguem entre si e se rivalizem.

A competitividade entre nós, mulheres, está presente no dia a dia em diferentes espaços. Da escola ao mercado de trabalho e entre todas as classes sociais. A rivalidade entre mulheres e é incentivada e normalizada:

“Prepara que agora é a hora
Do show das poderosas
Que descem e rebolam
Afrontam as fogosas
Só as que incomodam
Expulsam as invejosas
Que ficam de cara quando toca
Prepara
Se não tá mais a vontade sai por onde entrei”

Anitta e Ludmilla. Foto: Reprodução/Google

Que discurso é esse, que expulsa quem estava antes, manda sair pela mesma porta que adentra!? Reflita quem se beneficia, quando somos programadas para sermos inimigas: “Beijinho no ombro”.

Território criado.

O medo dos homens e do sistema à união das mulheres, vem de longe na nossa história. As bruxas foram queimadas na inquisição, em outro tempo, e as adúlteras apedrejadas em praças públicas. O sistema patriarcal sempre buscou exterminar a natureza da mulher consigo mesma e com suas semelhantes. Usando como ferramenta a igreja, cometeram um verdadeiro genocídio, ou será mais apropriado ao termo feminicídio? Milhares de mulheres foram mortas com finalidade de manter o poder social e econômico e reprimir a participação das mulheres na sociedade. São aspectos políticos e sociais que não podem deixar de ser pensados. Mulheres unidas são potências.

Quando brigamos e competimos entre nós mulheres, estamos a serviço do patriarcado

Quase todas as mulheres já viveram em suas vidas experiências muito fortes no sentido de união, quando as energias femininas se equilibram, se respeitam, trocam e se potencializam. É preciso trazer esta reflexão para toda sociedade. Precisamos ser disparadores. O quanto somos conscientes, num sentido de oprimirmos o patriarcado em nossas ações cotidianas e em nós mesmos?

Quando brigamos e competimos entre nós mulheres, estamos a serviço do patriarcado. Quando menosprezamos, agredimos ou rebaixamos uma de nós, somos o próprio patriarcado.

A reflexão fica. A vida ensina. A própria cantora que um dia cantou “sai por onde eu entrei”, a pouco tempo veio as redes defender uma colega cantora da mesma classe que estava sendo atacada por seus fãs e falou: – Não ataquem a fulana. Ninguém é melhor que ninguém. Mas, em seguida, tem um bafafá rolando sobre a retirada do nome de uma da música produzida em parceria. Ego? Se isso acontece no mercado fonográfico, que tem registros documentados e provas, imaginem na esfera do cotidiano real.

Mulheres brigam quando uma brilha mais que a outra e isso é trágico, animalesco e ignorante. E quando a confusão é tratada publicamente, a mídia alimenta, toma partido e lucra com o circo.

Este mito criado, de que somos inimigas, precisa desaparecer. Sororidade existe, precisa ser divulgada e aplicada. Quem recebe nunca esquece e geralmente aprende a passar pra frente. Em uma versão bem resumida, significa a mesma coisa que fraternidade, só que para e por mulheres.

De fato, estamos todas em processos de construção de nossos “eus” conscientes e desconstrução do machismo enraizado, que desde a infância nos compara e nos ensina “a não confiar em nenhuma mulher”.

Cabe a todos nós, mulheres e homens, a busca e luta por uma sociedade mais justa e igualitária

Para sermos feministas, ou pró-feministas, é preciso nos questionarmos o tempo inteiro. Quais nossos próprios lugares? É necessário ter comportamento anti-patriarcal, anti-racista e de consciência de classe. E quem pensa e não age por este viés, não representa a essência deste movimento, que busca reflexão, compartilhamento de saberes e aprendizados em busca de melhoria.

Cabe a todos nós, mulheres e homens, a busca e luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Agradeço a leitura! Fica a reflexão para ação.

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