Opinião | A fórmula do esquecimento

Quando era pequeno a tia dizia que alguns fantasmas só desaparecem quando esquecemos que eles existem… Nunca acreditei nela, mas hoje sei que ela não estava falando dos fantasmas, mas da gente.

Notei que muitos amigos ficaram em choque ao ver o “Barranco” lotado de burgueses usufruindo do restaurante. Li diversos comentários e me pareceu que algumas pessoas estavam revoltadas. Foi a mesma coisa com as brincadeiras do vereador “merda” que quer ser prefeito. Foi assim, também, com os empresários e suas carreatas suicidas, com os velhos da intervenção militar, com os esportistas da Orla, com os batedores de panela dos bairros nobres e as senhorinhas do centro histórico.

Hoje penso que minha tia tinha razão.

Grandes cidades enfrentam o problema dos ônibus lotados em meio a quarentena. Foto: Folha de S. Paulo

Não vejo posts, fotos ou comentários sobre a periferia jogando bola no campinho de terra, fazendo churrasco no fundo do beco, bebendo nos botecos. Não vejo indignação sobre o ônibus cheio às sete da manhã. Pela foto da pra notar que o distanciamento tá bem curto e isso é de segunda à sexta.

Pois então, meu povo, isso também está acontecendo, porém o nível de preocupação é tão baixo que chega parecer inexistente. É como se estar num restaurante comendo e bebendo fosse muito pior que estar num ônibus lotado. Isso beira a inveja, mais que a indignação. E tem um motivo: somos fantasmas, invisíveis aos olhos da sociedade que se sente humilhada pelas imagens que chocam.

E onde as redes sociais entram nisso? Bom, a gente segue a cartilha do que minha tia disse… A periferia não está no top trends. Alguém já viu imagens da bateção de panela de alguma periferia do Brasil no Jornal Nacional? Alguém lembra do depoimento de moradores de periferia sobre como está difícil se manter numa casa de dois cômodos com quatro crianças de menos de dez anos e dois idosos com mais de setenta, aqui em Porto Alegre?

Também não vejo nas redes indignação com as pessoas em situação de rua que voltaram a dormir embaixo das marquises do centro por falta de recursos nos abrigos.

Caso recente do Desembargador que humilhou o Guarda Municipal ao ser repreendido por não usar máscara no Parque. Foto: Reprodução/Google

Ora, meus amigos, a maioria dos ricos se acham a última bolacha do pacote, o famoso:

“Sabem quem eu sou?”
“Sabe com que tu ta falando?”
“Eu sou filho do…”

Mas não vamos generalizar. Tem muito rico consciente isolado em casa, com tudo que o dinheiro pode oferecer.

Não quero com estas palavras dizer que estão errados em criticar ou denunciar isso ou aquilo, pois sou crítico também, só peço que sejam menos seletivos. Os ricos e bem nascidos não são mais importantes que os que vem das vilas da cidade. Não falar da periferia não vai fazer ela sumir, só vai aumentar o número de mortes pela doença.

E assim o Rio Grande do Sul segue sua saga incansável de passar vergonha. De “Vanguarda do roque” até “Tony da Gatorra”. Do “Meu partido é o Rio Grande” ao “Luis Carlos Heinze”. Talvez seja por isso que muita gente comemora guerras perdidas, o fim do carnaval popular e adora cantar “Morocha”.

Nossos heróis não morrem de overdose, mas matam a gente de vergonha.

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