Opinião: Cultura, semente, semeador

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Por DJ Cortecertu

Estudo britânico diz que hip-hop teve mais influência do que Beatles e Stones nos EUA, esta foi uma das notícias que mais repercutiram nas redes sociais nesta semana. Eu, como um tiozinho que viu o hip hop nascer aqui no Brasil sem nem ao menos saber o que isso significava, tenho aquela sensação de que algumas das minhas suspeitas foram confirmadas. Mas vamos falar da gente, da nossa experiência.

Sou da geração hip hop. Aquela que tem parte de sua formação cultural construída nos territórios criados pelos artistas e militantes que abraçaram o que conhecemos como elementos do movimento.

Atualmente, o hip hop e o rap ocupam um espaço enorme na vida de muitos jovens. Por diversos motivos, o rap acabou sendo a principal expressão da cultura de rua. O tempo passou, a cena mudou, o público mudou. Hoje, temas e mais temas rimados mostram a continuidade e a ruptura de diferentes discursos.

Sob o olhar de quem tem o rap e o hip hop como cultura, é evidente o respeito pelo solo onde tudo foi plantado aqui em nosso país. Quem entende o rap e o hip hop como cultura respeita a semente, a mão de quem semeia, valoriza o tempo que condiciona o crescimento em locais, mentes e corações férteis. Quem entende o rap e o hip hop como cultura admira os galhos, as diferentes folhas, mas não esquece que existe uma raiz.

Conhecer todo processo que liga a ancestralidade, que fortalece laços afetivos, que destrói a história oficial e recria nosso passado é algo valioso. Saber que os excluídos da sociedade, da norma culta, da arte, do próprio conceito de música influenciaram diferentes áreas, estilos e gêneros tem um ar de missão cumprida.

Essa bagagem muitas vezes entra em conflito com as regras do mercado, que são aplicadas em quase todos os âmbitos da nossa vida. Não dá pra aceitar essa lógica sem fazer nenhum questionamento. Entretanto, o capitalismo necessita do “não questionamento” para as coisas fluírem. Construir consciência sempre é mais difícil, principalmente em meio ao conflito de gerações, ambiente em que o papo dos ‘quarentões-hop’ sempre irrita os mais jovens do rap.

Quem vê o rap e o hip hop somente pelas lentes do mercado tem ligação e compromisso apenas com suas regras. A questão social (e qualquer outra) passa a ser apenas mais um produto na prateleira, mercadoria que pode ser adquirida de acordo com a nova onda.

Quando a raiz não é respeitada, as escolhas são mais fáceis. O dinheiro justifica tudo. O dinheiro dá ares de ciência e religião, cobre de certezas qualquer atitude. Resta apenas dizer amém.

É claro que na mente da maioria rola algo do tipo: “Falar de cultura, semente, semeador? Que coisa ingênua! Para com isso! O negócio é colheita.

Sei que a notícia citada acima fala da mudança que o hip hop promoveu no mundo da música, mas sabe como é… Esses tiozinhos são muito chatos. Bom é saber que tem muito artista que consegue expandir seu alcance sem precisar desprezar sua raiz.

Quanto ao artista que nunca teve raiz… Aí é outra parada.

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