Memória BF | The Teacha, KRS-One completa mais um ano de vida

Publicado pela primeira vez em 20 de agosto de 2019, última edição em 20 de agosto de 2020

Considerado por muitos como um dos maiores MCs de todos os tempos e também um dos mais notáveis representantes da cultura Hip Hop mundial, Lawrence Krishna Parker, mais conhecido como The Teacha (O Professor) KRS-One, nasceu em 20 de agosto de 1965. São 55 anos completados hoje.

O BF já publicou, afora seus diversos lançamentos em áudio e vídeo, três matérias significantes sobre o MC. Em novembro de 2014 publicamos a matéria “KRS-One: Os 9 Elementos da Cultura Hip Hop” e, em 2015, o artigo “KRS-One: O Hip Hop em Carne e Osso”, em referência ao lançamento do primeiro álbum do Boogie Down Productions, “Criminal Minded”.

Posteriormente, também publicamos outra reportagem especial intitulada “Hip Hop, filosofia, espiritualidade e metafísica. KRS-One e seus novos projetos”, que traz uma entrevista do MC publicada este ano.

Abaixo alguns trechos importantes das matérias citadas acima, intercalados com vídeos do Professor KRS-One e o streaming para o último álbum lançado pelo MC, “The World Is Mind”:

KRS-One. Foto: Reprocução/Picasa

KRS-One: o Hip Hop em Carne e Osso

KRS-One é, como muitos dizem por aí, “a cultura hip hop em carne e osso”. Desde que iniciou sua caminhada pela música rap, por volta de 1986, a qualidade de sua rimas, o conteúdo de suas letras e a forma animada e positiva com que apresenta-se nos palcos conquistam mais e mais fãs e admiradores.

Nascido em Park Slope, bairro do Brooklyn (NYC), em 20 de agosto de 1965, Lawrence Krisna Parker, conhecido como KRS-One, possui descendência nigeriana e jamaicana.

Com a vida marcada por dificuldades e superações, Lawrence, com apenas 13 anos de idade, sai de casa para ganhar o mundo. Moleque pobre e franzino, adorava jogar basquetebol, mas já demonstrava interesse pela leitura e fome de saber. Quando não estava pelas quadras de basquete, era visto na Biblioteca Pública do Brooklyn. À noite, refugiava-se num abrigo para moradores de rua, hora na ilha de Manhattan, hora no bairro do Bronx. E foi por lá que ele acabou por ser apelidado de “Krishna”, devido ao seu interesse pela espiritualidade e filosofia Hare Krishna. Foi justamente nesse ambiente que ele conhece seu grande parceiro, Scott Sterling. Juntos, costumavam sair à noite para trocar idéias e graffitar nos becos e trens da cidade. Em suas assinaturas o nome “KRS-One”, que significava “Knowledge Reigns Supreme Over Nearly Everyone” ou “O Conhecimento Reina Supremo Próximo a Todos”.

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KRS-One e os 9 Elementos da Cultura Hip Hop

Nova York, 21 de maio de 2006

As redefinições [N.T.: KRS-One refere-se a “refinitions”, um termo criado por ele, unindo as palavras redefinições e definições] que irei apresentar são uma coleção realizada pela organização Temple of Hip Hop (Templo do Hip Hop) dos termos culturais e códigos do hip hop, desenhados para proteger, preservar e estabelecer um Espírito comum para o hip hop e aumentar a auto-estima dos verdadeiros hiphoppers. Outras organizações da cultura podem praticar um diferente conjunto de elementos e termos. Contudo, nossas redefinições permanecem como uma ferramenta fundamental de ensino. Através desse “corpus de conhecimento” nós promovemos nossa auto-estima como especialistas culturais do hip hop.

DJing (estudo e aplicação da produção da música rap e difusão por rádio)
Comumente se refere ao trabalho de um disc jockey. Contudo, o disc jockey do hip-hop não toca simplesmente discos de vinil, fitas e CDs. Os deejays do hip-hop/rap interagem artisticamente com a execução de uma canção gravada, cortando, mixando e riscando a canção em todos os seus formatos gravados. Mesmo além da música e outras formas de entretenimento, o DJing, como um conhecimento consciente, não apenas inspira nosso estilo de instrumentação musical, mas também expressa o desejo e a habilidade para criar, modificar e/ou tranformar a tecnologia musical. Seus praticantes são conhecidos como turntablistas, deejays, mixologistas, grandmasters, mixmasters, jammasters, e funkmasters.

Breaking (estudo e aplicação das formas de dança de rua)
Comumente chamado de Break Dancing ou B-Boying, ele agora inclui formas de dança que já foram independentes: Up-Rockin, Poppin e Lockin, Jailhouse ou Slap-Boxing, Double Dutch, Electric Boogie e a arte marcial da capoeira. Também se refere comumente a uma dança de rua de estilo livre (freestyle). Os praticantes do Breaking tradicional são chamados B-Boys, B-Girls ou Breakers. Os movimentos do Breaking são comumente usados em aeróbica e outros exercícios que refinam o corpo e aliviam o estresse. Dança e outros movimentos corporais rítmicos aparecem na gênese da consciência humana. A dança também é uma forma de comunicação.

MCing (estudo e aplicação da fala rítmica, poesia e/ou discurso divino)
Comumente referido como rappin ou rap. Seus praticantes são conhecidos como MCs (Emcees) ou rappers. O MC é um poeta do hip-hop, que direciona e move a multidão rimando ritmicamente na palavra falada. O MC é um porta-voz. Tecnicamente, o MC é uma criação da sua comunidade, enquanto o rapper é uma criação das grandes corporações e gravadoras. (…) Saiba isso: um MC talentoso quase sempre se torna um rapper respeitado, mas um rapper talentoso normalmente nunca se torna um MC respeitado. O MC se expressa através da rima que já está em sua mente, enquanto o rapper te conta tudo sobre ele mesmo. Verdadeiros MCs devem estudar ambos os estilos para ter o máximo do sucesso.

Graffiti Art (estudo e aplicação da caligrafia de rua, arte e escrita à mão)
Comumente chamada de arte do aerosol, writing, piecing, burning, graff [N.T.: write: escrever; piece: peça; burn: queimar] ou murais urbanos. Outras formas dessa arte incluem bombing e tagging [N.T.: o tag pode ser considerado o irmão mais velho da pichação brasileira]. Seus praticantes são conhecidos como escritores, escritores de graffiti, artistas do aerosol, grafiteiros ou artistas do graffiti. [N.T.: para melhor entendimento das diferenças entre os termos, recomendo os seguintes sites: terminologia do graffiti; a arte do graffiti]. (…) Saiba isso: o graffiti como arte não é vandalismo! Tradicionalmente, a palavra graffiti se originou do termo “graffito”, significando um risco. Daí sua conexão com a arte dos DJs (o grafiteiro é um DJ visual). Assim, o graffiti foi um termo dado à arte gráfica do hip-hop, quando ela aparecia legal e ilegalmente em propriedade privadas e públicas como um ato de protesto social (especialmente em trens de subúrbio).

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Hip Hop, filosofia, espiritualidade e metafísica. KRS-One e seus novos projetos*

A maioria das pessoas não compreendem que fazem parte da história até ser tarde demais, disse KRS-One numa recente entrevista. O Hip Hop é uma cultura global e nós somos seus arquitetos culturais. O que falamos e fazemos hoje será a história estudada no futuro. Aquilo que acreditamos de nós mesmos hoje será o que nossas crianças irão acreditar sobre elas mesmas amanhã. Nossas ações hoje irão informar nossas crianças sobre o que elas são capazes e o que elas podem se tornar. É tempo de abordar a cultura Hip Hop como cultura global que ela realmente é.

Pergunta: No palco você falou sobre as pessoas não se darem conta que elas são a história, até que seja tarde demais. Pode falar mais sobre isto?

KRS-OneA declaração fala por si só. A maioria das pessoas não se dá conta que suas próprias ações e palavras são os ingredientes da história que eles, e suas crianças, irão viver no futuro. A ideia é viver uma vida da qual você tenha orgulho. Dar a você boas memórias em vivendo uma boa vida no presente. Sentimentos de inveja, raiva, tristeza e preocupação, e as ações que seguem com eles, nutrem uma vida de culpa no futuro. Mas sentimentos de paz, amor unidade e alegria, e as ações que seguem com estes sentimentos, nutrem um futuro empoderado. É bem simples. É por isto que é importante vivermos a vida de forma reta. Uma vida reta te dará lindas memórias. Te dará confiança em quem você é e naquilo que você é capaz de ser.

KRS-One. Foto: Reprodução/Schmutz Berlin

Pergunta: Na sua música “South Bronx”, você se declara: eu sou o “Professor” e os outros são “Reis”. Desde o momento em que você surgiu na cena do rap, em 1986, você é conhecido como “The Teacha” [O Professor]. O primeiro e oficial professor do Hip Hop. Qual é então o seu ensinamento básico, e o que é que você quer que o Hiphoppas saibam?

KRS-OneBem, como você sabe, meus ensinamentos básicos podem ser encontrados no livro “The Gospel Of Hip Hop”. No entanto, o ponto principal é aliviar o sofrimento humano através da consciência, através do conhecimento, através de um conceito que eu chamo de “edutainment”, educação através do entretenimento. A maioria das pessoas sofre não apenas por causa de injustiça ou corrupção, mas mais por causa da ignorância. Sua própria ignorância. Não saber do que você é capaz, ou quem você realmente é “fora do seu nome”, sua idade e seu emprego, é a principal causa de dúvida, preocupação e depressão, e portanto fracasso. Por exemplo: você sabe, dirigir um carro é perigoso. Mas você não entra no seu carro preocupado em dirigir porque sabe como dirigir. Você tem um conhecimento, uma consciência, de dirigir, e essa consciência, esse conhecimento, é o que elimina todos os medos e anula todos os perigos potenciais. Alguém, sem saber como dirigir um carro, deve sentir alguma ansiedade se tiver que dirigir um carro. O mesmo pode ser aplicado à própria vida.

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Ouça o último álbum lançado por KRS-One, “The World Is Mind”

*Entrevista concedida ao blog The Temple of Hip Hop, em 14 de abril de 2019

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