Flávio XL lança ‘The Mushroom Tape (2021)’, disco necessário em época de retrocessos

MC e professor do Rio de Janeiro , conhecido na cena alternativa desde 2000, apresenta trabalho denso, crítico e cheio de esperança

0
137

Falar o que é preciso. Insistir numa discussão urgente em meio ao retrocesso político e sociocultural que vivemos no Brasil. Destacar a raiz da luta e resistência negra não apenas como uma nova forma de olhar para o passado, mas usar a rima e os beats que carregam a tradição transformada na música do hoje. Marcar os passos dados desde o levantar da cama, desde o abrir a porta com coragem e esperança para vislumbrar o amanhã que mundão nos deve, mas finge que não é com ele.

“The Mushroom Tape (2021)”, disco de Flávio XL, em parceria com o beatmaker e produtor Dudu Foxx, traz questionamentos rimados de maneira madura, contundente e original em instrumentais que agregam os estilos que estão em alta na bass music periférica, mas têm em seu DNA parte do que o funk ensinou nas quebradas do Rio de Janeiro.

Com participações de Pingo do Rap, Mano Teko, Helen Nzinga, e poesia de Fábio Emecê, Flávio XL- MC e professor que participa da cena alternativa desde 2000, lançando seus primeiros raps em 2005- ataca o conceito de meritocracia propagado pelas elites, denuncia o racismo e nos faz pensar: nossa vida é outra, outras demandas, outras conquistas.

O que causa mais perigo ao tal sistema, uma juventude que faz propaganda gratuita das marcas e do estilo de vida ditado pelas grandes corporações em seus perfis nas redes sociais ou jovens que questionam e tentam criar alternativas para mudar uma realidade que não é nada favorável aos mais pobres?

Fazendo um rap que ele mesmo chama de adulto, XL conhece bem a armadilha que essa pergunta representa. O MC – que tem sua formação no coletivo Lutarmada- fala das alienações e da redenção pelo consumo colocando sua mira em quem constrói toda essa forma de perpetuar a desigualdade.

Sem se apegar aos ingredientes que fazem parte do que é feito atualmente na cena trap, grime e driil, Flávio XL fala das consequências da violência urbana por outro prisma. Um artista – com seus quarenta e poucos anos e um olhar crítico- não pode abrir mão de seus traçantes versos apenas para se enquadrar no que dizem que é lucro certo.

Se por um lado “The Mushroom Tape (2021)” é denso, pesado em suas propostas, o trabalho, por não virar as costas para a realidade, também carrega esperança em cada faixa. É um disco atual não apenas por seus timbres, mas pelas histórias de um homen negro que insiste em cantar seu cotidiano e o do povo das periferias, mesmo sem tantas certezas, mesmo inseguro com o resultado de suas gravações. Como ele mesmo rima: “me chamam de professor, mas eu nunca sei a resposta”.

São quinze faixas para você ouvir e descobrir se o MC está certo.
T

Interaja conosco, deixe seu comentário, crítica ou opinião

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.