Em 2006, Emicida concedeu uma de suas primeiras entrevistas à jornalista do BF

Entrevista feita por Érica Bastos e publicada no blog Ações Urbanas entre 27/08 e 02/09 de 2006.

Emicida assistindo de perto

Na década de oitenta, um MC chamado Busy Bee, considerando que as rimas relacionadas as festas estavam monótonas demais, resolve desafiar outros MCs. Em 1987 o MC Kool Moe Dee lança um disco em forma de batalha contra o rapper LL Cool J.

O Mestre de Cerimônia ou Carregador de Microfone talvez seja hoje um dos elementos mais populares do Hip Hop, além do flow (levada) e boas rimas o bom MC deve dominar a arte de improvisar e, nas batalhas, ganhar o público tirando seu oponente.

Do bairro Cachoeira, na zona norte de São Paulo, o MC Emicida fala sobre sua relação com a arte do improviso, as batalhas que ele vem participando em São Paulo, o começo da Santa Cruz, batalha realizada todo sábado em frente ao shopping Santa Cruz e a visão do MC das Batalhas.

Ações Urbanas: Por que Emicida?
Emicida: No começo era apenas uma brincadeira com a palavra homicida, ai um dia eu tava brisando vendo umas paradas dos gringo e vi que tinham várias siglas tipo n.o.t.o.r.i.o.u.s. e outras paradas que num lembro agora. Achei bem loco e resolvi transformar meu vulgo em uma sigla também, e.m.i.c.i.d.a., que quer dizer – “Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte”, e é isso, creio que essas 7 palavras sintetizam meus ideais durante minha estada aqui. Procuro dominar cada vez mais a arte de ser MC, fazer rimas melhores, me superar a cada verso, pois como diria Mario Quintana – “poesia é insatisfação e um poeta satisfeito não satisfaz”.

Kamau e Emicida

Ações Urbanas: Na sua opinião o que é necessário para se dar bem numa batalha?Emicida: Mostrar para o público que o cara que tá na sua frente não é nada, ou melhor, mostrar para o público que perante a sua rima a do oponente não é nada. Ele pode até ser bom, mas isso não é grande coisa quando ele tá perto de você. Ser criativo, saber usar os elementos presentes na cena como arma para derrubar o rival, sei lá, carisma é importante pra caraio também, tem várias fita que te ajuda na batalha. É como na vida, cê tem que dar o seu melhor acreditando em si mesmo, no final o Hip Hop é que ganha com tudo isso.

Ações Urbanas: O que são falsos Mcs pra você?
Emicida: Quem decora as rimas e fala que é free tá encabeçando a lista, depois vem os bico sujo que acha que é do Hip Hop porque comprou uns pano da “Ecko”, bebe uns goró que custa mó bica, é aquele cara do som do Slim (Rimografia), lá da “Gozolândia”. É o saco de vacilo que chega do shopping com as corrente de prender o portão no pescoço, parecendo um mostruário de loja, olha no espelho e fala – “porra, tô parecendo um rapper de verdade”.

Ações Urbanas: No cenário nacional quais MCs você destacaria como bons representantes no freestyle e na batalha?
Emicida: Tem muito cara bom ai na rua correndo pelo lado verdadeiro da parada, o Kamau, o Max (BO) aqui, G Box em Diadema, o Marechal no Rio é foda também, tem vários mano no Rio. Marcelo Gugu do Último Vagão, Lenda, Desigual, meu irmãozinho Mosca (Rashid) lá do Lauzane, o lta, tem um mano lá de Floripa que chama Menor, tem muito cara foda aí que me faz sentir orgulho de dividir o Hip Hop com eles.

Kamau e Emicida, foto por Bruno Gil – Acervo BF

Ações Urbanas: Hoje em São Paulo tem a Batalha da Santa Cruz, na Mood e a Rinha de MCs. Você acredita que deveria haver mais espaços para batalhas?Emicida: Claro, isso é essencial para a evolução dos MCs, além de ser uma parte importantíssima da cultura que não pode ser deixada de lado. A Santa Cruz foi foda, pra mim começou a crescer a parada aqui por causa deles, os moleque da AFK (Afrika Kidz Crew) num tinha mic, num tinha pickup, mas tinha mó amor pela parada e falaram – “mano, vamu fazê essa porra acontecer e seja como for”. Lembro até hoje da primeira vez que fui lá, se tinham 8 MCs tinha muito, mas foi foda, os moleque meteu a cara e fez acontecer, vários pau no cu fala que lá não tem pickup, não tem mic, mas ninguém meteu as cara e fez acontecer igual eles. A rinha também é foda, colei lá há algumas semanas, mó vibe legal, tem cara de festa de irmão sabe?

Pra mim é mó rolê pra chegar lá e quando cheguei parecia que eu tava na rua de casa, é um rolezinho, mas vale a pena mesmo. O Criolo (Doido), os irmãozinho do Time do Loko é verdadeiro e é esse tipo de cara que a gente tem quer valorizar, recomendo, levanta o rabo e vai lá que é bem loco. Tem uma parada começando no terminal Lapa também de sábado, acho que as 17h, não pude ir para ver ainda, mas ouvi falar que é sujeira também. A Mood eu não conheço, o Nocivo me falou esses dias dessa parada, vô ver se da pra colar lá qualquer dia, ai eu vou poder dar meu parecer. É o Aori que organiza lá, ele é um cara que tem um histórico legal, uns antecedentes valiosos, mas preciso colar pra poder falar. Até então recomendo a Santa Cruz e a Rinha. A Santa cruz é todo sábado a partir das 8h30, por ai, na frente do shopping Santa Cruz, na rua mesmo. Se você já torceu o bico por ser na rua vai toma no cu e ver a novela que cê num vai arrumar nada lá. A rinha é na avenida Papini, 169 a partir das 22h, toda sexta, é uma travessa da Robert Kennedy. Três conto mano e muié é free.

Kamau, Tio Fresh, Emicida e Suave ao fundo – Foto por Bruno Gil – Acervo BF

Ações Urbanas: Qual a principal diferença entre seus trabalhos? De certa forma você é um improvisador, mas também entra num estúdio para gravar suas composições e bases. Fale um pouco a respeito disso do MC que participa de batalha e do MC produtor.
Emicida: As batalhas são um passatempo, uma maneira de me divertir com uns amigos, não sou profissional no freestyle, faço porque acho bem loco, curto mesmo, amo o Hip Hop e tô onde a vertente verdadeira dele estiver. Fora o tanto que as batalhas acrescentam na evolução do meu trabalho, soma pra caralho quando eu sento pra escrever uma letra. Acredito que hoje tenho bem mais facilidade para rimar do que antes de começar a participar das batalhas. Quanto ao MC produtor… Eu num sou produtor, sou só MC. Acabei de comprar a MPC, agora que tô com uma intimidade com ela e tão saindo algumas coisas legais, tem uma parada ai na net rolando minha com o Moska. MPC é foda demais, tô quase chamando o Roger Lynn de sogro, mas produção é uma parada muito vasta, tipo, música é infinitamente grande, você sempre tem algo pra aprender. Então a evolução é constante, procuro fazer o melhor para que quando as pessoas me escutem sintam o que sinto quando escuto o Adoniran, Cartola e outros caras que me inspiram. Quando pego a caneta essa é minha meta, creio que um dia alcançarei, tô ai na bolinha de meia lá no Cachoeira. Comecei a estudar música agora, tô curtindo, acho isso bem loco. Antes eu pensava que sabia pra caralho de música, por escutar bastante, mas vi que o que a gente sabe é uma gota e o que a gente ignora é um oceano. Vô seguir assim, livre da pressão do tempo cronológico dos relógios e vou vivendo no tempo da canção. A paciência e a perseverança vão me dando inspiração pra fazer o que deve ser feito, no momento em que deve ser feito. Pode sair alguma coisa amanhã ou daqui a 20 anos, vai muito do que estou vivendo… Paz!

Na humilde creeeeeew…

*Entrevista originalmente publicada em 27 de agosto de 2006, no portal Bocada Forte

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