Ca.Gê.Be – A transformação sempre vem

Feita por DJ Cortecertu, última edição em 08 de setembro de 2019

Capa do álbum ‘O Vilarejo’

Após quatro anos do lançamento do álbum ‘Lado Beco’, Cezar Sotaque, Shirley Casa Verde e DJ Paulinho, integrantes do Ca.Ge.Bê, estão prestes a colocar na rua ‘O Vilarejo’, segundo CD do grupo. “Oba! Clareou” é o primeiro single do disco, música que já tem um videoclipe circulando pela web.

O Ca.Ge.Bê desenvolve o projeto Cinescadão, evento que reúne cinema, música e graffiti, em que seus integrantes promovem debates e reflexões sobre a realidade das periferias. Em meio aos diversos estilos musicais que dominam a mente da juventude dos subúrbios, o grupo tenta criar espaços para o diálogo.

“Trabalho com jovens que gostam de funk carioca e procuro não me afastar da forma que eles se expressam. O pancadão tem seu valor cultural e estético, mas tento dar outro significado para certas vivências. Desenvolvemos uma música sem apologia ou conteúdo pornográfico”, afirma Cezar Sotaque, rapper que concedeu entrevista ao BF. Leia abaixo alguns depoimentos dele, por tópicos:

O Vilarejo

O CD está quase pronto e tem participação do Edi Rock, dos Racionais MCs, e produções de DJ QAP, KL Jay, DJ Celo, DJ Paulinho, Sem Grana (produtor) e Marcelo Jah Knomoh. Estamos na fase de divulgação do videoclipe da música “Oba! Clareou”. Creio que, no final do ano, lançaremos o clipe de “Maria Madalena”, mais uma faixa do disco ‘O Vilarejo’, que vai sair em outubro.

Assista ao vídeo da música “Oba! Clareou”

O discurso e a forma

Nossas letras continuam fortes, pois ainda passamos pelas mesmas dificuldades e a situação social não se transforma assim tão fácil. Acreditamos que a abordagem política precisa ter o mesmo peso da musicalidade na obra de um grupo. Numa produção independente, a música proporciona liberdade, podemos falar da favela, cantar o amor. De certa forma, toda música é um tipo de protesto. Mas o rap não é o mesmo de 1989. A transformação sempre vem, acontece naturalmente, e nosso CD reflete tudo isso.

Diversidade na cena

As diferenças precisam existir, novas cabeças precisam aparecer. A diversidade é algo positivo, mas não podemos desfigurar a história da nossa cultura, não podemos virar as costas para algo que vem sendo construído durante muito tempo. Não tem jeito, a essência do hip-hop é a rua. Temos que invadir a mídia e levar essa essência.

DJ Paulinho, Shirley e Cezar

Download gratuito

Todo mundo baixa música na internet, é um caminho sem volta. Se pensarmos na divulgação, é algo positivo. Não sou a favor da pirataria, mas sei que o CD é um formato que está ficando ultrapassado e os preços dos álbuns estão fora da realidade econômica da maioria. As ferramentas estão aí, o compartilhamento é bom para o artista independente. Uma pessoa que gosta de rap pode baixar o CD do Ca.Ge.Be. lá do Acre, numa região que seria difícil encontrar um álbum físico nosso. Os sites e blogs são responsáveis pela divulgação da nossa arte.

A evolução do rap

Na cena, existe muita confusão. Muitos afirmam que ser profissional é ser estritamente comercial, mas dá pra fazer uma música de qualidade e ganhar dinheiro. Sei que o rap está estagnado, a circulação de grana é pouca. Nós, artistas do rap, pagamos pelos erros que cometemos no passado e ainda cometemos erros hoje. Falamos coisas de que não tínhamos certeza, fomos contraditórios. Fizemos shows em lugares com estrutura precária, com som ruim. Do ponto de vista da qualidade musical, passamos uma imagem negativa. Hoje não pode mais ser assim. Por outro lado, vejo que muita coisa evoluiu, elaboramos projetos, nos especializamos e impusemos respeito. Isso é muito bom, pois não nos tratam mais como “moleques do rap”.

Compromisso social

Podemos viver do rap, podemos mostrar nossa música e trabalhar para fazer girar a economia, mas não podemos nos esquecer que a favela está dentro da gente. É necessário gerar renda, mas também temos que transmitir conhecimento.

Precisamos despertar o senso crítico para que as pessoas conheçam o outro lado da realidade, para que conheçam além do óbvio. Esse outro lado não está tão visível como muitos pensam. Não é só refletir o que a maioria vê. Não podemos repetir o discurso imposto, isso é uma falsa liberdade. A arte de um grupo fala por ele, e suas ideias precisam estar bem definidas.

[+] Leia entrevista com o grupo feita em 2007

Ouça o álbum completo

 

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