Afronauta: “A violência racista foi escancarada e destruiram parte do pouco que foi feito”

"O que espero é que possamos unir mais forças no hip hop, que é um movimento negro, precisamos deixar isso evidente"

O rapper Afronauta, irmão de Vinícius Preto, membro do Zamba Rap Clube e integrante da Coisa de Preto Produções, acaba de lançar o EP “Pax Mafiosa”, um dos primeiros trabalhos da produtora, que foi criada neste ano.O BF trocou uma ideia com o artista. Com influências que vão do grime ao trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado e uma visão de militante contra o racismo, Afronauta apresenta um trabalho diferenciado na cena rap. Leia a entrevista abaixo:

Bocada Forte: Porque você escolheu este nome para o EP?
Afronauta: Vou explicar o conceito do álbum, do nome e do som com o mesmo título. Desde quando conheci o termo Pax Mafiosa, que significa quando uma organização criminosa está em um certo período de pacificação ou acordo de paz, pensei em usá-lo trazendo uma analogia pessoal, por exemplo, tentar estar em paz mesmo onde não tem paz, saca? E a segunda metáfora é em relação ao movimento hip hop, que é um movimento que foi taxado -em alguns momentos- como cultura de bandido, marginal, quando na real é um refugo, uma oportunidade de conhecimento cultural pra não marginalidade, mas, ao mesmo tempo, a linguagem é de rua, é marginal, tipo o hip hop acaba sendo uma Pax Mafiosa metaforicamente, e poeticamente foi o que tentei fazer.

BF: O clima dos beats é bem diferente do que está rolando na cena nacional, isso também tem a ver com o jeito que você escreve e os temas que escolhe para rimar?
Afronauta: A intenção inicial era criar cada faixa com uma influência, usando alguns elementos da música contemporânea e ao mesmo tempo criar um clima original. E depois, em um segundo momento, fazer com que as letras e temas criassem a atmosfera comum.

BF: Fale mais sobre a produção.
Afronauta: De oito beats, produzi sete. A primeira faixa tem instumenal do Submist, rapper e produtor da zona leste de São Paulo, e o beat chegou até mim por intermédio dos caras do Sujeira Brasileira, o beat dele abre o álbum, é um breakbeat com uns sintetizadores foda. A segunda faixa tentei trazer um pouco de dancehall no beat, mas cair no clichê e sem sair do rap. Um boom-trap com um pouco de downbeat em Pax Mafiosa. Um pouco de batida e levada grime em Imagens e Falso 9. Boombap tradicional em Ideia Quente, Noite Fria, porém com timbre mais metálico. Contrabaixo em evidência em Boneco de Madeira. Rap com rapcore na última faixa. Também mixei o álbum todo. As fotos e arte gráfica também são minhas, baseadas no conceito que expliquei anteriormente. E a produção artística ficou a cargo da Coisa de Preto Produções.

BF: Você vem de outros projetos com o seu irmão, como é trabalhar agora um trampo solo e em uma produtora criada recentemente?
Afronauta: Realmente é novo pra mim lançar algo solo, mas foi um processo bem natural, até por que já tinha na minha cabeça que ia lançar algo solo uma hora, quase todos os beats que faço, faço pensando em como eu podeira rimar neles, então eu só precisava de uma organização mental e criativa para colocar algo na rua.

Sobre estar com a produtora, é uma perspectiva boa em relação ao pré e pós-produção. É importante o nascimento de uma produtora para artistas de menos expressão mercadológica e orçamento baixo, sempre houve essa uma carência.

BF: Você pode falar como foi o começo dessa ideia?
Afronauta:
Na real, mesmo, faço parte mais como agente criativo e gerador de conteúdo. Também criei a identidade visual da produtora. O começo da ideia e a elaboração inicial foi do Vinícius Preto, mas como sempre nos envolvemos nossos projetos, acabei estando em conjunto e contribuindo no que eu podia. E a ideia é produzir de forma mais organizada e constante a arte dos nossos, e construir mais frentes de oportunidade.

BF: Suas letras citam situações cotidianas, política e traz traços de literatura. Quais são suas influências?
Afronauta:
Para esse álbum, o que mais me influenciou musicalmente foi essa nova leva de artistas ingleses do rap e grime, Slow Tai, Lord Apex, Skepta, Little Simz, Wiley, entre outros, e a música inglesa geral. A série Top Boy, também inglesa, eu meio quis fazer uma trilha sonora nada oficial pra série. No rap nacional, gosto muito do Don L, acho que ele é um dos poucos que soube criar uma entressafra criativa foda.

Outras influências muito fortes são os caras da Griselda Records e o Freddie Gibbs pela linguagem e estilo deles, e o Tyler The Creator, mais pela criatividade e o trabaho com a música em campos diversos. O livro “Entre o mundo e eu”, do Ta-nahsu Coates, também abriu muito minha mente pra escrever. Fora a fotografia que me influencia, já que trabalho com essa linguagem também, vou citar o Gordon Parks e o Sebastião Salgado como inspiração.

BF: O momento político é tenso, mas temos várias candidaturas negras e periferias, além das candidaturas coletivas. Acha que é o início de uma mudança ou o povo preto e periférico não se deu conta ainda…e está tendo acesso aos políticos de sempre?
Afronauta: Acho importante as articulações, o tema negritude vem sendo bem mais discutido, mais aprofundado e o racismo mais denunciado também, é fato. Por outro lado a violência racista foi escancarada e destruiram parte do pouco que foi feito em anos. Temos que ter força e saúde mental no momento, mas é coisa que nos falta.

O que espero é que possamos unir mais forças no hip hop, que é um movimento negro, precisamos deixar isso evidente. E no futebol, no funk, no samba, os artistas e o público desses tem que se enxergar dentro do movimento também e entender o que tá acontecendo, as mazelas que afetam todos da nossa origem, mas tinha que ser mais veloz, faltam vozes fortes, apoio. Na eleição passada conseguimos eleger Erica Malunquinho, por exemplo, temos que apoiar mais pessoas assim.

OUÇA O EP  “PAX MAFIOSA”

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