A rima não parou e o MC Arnaldo Tifu chega ao seu terceiro álbum, ‘Tempvs’

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No dia 23 de abril Arnaldo Tifu lançou seu terceiro álbum, intitulado ‘Tempvs’. Em janeiro de 2010 escrevi sobre o álbum ‘A Rima Não Para’, seu álbum de estreia pelo selo Pau-De-Dá-Em-Doido. Não retiro uma vírgula do que escrevi naquele tempo para descrever a pessoa, o artista, o trabalho, as atitudes e o talento. De lá pra cá ele só evoluiu, lançou EPs, outro álbum, vídeos, singles, fez inúmeras participações, tem seu coletivo, gerencia todo seu trabalho de forma independente e muito inteligente. Ele é cria da geração anos 90 do Rap brasileiro, a geração que salvou vidas, influenciou e preparou artistas como ele – sérios, compromissados, preparados pra enfrentar o tempo ruim e aproveitar as oportunidades.

Quando começamos as entrevistas ao vivo, Tifu foi nosso primeiro convidado, a gente tava aprendendo ainda, mas ficou o registro

Em tempos que a música é tão descartável e feita sem sintonia real entre os envolvidos na produção de uma obra, Tifu é uma exceção. Os instrumentais não foram comprados num site ou catálogo de beats, as músicas transmitem sentimentos verdadeiros, intenções reais, conexão entre quem escreveu, participou, produziu, mixou, fez as fotos, artes, assessoria. São 12 faixas, muita variedade, Rap pra todos os gostos, sério, divertido, dançante, irônico, positivo e cheio de reflexões. O mundo vive um momento único, com muita tristeza e sofrimento, todos nós estamos cansados, vivendo diariamente um mix de sentimentos e as preocupações não são poucas. Em diversas faixas, sem citar esse momento triste, ele consegue mostrar empatia e nos levar pra um lugar calmo, traz alívio.

Capa do álbum, arte feita por Denis Freitas

E não é só isso, ressalto também a qualidade da produção e pós produção. Os instrumentais tem muitos elementos, são harmônicos, as vozes, dobras e variações dos beats foram bem construídas. Tem faixas produzidas pelo Pedro Simples, Jonas Pheer, Amandes, DJ B8 e Gigo. A pós produção foi de Nixon Silva, Pedro Simples assina também como diretor musical e ficou em seu nome a mixagem e masterização. Pedro é um mano que tem feito muitas coisas boas e que me foi apresentado pelo Tifu, antes da pandemia, em um rolê pelo centro de SP em 2020.

https://www.youtube.com/watch?v=qdVhiudPqA4
Assista o vídeo de “Fya”, música de Rica Silveira com produção e scratchs do DJ Cortecertu

Tenho ouvido muitos lançamentos, mas infelizmente são músicas que só tenho acesso por streaming e por mais que tenha qualidade, não é a mesma coisa que o artista te enviar o arquivo original. Eu particularmente prefiro ter os arquivos, dizem por aí que é coisa de velho, eu prefiro dizer que nesse caso, ou em qualquer outro que envolva o mundo virtual e suas tecnologias – “quem tá atrasado tá na frente”.

Voltando ao disco, nas primeiras 5 faixas uma sequência de participações, variedade e versatilidade. A abertura é a faixa “Sagrado”, com produção, scratches e colagens do DJ B8 e aqui fica minha única e eterna queixa – MCs usem mais DJs em suas músicas! Lembrando que essa música foi lançada em outubro do ano passado, sendo assim o primeiro single do álbum. Em “Além”, produção e participação de Pedro Simples, boa demais, uma das melhores das 12. Novamente citando a resenha de 2010, tem uma passagem na letra que diz – “tudo que é jogado ao universo voltará” – verdade!

Assista ao vídeo da música “Sagrado”

As próximas 03 faixas dessa sequência de participações são todas produzidas pelo Pedro Simples. Achei a sequência das músicas bem pensada, depois de dois sons mais sérios vem “Tô de boa”, com a participação da Rainha Ieda Hills (procure saber, ouça o último trabalho dela). Em “Belezas efêmeras” mais leveza, com refrão cantado por Gabriel Diaz.

Conta capa do álbum, arte feita por Denis Freitas

Mesmo com tantos produtores diferentes, reparei uma semelhança entre 11 das 12 músicas, só uma não tem uma pequena introdução antes de começar a batida ou a rima, a faixa “Trepe”. Aliás, muito boa, o título é um trocadilho com um estilo que alguns dizem ser “evolução”, “moderno”. Tifu e Malokero Anônimo, que juntos formam o Espullmatic$ e dividem os palcos com Thaíde, fizeram uma letra das mais inteligentes dos últimos tempos. Nesse disco também temos a estreia do Lil Tiff na faixa que leva seu nome, é um personagem criado por Tifu. A ideia da música é que conforme o tempo passa ele rejuvenesce.

Ouça uma das faixas da parceria de Tifu com Malokero Anônimo

A segunda metade do álbum começa com “Flow Paraisópolis” e é uma referência direta a principal diversão atualmente nas quebradas de São Paulo, os famosos “fluxos”. E também referência ao que sempre acontece quando a polícia chega e que em Paraisópolis causou a morte de 9 jovens, que saíram de casa apenas para tirar um lazer.

“Vidas” é uma das faixas que o público já conhecia, Tifu lançou o vídeo dela em novembro de 2020. Essa também está entre as melhores do álbum, ritmo e poesia como um bom Rap deve ser, o refrão e as vozes adicionais são de Gabriel Diaz. Na faixa “Atleta (Tifuturístico)” destaco o trabalho do Pedro Simples, senti uma mistura de “Rappers delight”, com Prince e Jamiroquai, podiam liberar o instrumental dessa faixa pros DJs brincarem e jogar na mão de alguns dançarinos de Breaking também.

A música “10 vezes” ouvi em uma das lives que ele vem fazendo nesse período de pandemia e aqui vale uma ressalva, todas as músicas do Arnaldo Tifu ficam melhores ao vivo. Assistam as lives que ele fez, vídeos de shows, vou deixar aqui a versão ao vivo dessa faixa. A música “Próximo ponto”, produzida por Jhonas Pheer, é mais uma que eu gostaria que liberassem o instrumental, muita variação nas batidas, que acompanham as diversas variações nos vocais de Tifu.

Confira a faixa “10 vezes” ao vivo, só dar play que tá no ponto

O disco termina com a música “Confesse”, com refrão cantado por Emersoul. Achei muito parecida com uma música que não consigo lembrar qual é, até a publicação desse texto eu fiquei tentando lembrar e não consegui. Mas enfim, disco bonzão, se fosse um disco de vinil na estante, pra eu pegar e ouvir, das 12 faixas talvez eu pulasse duas ou três no máximo. Arnaldo Tifu carrega consigo a essência do que é ser um MC e além disso é grande rimador, também domina a arte do improviso, bom compositor e porque não, poeta! É muito bom ver que a rima não parou e que a aposta feita há mais de uma década não foi em vão!
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