‘2.0.2.1’ (LADO A) | A verdade que liberta na voz de Monna Brutal

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Durante muito tempo o Rap no Brasil foi sinônimo de verdade, cada artista rimava sobre a sua realidade, suas lutas, alegrias e sofrimento. Já me desculpo e peço licença para repetir a mesma palavra várias vezes nesse início de texto. A verdade continua sendo cantada no Rap, mas é preciso reconhecer que dos grandes nomes do Rap – entenda por grande os que tem números astronômicos nas redes e plataformas digitais – poucos vivem a verdade que cantam e cada vez mais se afastam dela. Entendam, o Rap pra mim continua sendo sinônimo da palavra verdade, inclusive essa reflexão foi motivada por um álbum de Rap que traz a sua verdade – nua, crua, preta e trans.

Faço parte de uma Cultura que preza pelo respeito, que me ensinou a conviver com diferenças e entender que temos muito mais coisas em comum do que o contrário. Começo assim para falar sobre o álbum ‘2.0.2.1’, segundo álbum da Monna Brutal, um trabalho duplo que teve o seu ‘Lado A’ lançado na última sexta-feira de janeiro (29/01).

Ouço Rap há mais de 30 anos todos os dias e o que me fez ter o Rap como música principal por todo esse tempo, foi principalmente a verdade.

Pode parecer clichê ficar insistindo nesse papo de verdade, mas é ela que faz com que um artista perdure no Rap e não tenha apenas um sucesso momentâneo. Mentira tem perna curta, pode adaptar o ditado para as artes e verá que faz sentido.

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Até o dia 27 de janeiro eu sabia bem pouco sobre a Monna, assisti vídeos de algumas batalhas, ouvi suas participações com outrs artistas e o disco anterior, mas tudo muito superficial. No dia 27 de janeiro transmitimos no canal do Bocada na Twitch uma entrevista Especial com ela – “o Roda Viva do Rap” – onde conheci melhor a artista. Dias antes dessa entrevista tive acesso ao álbum e um release muito sincero falando sobre o trabalho. Ouvi por repetidas vezes os 30 e poucos minutos, de 11 faixas, enviadas pra mim em um arquivo único, uma faixa só. Como dizem muito hoje em dia – “só ouvi verdades”.

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Monna se conecta fielmente aos primórdios do Rap, principalmente à década de 90. Época em que a verdade era uma regra, época que provavelmente, ou melhor, certamente ela não seria aceita como rapper ou MC. Não que hoje ela seja totalmente aceita, inteiramente, com a sua verdade, suas lutas, tristezas, alegrias e cicatrizes. Toda produção do álbum foi feita por ela e o FR3ELEX, com muita dificuldade, equipamentos simples, editado, gravado, mixado e masterizado dentro de casa, com estrutura e recursos mínimos.

Ela tomou a frente de todos os processos que envolvem a sua arte, da criação à produção e burocracias, aprendeu a criar os instrumentais e pra uma estreante conseguiu fazer isso muito bem. Em tempos que existem ‘academias de djs, mcs e beatmakers’ – assim mesmo, tudo minúsculo, pois é assim que devem ser descritas esse tipo de atitude. O Rap vem sendo encaixotado por aqui há pelo menos 10 anos, com regras que o afastam da verdade e com isso surgiram os ‘coachs do rap’, que vão desde assessors, empresáris, passando por djs, mcs, rappers e os tais “super produtores”. Ensinam pra molecada que tudo tem ser de tal jeito ou forma, senão não dá certo.

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O Hip Hop e seus elementos são o efeito colateral de políticas genocidas, de abandono, violência e tudo que seja pra destruir pretos e pobres moradores dos guetos do mundo. Foi da dificuldade, com recursos precários que tudo surgiu e mudou os rumos da música, das artes plásticas, da dança, da moda, da linguagem (gírias) e etc.

Pra mim ‘2.0.2.1’ é isso, fruto das dores, amores, alegrias, tristezas, feridas… Verdade!

P.S.: Não sou contra a profissionalização, muito pelo contrário. Mas a molecada nova, de quebrada, não pode ser iludida com o papo de ‘coach’. É preciso sim se organizar e fazer as coisas com planejamento, mas tudo dentro das suas condições e mesmo com pouco isso é possível. Quem quiser trocar ideia ou enviar material, fique à vontade, o endereço é o mesmo desde 1999. Aqui o respeito pela quebrada e à sua verdade tá em primeiro lugar.

Você pode contribuir com o Bocada Forte e apoiar voluntariamente a manutenção do nosso trabalho com qualquer valor. Você pode doar via PIX (imprensa@bocadaforte.com.br) ou clicando aqui.

Assista a entrevista que fizemos para entender tudo sobre o álbum

Ouça o álbum

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