O protesto do La Invaxión

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Black Soul durante gravação.

Do interior de Cuba, grupo dribla falta de internet e aparatos eletrônicos com boa música

Por Jéssica BalbinoEspecial de Havana, Cuba.

Imagine receber R$ 60 por mês, para pagar contas, comer e ainda fazer rap. Parece impossível? Eu também acharia, antes de conhecer os integrantes do grupo de rap cubano LA INVAXIÓN. Em quatro dias de convivência, os amigos Reinir Morejo Hernandes, de 28 anos, conhecido como Black Soul, e Yusniel Alonso Cepero, também de 28 anos, chamado apenas de Cepero, ou Cepe, nos dão outra visão e vivência da ilha comunista com 11 milhões de habitantes – o equivalente ao município de São Paulo (SP).

Formado por Cepero, Black Soul, Gordo William, Yoyo López (a.k.a Mala Bizta) e DJ Erick, apenas os dois primeiros participam desta reportagem, já que conseguiram uma semana de folga do trabalho para gravar um videoclipe, acompanhado por esta repórter que vos escreve.

Entre Havana – a capital – e os distritos de Candelária e Consolação em Piñar del Rio, a região mais ocidental da ilha são quase 100km quilômetros, percorridos pelos rappers em caçambas de caminhões com bancos de madeira e cobertos com lona, o único meio de transporte existente entre a capital e o interior, com exceção dos táxis, cujo preço é tabelado em CUCs, ou seja, baseado na cotação do dólar e do euro.

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Rapper Cepero.

Durante nossa estadia, em abril deste ano, tivemos a chance de percorrer com eles o trecho. A primeira parte, de Havana a Artemisa, pouco mais de 70km, onde poucos CUPS – moeda cubana corrente – garantem a passagem e a acomodação no transporte que no Brasil – especialmente no nordeste – é conhecido como “pau de arara”.

O trecho, que dura pouco mais de uma hora para ser percorrido, deixa pra trás as cores pálidas de Havana e dá lugar ao verde da zona rural, em largos campos praticamente sem plantação ou exploração, que poderiam, facilmente, servir a plantações ou agronegócio, caso estivéssemos em outro país.

No caminho, os rappers, acompanhados do amigo Roberto Lázaro Alvares Echevarria, o mais famoso ‘barbeiro’, ou ‘barber shop’ como ele mesmo diz, de Artemisa – cujo telefone não parou de tocar durante os 3 dias que esteve em Havana – fazem questão de mostrar raps de grupos de Cuba e relatar curiosidades aos amigos brasileiros.

Neste cenário, o rap se apresenta como uma forma – talvez a única – de arte contestadora em uma ditadura, mesmo que esquerdista. Com cinco discos gravados, o La Invaxión é um dos principais nomes do rap cubano, especialmente no estilo que se propõe, bastante diferente do mundialmente conhecido “Orishas”.

Quem se ocupa das ruas?
Letras como a da canção “Quién se ocupa de las calles” – “Quem se ocupa das ruas” (tradução livre), trazem questionamentos e provocações sobre a violência vivida nos bairros, especialmente os que eles vivem, onde um vídeo dirigido por Mandefro Pagán Rosa foi gravado, com a participação de vítimas no papel de atores.

“É um NÃO à violência nos bairros. As principais vítimas são nossos filhos”, é o lema da canção, que traz em seus veros a revolta dos cubanos. “Se temos um problema, quem vai falar sobre ele? É o que resta aos rappers, inclusive aqui em Cuba. Temos que falar sobre o que vivemos e essa vida tem inúmeros problemas sociais”, comenta Black Soul.

E o rap do La Invaxión mostra uma realidade que imagina-se inexistente em Cuba: a da violência. Embora o país tenha uma das taxas mais baixas do mundo. Há brigas nas ruas. Há vítimas dessa violência. Do alcoolismo. Da falta de olhos e cuidado do governo.

Diferente da maioria dos cubanos, quando o assunto é o governo, os rappers não esquivam das perguntas ou questionamentos, mas ilustram como é o dia a dia na ilha. Durante minha visita, exatamente quando ocorreu a Cúpula das Américas no Panamá e pouco depois do fim do embargo com os Estados Unidos, as falas eram cercadas de esperança, apesar do cotidiano.

“O fim do embargo representa esperança. Assim como continuar estudando, mesmo em um país onde as profissões são pouco valorizadas”, reflete Cepero. A crise econômica, os embargos e o sistema ditatorial que fica a um passo de danificar os sistemas exemplares de saúde e educação são temas recorrentes também nas letras e poesias do La Invaxión, que como o hip hop no restante do mundo, tem por objetivo dar voz aos oprimidos.

Em rimas contundentes, os rappers apontam as diferentes moedas e salários que circulam em Cuba, evidenciando as diferenças sociais, em um país que segundo eles, é mascarado pelo socialismo.

Com pouco ou nenhum acesso aos meios de autopromoção e difusão, os CDs fabricados de forma caseira e vendidos de forma clandestina são uma forma de dificultar uma eventual repressão por parte do regime, que segundo os rappers, não compactua com os discursos inflamados do hip hop.

[+] Leia a segunda parte da reportagem especial feita pela jornalista Jéssica Balbino

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