Kanhanga: “Meu rap é pro mundo”

k2NARRADOR KANHANGA  já tem uma história sólida no rap brasileiro, membro do Angola Team, grupo de jovens angolanos estudantes universitários residentes no Rio Grande do Sul, o rapper já lançou os discos Eu sou Brasil, Preto do Bairro e Preto do Bairro II. Sua produção audiovisual também é intensa, mas o que mais impressiona é a lírica de Kanhanga, principalmente quando trata das questões sociais e o combate ao racismo. O rapper trocou uma ideia com o BF. Confira abaixo.

Bocada Forte: Com tanta diversidade na cena rap, qual o valor de mensagens como as do rap “Libertação”?
Narrador Kanhanga:Libertação” faz parte de um momento único da minha vida, que era de partilhar minha história. Confesso que depois que gravei a música…senti dentro de mim uma leveza na alma, parecia que eu tinha arrancado uma dor profunda dentro de mim. Então mensagens como essa têm um sentido épico, poético e acima de tudo um fator real, a famosa “Real Life”, ou seja, só pessoas que viveram algo semelhante consegue escrever mensagens como essa da música Libertação.

Bocada Forte: Os conflitos e dores precisam ser relatados, mesmo não sendo tão populares como festas, baladas e maconha?
Narrador Kanhanga: Eu trago comigo ideologia que não se exprime em rótulos nem fórmulas, o artista tem que se sentir livre pra buscar no seu íntimo a pureza da sua mensagem, independentemente se a mensagem for de festa, maconha, sexo ou outro tema qualquer, o fundamental é que a haja veracidade na mesma que interliga o modo de vida do artista direta ou indiretamente.

Bocada Forte: Mesmo tratando das durezas da vida, seus últimos videoclipes são mais descontraídos, há uma contradição nisso, é um outro lado da sua vida ou uma necessidade imposta pelo mercado?
Narrador Kanhanga: Nada de imposição, ainda mais quando se trata de música. O rap é liberdade e sempre será. Todo mundo é um pouco do meio em que viveu e que vive, e eu trouxe quase tudo que vivi nas minhas letras. Hoje procuro escrever o que vivo e muito do que pretendo viver. Sobre a necessidade de mercado: minha música é um produto, eu sou um produto e como qualquer produto precisa agregar valor pra despertar o interesse do consumidor, então uso muito do pouco conhecimento que tenho da minha formação para dimensionar o meu trabalho.

Bocada Forte: Você sempre esteve ligado no que está rolando de mais moderno nas produções do rap. Qual estilo de beat que mais inspira seus trabalhos?
Narrador Kanhanga: Isso varia muito, algo do momento, pra mim o importante é que haja uma sintonia, e que o beat consiga – subliminarmente – transmitir uma mensagem. O nosso papel é só traduzir essa mesma mensagem. Por isso que nos meus discos você encontra uma diversidade de produção, uns raps mais underground e outros mais mainstream.

Bocada Forte: Quais são seus produtores preferidos?
Narrador Kanhanga: Admiro muito Premier, Hi Tek, Scott Storch, J Dilla, 9th Wonder. Acredito que é uma geração única de hip hop, mas viajo muito nas produções do Dre. Em Angola tem um mano chamado Ricardo 2R que eu pessoalmente gostaria de um dia rimar num beat dele. Já no Brasil, curto as produções do MonstroBeats. Um mano que eu trabalho aqui também é o Riztocrat, do SevenLox, que pra mim é um dos melhores.

k1Bocada Forte: Seus raps falam de enfrentamento, mas também fala de fé? O quanto a fé atua e faz a diferença em sua música?
Narrador Kanhanga: A fé é o firmamento da crença que temos em algo que não vemos e nem pegamos. Então quem sonha precisa ter fé, sonho e fé são duas palavras que precisam caminhar juntos, por isso faço questão de exprimir a minha fé em Deus nas músicas. E outra, eu vim pro Brasil por causa de uma bolsa que ganhei na Igreja Metodista, sempre fui religioso embora hoje não seja praticante, acredito no poder de Deus, graças a ele eu tenho forças pra viver.

Bocada Forte: Qual sua opinião sobre a intolerância religiosa?
Narrador Kanhanga: Desnecessária, porque na minha visão existe uma única religião chamada Deus, e todo mundo é livre pra definir a forma de como buscar esse Deus pra si, seja no cristianismo ou nas religiões de matrizes africana.


Bocada Forte: Frequentemente temos manifestações racistas e xenófobas aqui no Brasil. Como um cidadão que canta a luta e as dores do imigrante, como encara essa realidade?

Narrador Kanhanga: Cruel e triste, hoje tem sido mais duro ainda, porque diariamente encontro meus irmãos (senegaleses, guineenses, haitianos etc) enfrentando problemas piores do que eu passei quando cheguei aqui no Brasil, confesso que já deu vontade de desistir e voltar pra Angola, mas agora penso diferente, vejo isso como uma motivação para alcançar meus objetivos. Tento passar isso de uma ou de outra forma nas minhas letras, tenho tido bastante resultado, pelo menos na comunidade negra e africana aqui no Rio Grande do Sul.

11705271_956937764358021_2928439115348436581_nBocada Forte: A popularização do rap fez o rap crescer, mas está colocando o negro em segundo plano?
Narrador Kanhanga: A popularização do Rap não fez o rap crescer, fez as pessoas crescerem, porque o rap é o estilo de música que mais despertou mentes no mundo. Não acredito que o negro ficou em segundo plano, acredito que os fracos não conseguiram entender a propriedade e o poder que o rap alcançou independente de cor e gênero.

Bocada Forte: Seu discurso é para a favela, mas você acha que a favela está querendo ouvir o que o rap diz?
Narrador Kanhanga: Meu discurso nunca foi favela, meu discurso é pro mundo, pois entendo que não é uma questão de classe social, embora muitos pensam assim, é questão de libertar mentes, conscientizar, despertar, motivar e também entreter as massas, seja favela ou asfalto. Agora é obvio que a favela precisa de uma atenção maior, mas isso não quer dizer que temos que atribuir a responsabilidade ao rap de ser o porta voz de todos fenômenos que afetam os excluídos. Quem vai cantar a vitória desse povo? Ou esse povo nunca vai vencer na vida, entende?

Bocada Forte: E seus projetos futuros?
Narrador Kanhanga: Estou a trabalhar uma nova mixtape com meu DJAlex Fernandes, que será lançada em setembro, o nome é Turn Up, trabalho com umas 14 faixas. Também estou trabalhando no disco O Preto do Bairro 3, que sai em março do ano que vem.

Recentemente nasceu minha filha, há um mês atrás, quero aproveitar bastante esse momento e poder dar o amor que sempre quis a ela. Estou escrevendo meu livro, uma espécie de autobiografia que conta esses quase 20 anos de hip hop, desde o começo em Angola até o momento que atravesso aqui no Brasil, acho que vai ser show, o pessoal vai gostar, pois mergulho na minha vida em todos os aspectos. Quero também dar continuidade ao projeto que desenvolvi, que é a Feira de Hip Hop de Porto Alegre, que é um dos espaços que interligam as vertentes do hip hop e a geração de renda, minha intenção é profissionalizar mais ainda e estender meu trabalho para todo Brasil.

Muito obrigado pela entrevista e por sempre estar veiculando a cultura hip hop. Lembro que quando cheguei no Brasil em 2005 passava horas no laboratório da faculdade assistindo clipes de hip hop brasileiro no site Bocada Forte, na época não existia ainda o YouTube – popularmente falando.  Conheci muitos rappers através do site, era o número um dos meus favoritos.

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