Opinião: Vamos falar sobre apropriação cultural?

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Sim, brancos podem fazer música negra, podem tocar, ouvir, curtir. Mas isso não significa que todos entendam, respeitem ou tenham alguma sensibilidade com a história e as demandas negras

Grande parte das pessoas que curtem rap está ligada nas discussões sobre apropriação cultural que está rolando na cena norte-americana, com Iggy Azalea como protagonista. Deixo aqui links para os textos e vídeos publicados no blog Noticiário Periférico – link 1 – link 2 – e na revista Carta Capital.  Muitos rappers de lá estão do lado da cantora, outros não. O debate é complexo, e não deve ter apenas Iggy Azalea como alvo. Mas esse lance de apropriação cultural rola no rap daqui do Brasil?

Sabemos que os principais e mais famosos artistas do rap brasileiro são negros, com histórias e vivências negras em suas rimas, apesar de serem tratados nos grandes veículos como pessoas sem cor. Poucos jornalistas da mídia tradicional fazem perguntas ou conduzem textos e entrevistas para o lado racial. O imenso número de brancos nas redações dos jornais já nos dá uma pista de como as coisas são direcionadas.

Papo reto: brancos gostam de música negra. Brancos fazem rap, samba, blues, tocam jazz. Sim, brancos podem fazer música negra, podem tocar, ouvir, curtir. Mas isso não significa que todos entendam, respeitem ou tenham alguma sensibilidade com a história e as demandas negras. Aí entra um dos pontos do debate sobre apropriação cultural. É muito difícil para a maioria branca compreender este fato.

Os brancos que se importam
No caso do hip hop, quando brancos fazem seus raps, trazem toda sua vivência, criatividade e entendimento da realidade que nos cerca, mas, ao abordar as questões negras, até mesmo os mais bem-intencionados têm uma interpretação criada a partir de sua origem racial e de relações desenvolvidas em contextos diferentes. Muitos brancos podem até saber mais que muitos negros sobre preconceito, racismo, origens do hip hop, mas não são negros, não sentem na pele o que conheceram nas bibliotecas, na faculdade, na internet, ouvindo rap ou assistindo TV. Não podemos afirmar o mesmo em relação aos negros que, conscientes ou não de sua condição, são alvos do racismo cotidiano e orquestrado.

Ao discutir racismo, a primeira preocupação do branco consciente do rap é provar que não é racista, que a cor da pele não está em primeiro lugar. Dessa forma, grande parte dos artistas brancos não entende qual a razão de nós negros colocarmos a cor da pele e a história negra na frente de tudo. Alguns até questionam: “a questão racial já está bem resolvida em nossas mentes, nunca dei importância pra esse papo de pele, por que vamos ficar falando disso?

“É isso que acredito, cor não mede caráter, a minha origem não vai fazer diferença para nada na vida, a não ser dentro de mim, de carregar o orgulho de dizer que em meu país somos todos iguais”. Qual preto do rap nunca ouviu algo parecido vindo de um branco? E não venham com esse papo de que estamos criando divisões. Estes tipos de divisões já existem há séculos, vamos parar de negar a realidade.

Nossa cor escura foi e é utilizada como elemento de exclusão, de negação de direitos. É assumindo nossa cor que honraremos nossos ancestrais e reergueremos nosso orgulho. Não é simples, mas é assim!

Dessa forma, ao tratar do assunto, artistas brancos (e negros que compartilham das mesmas ideias) assumem uma posição que evita o confronto, acreditando que essa harmonia forjada valoriza a integração e o respeito interracial, algo que faz parte da máquina que tritura as demandas e protestos negros, pois omite o conflito cotidiano que, por não ser sempre de ordem violenta, é minimizado, silenciado. A luta contra a desigualdade protagonizada pelo negro é esvaziada.

Outros brancos ainda dizem: “somos todos brasileiros. Eu, como branco, nunca baseei minha vida nesse lance de cor, somos todos iguais, com oportunidades iguais.”

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Os brancos que não se importam
A convivência multirracial precisa ser valorizada, promovida. O problema é que querem anular ou diluir o lado negro, o viver negro, a interpretação negra, tudo em nome desta convivência. “Pra que brigar? Pra que insistir nisso?” É aí que os brancos que se importam com a causa negra ajudam os brancos que não estão nem aí com a parada.

Os brancos que não se importam, os racistas – assumidos ou não – além de espalharem todo o tipo de preconceito, dizem que o negro sofre de coitadismo, que quer colocar a culpa em todos os humanos de pele clara. Os brancos que não se importam são contra as cotas, acham que é um privilégio para apenas um grupo, mas financiado por todos.

Não adianta querer explicar, sensibilizar. Não adianta mandar ler sobre a história do Brasil. Não adianta conhecerem as estatísticas que comprovam o genocídio da juventude negra. Simplesmente não ligam, têm coisas mais importantes para fazer. Dizem: “somos todos brasileiros. Eu, como branco, nunca baseei minha vida nesse lance de cor, somos todos iguais, com oportunidades iguais.”

Integrantes do nosso hip hop e artistas do rap também pensam assim. Sejam brancos que se importam, e que querem combater o racismo, ou brancos que não estão nem aí.

Uma leva de artistas brancos contribui muito para essa arte que nasceu nos guetos e ganhou o mundo, mudando a música pop e, com o passar do tempo, sendo mudada pela indústria pop. Mas quando a indústria coloca um grupo social para assumir o protagonismo de algo que não foi criado, vivenciado, sofrido e modificado por ele, as demandas mudam, discursos são substituídos. É disso que estamos falando.

Brancos, querem mesmo entender o lance da apropriação cultural? Prestem atenção no que os pretos têm a dizer. Sei que parece um tanto agressivo ver o negro expressar abertamente suas opiniões, colocando as cartas na mesa, mostrando quais são as cores das cartas. Parece que só temos ódio, né? Mas, como diria Face Negra, grupo de rap dos anos 1990, “nós não somos contra os brancos, somos contra o preconceito”.

Continua…

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