Opinião: Racismo, encarando a realidade

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Na imagem, protesto ocorrido na USP contra o racismo.

Por Daniel Garnet

Já faz um tempo que eu vi este vídeo (assista abaixo), e estava até evitando falar sobre, embora eu tivesse me coçando pra falar. Respondendo a Danny Alsisi, acho que isto mostra o quanto ainda o racismo é institucionalizado.

Talvez invadir uma sala de aula não seja a maneira mais adequada de expor uma ideia, mas e sobre invadir uma terra, sequestrar alguns negros, jogar dentro de um navio, colocar pra trabalhar por anos, após a abolição, libertar estas pessoas com algo do tipo “você está livre agora, pode ir“. Ir pra onde, ir como, ir pra fazer o que? O cara que tá filmando cochicha: Estuda e passa amigão.

Ótimo, ele não é a favor das políticas afirmativas, que tem como objetivo contribuir de alguma forma com grupos desfavorecidos para que a sociedade se torne mais igualitária. Mas talvez ele não saiba, que seus ancestrais, que na pior das hipóteses, vieram pobres, mas não escravizados, vieram justamente suprir o trabalho escravo, que servia pra trabalhar de graça, mas pós-abolição, não servia mais, que coisa não? Talvez ele não saiba, que outros povos que constituem a nossa nação e hoje estão estabelecidos, também contaram com políticas afirmativas para se estabelecerem logo que chegaram, caso ache que não, pesquise por fatos históricos para além do que a professora lhe ensinou e o seu avô lhe contou. Os “não-negros” receberam pedaços de terra para trabalhar e casas para morar até se estabelecerem. A política afirmativa do momento é a cota para negros nas universidades.

Olha que interessante, os “não-negros” que vieram como imigrantes, receberam como apoio para trabalhar, moradia e terras ou emprego, dependendo da condição (rural ou urbana), e nós, primeiro trabalhamos escravizados por muitos anos, para que, depois 100 anos, ganhássemos cotas, você não acha justo? É mesmo, talvez esteja até abaixo do justo.

Nem é questão de ser chamado de macaco, ou morar prioritariamente longe do centro, são coisas que podem contribuir negativamente sim, mas existem muitos outros mecanismos invisíveis e informais que agem todos os dias para enfraquecer o povo negro, eu eu poderia citar vários deles.

Ser escravizado já é um fator suficiente pra roubar a dignidade de um ser humano, como não se bastasse, pra facilitar o processo escravagista, os escravizados foram condicionados a esquecer seu nome, seu povo, suas histórias e suas raízes, tirando toda a identidade e referência do escravizado. Sem referência meus amigos, não temos nada!

Um jovem sem referência de onde veio, como veio, não pode saber pra onde vai e como vai, nessa situação, tanto faz pra onde vai.

Muitos vão pra lugar nenhum, alguns vão pra cadeia, poucos vão pra universidade, e assim vai, só vai. Estou só falando sobre um dos vários mecanismos informais e invisíveis, mas a genocídio contra o povo negro já começou logo após a abolição, a fim de eliminar os “pretos africanos que não tem mais espaço num sociedade que não pode mais escravizar” não dá pra mandar pra África de volta, então manda para as periferias e cria mecanismos para que eles se matem sozinhos, uma vez que já fizeram o mais difícil, que é matar a identidade e a raiz dos africanos e seus descendentes.

Ao final desta amostra de receita, podemos colocar uma polícia feita pra defender alguns cidadãos enquanto agride outros. Há mais de 10 anos atrás (antes de se falar sobre cotas como hoje) a polícia matou um dentista negro por engano, depois montaram um cenário para incriminá-lo. Eu te pergunto: você já viu um dentista branco ser morto pela polícia por engano? Suponhamos que você já viu de tudo nessa vida, e já viu o hipotético fato, então adiciono outra pergunta: você já viu um dentista branco que foi morto por engano, ser acusado de que era bandido após morto, para justificar o erro policial?
Se quiser mesmo discutir este assunto, busque nas estatística quantos brancos inocentes morrem por engano da polícia, e quantos negros inocentes morrem pelo mesmo fato.

Como eu disse, talvez não tenha sido a melhor abordagem, mas rir deste tipo de causa certamente não é.
Eu já fui aluno da universidade, tanto não-pública quanto pública, muito antes de se falar de cotas, e nunca faltou motivos para se burlar a aula, professores marcavam viagens para congressos, passavam apenas listas de exercícios, semana do saco-cheio, semana disso, semana daquilo, feriado de carnaval, etc, ai quando os negros vão falar de algo sério que acontece na sociedade brasileira, não pode, por que é hora da aula de micro-economia.

Se esse cara que tava filmando e a professora estivessem sendo assaltados na rua, acho que eles teriam um tempo pra ouvir o que o meliante iria dizer, e provavelmente, iriam concordar com tudo, sendo assim, a minha opinião é que o cara que esta filmando deveria conhecer sobre “macro-sociedade” antes de se preocupar com a aula de “micro-economia”, pois se ele não sabe, o racismo e o machismo são ferramentas utilizadas para favorecer economicamente uma minoria que detém o poder.

Só pra frisar:
1 – Vale lembrar que nem todos os brancos naquele momento estavam de acordo com o cara que tava filmando.
2 – No final do vídeo ele diz “fora Dilma“, o que dá a entender algo do tipo “é culpa do PT esses negros não se colocarem no seu devido lugar“.

É só o que eu acho, obrigado.

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