Opinião: O que o povo preto quer?

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Avaliar técnica, flow e produção é importante, só que só isso nos tempos de hoje basta?

Por: Fábio Emecê

Estamos em um momento difícil, é fato! Afirmar que estamos em um momento difícil gera controvérsias, mas vamo lá, banco a afirmação. Só que isso não importa muito. Queria apenas refletir sobre nossas representatividades e posicionamentos.

Kendrick Lamar foi ovacionado recentemente pelo single “Black the Berry”. Muitos dizendo que ele está no topo no jogo, seja pelo flow, a produção da música que tá espetacular, ou a virulência das linhas ditas são de extrema habilidade. Tá, legal, somos bons em hierarquizar os fazedores da cultura hip hop.

O frissom foi tanto que apareceu um vídeo com a letra traduzida, um esforço tamanho pra afirmar um artista e sua capacidade lírica. O Kendrick foi realmente potente em seu arsenal de palavras, mas aí tem coisas no próprio discurso dele que precisam de atenção redobrada.

Lamar foi pontual em dizer que o povo preto estaduninense precisa pelo menos refletir sobre o que tá acontecendo atualmente. Os recentes assassinatos dos jovens pela polícia e sua consequente revolta, além do tratamento geral ao povo preto que não melhorou muito numa sociedade pós- movimentos dos direitos civis.

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Levar um artista como Kendrick Lamar ser tão contundente em suas letras mostra uma certa preocupação em que se querer fazer alguma coisa por lá. E por aqui, como andam as coisas? Temos Amarildos, Cláudias, Dgs, Baixadas e Cabulas pipocando e quando um artista estadunidense aponta que o povo preto precisa acordar, e sendo Kendrick Lamar, foi motivo de atenção especial, e só foi dito que ele é o melhor do jogo?

O Lamar ressoou o que o Public Enemy, Imortal Tecnique, Paris, Dead Prez, Krs One e The Coup sempre falaram em suas letras , lógico que com o impacto reduzido, até porque nossas avaliações sobre as questões andam sendo contaminadas pela onda meritocrata.

Avaliar técnica, flow e produção é importante, só que só isso nos tempos de hoje basta? O que estamos fazendo dentro de nossa expressão para denunciar isso de fato? Técnica, flow e produção estão sendo usadas para que mesmo?

O povo preto anda sendo atacado sistematicamente. Cabula foi apenas mais um exemplo gritante de uma política de extermínio em curso que anda nos alijando tanto fisicamente como sensivelmente.

Estamos nos hierarquizando, tratando os relatos contundentes apenas como maneiras de atingir mercados e vender faixas nos Itunes da vida, ou ter muitos e muitos views nos youtubes e soundclouds.

Tradução da música de Kendrick Lamar (via Rap 24 Horas)

Leia a descrição ↓↓↓↓↓ by rap24horas

Tá, o Kendrick Lamar foi bem ouvido, foi elevado e muitos dizem que ele é o melhor do jogo. Mas ele é preto e como preto ele anda refletindo seu papel na comunidade e o que precisa ser feito para se ter uma reação contra o que acontece com eles. E usou o rap pra isso.

E nós, o que queremos? E onde vamos parar? Que nossa capacidade de pensar que o esforço de ser o melhor não supere nossa capacidade de cuidar dos nossos, pois o Estado anda provando que só tem a bala pra nós.

Que nossa capacidade pensar que o esforço de ser o melhor não seja o suficiente para nos anularmos e pensarmos numa retomada do que é nosso e feito por nós. E o que jovens que podem lotar os shows dos bons de flows, técnicas e produções não sejam mais mortos com tiros na nuca em campinhos sem gramas nas periferias de sempre.

O que nós queremos? O que o povo preto quer? Tá difícil….

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