Opinião: O hip hop é espiritual

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Foto: Joe Conzo.

Quem estuda a cultura hip hop, lê, escuta, assiste, pesquisa, debate, sabe que ela possui valores e princípios claríssimos, que vão além do lema cunhado por Bambaataa, “Peace, Love, Unity and Havin’ Fun“. Agora, àqueles que pegam o bonde andando e não se preocupam em olhar o passado com atenção e carinho, buscando as raízes da parada, procurando compreender as origens, realmente não entendem a amplitude da coisa.

Noto muitas pessoas assistindo a série ‘The Get Down‘, se emocionando e se motivando, e muitas delas saem falando por aí sobre o surgimento do hip hop e de como as coisas funcionavam e como devem funcionar hoje. É compreensível, mas é preciso mais humildade. Acho que tá rolando uma espécie de “esquizofrenia de sabedoria” nas pessoas. Calma. Além da série há muito o que conhecer e aprender. Vamos estudar. Vamos buscar a informação com àqueles que viveram a parada antes de nós. Vamos perguntar, debater, respeitar e ter humildade. Não é assim pra sair “pintando e bordando” sobre a história do hip hop.

Em primeiro lugar, a cultura hip hop vai muito além da música, da dança, das artes plásticas. Ela representa uma atitude diferenciada perante a vida. É estilo de vida. É algo espiritual. São poucos os que conseguem captar essa energia, pois estão envoltos nas energias da atualidade – fama, vaidade, egoísmo, materialismo, ostentação e por aí vai. A fonte verteu e ainda verte. Quem tem a sensibilidade vê, escuta e sente.

O mais esquisito é o medo das pessoas em aprender. Você fala algo sobre a história – porque você pesquisou e estudou, vivenciou e tem conhecimento – e as pessoas acham que você está querendo impor regras ou julgando? Ninguém é juiz. Nós, que fazemos parte das gerações passadas, somos professores. Tem de respeitar. O que será tudo isso? Medo de aprender? Preguiça de aprender? Medo de mudar a forma de pensar e rever posturas? Sei lá…

O sucesso não se baliza naquilo que você produz de material, mas no sentimento que você constrói em si e nos outros. Nos valores e princípios imperecíveis que você passa aos outros e levará consigo, mesmo após a morte do corpo. É por isto que eu reafirmo: hip hop é algo espiritual. Não tem a ver somente com riscos num toca-discos, rimas, desenhos nas ruas ou um passo de dança arrojado. É isso também, mas é muito mais. Você não pode pegar somente o ingrediente ‘diversão’ – que existiu e existe – e elevar a cultura de rua desta forma, esquecendo do resto. Ela é muito mais profunda que isto.

Ninguém quer construir a negatividade. Ninguém quer construir inimizades, rixas ou divergências. A gente quer passar conhecimento. Quer construir mentes com ideais, livres do mundo material e egoísta da atualidade.

A verdade infelizmente é triste: temos hoje uma geração abraçada em egos e outra aprendendo com eles.

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