Opinião: Holiday, a preguiça e a bolação

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Qual seria o contraponto? Ou a preguiça de entender o momento histórico e a adesão sistemática dos nossos a essas ideias irá permanecer?

Por: Fábio Emecê

Quantos Fernandos Holidays estão por aí nas periferias acreditando no ideal da meritocracia e do esforço próprio para conseguir seus objetivos pessoais? Quantos acreditam que a divisão de bens feitas em países de origem escravocrata foi construída por aqueles que lutaram e, hoje, quem tem bens materiais em abundância é por simples resultado do trabalho?

Bom, Fernando Holiday anda sendo ignorado por uma parcela de militância. O menino negro e bem articulado, com vídeos de boa qualidade, anda defendendo ideias que poderiam ultrapassar o limite do bom senso, caso ninguém acreditasse. Só que tem gente que acredita, e como acredita.

O negro que não precisa de ajuda do Estado ou qualquer outro benefício compensatório para ter acesso a bens, tanto materiais, quanto imateriais. Basta seu esforço e dedicação, portanto, seu mérito para se ter uma vaga na universidade púbica, um bom emprego, uma casa própria e por aí vai.

Agora vamos pensar o porquê aparecer um Fernando Holiday tão virulento e retórico, com um discurso sem filtro e facilmente compreensível para quem está do outro lado da ponte, ou na periferia, por assim dizer. Vamos pensar na razão desta identificação ser quase que instantânea.

Assim, sou preto por conta do Movimento Hip Hop. Um movimento que me fez pensar no meu discurso, no meu lugar, me fez saber sobre Malcolm X, Zumbi, Abdias do Nascimento, Steve Biko, Nelson Mandela, Fannon, Lelia Gonzalez e Luiza Mahin. Que me fez refletir sobre o racismo escutando “Sub-Raça”, do Câmbio Negro, e “Racistas Otários”, do Racionais MCs. E que me fez aproximar do Movimento Negro Tradicional, de suas reuniões e discussões.

Sempre tive a impressão que o Movimento Negro Tradicional nunca soube absorver essa galera que teve seu senso de negritude formado no Hip Hop, tanto que em uma reunião no Encontro Nacional de Juventude Negra, em 2007, a maioria daqueles jovens estavam ali por ter uma ligação mínima com Hip Hop e colocaram justamente essa dificuldade.

Um conflito de ideias em busca de um possível direcionamento dos negros brasileiros? Não sei, só sei que muitos quadros do Movimento Negro Tradicional foram absorvidos pela máquina, numa estratégia de querer mudar as estruturas por dentro e por sua vez o Hip Hop começou a pautar seu discurso justamente no mérito de você conseguir ser o melhor através do seu esforço individual.

Houve-se ascensões, principalmente de bens materiais, dos dois lados e isso trouxe a tona a pergunta básica: por que estamos fazendo o que estamos fazendo? Qual seria o resultado do final da nossa experiência?

Precisamos entender que a construção do Estado em países de origem escravocrata foi pautada justamente em transferência de poder para aquele que já era dono de escravos, os escravocratas se tornaram dirigentes estadistas, logo, suas constituições nunca prezaram a equidade dos habitantes do território, este fato é importante.

É necessário entender que os ex-escravos e os nativos, mesmo com a abolição de escravidão, não foram colocados em posição de igualdade com os legisladores. Se pensarmos que o direito a educação pública universal só foi garantido de fato na constituição de 1988, pense, ou melhor, pesquisem como foi o acesso a outros direitos, que hoje, consideramos essenciais, isso é importante.

Entender que qualquer direito ou possibilidade de ascensão em qualquer sociedade ou território depende basicamente de como o Estado regulamenta e gere a localidade é fundamental para se pensar em que lugar você está e onde pode estar futuramente.

Tá bom, agora como esse entendimento vai chegar na periferia e no outro lado da ponte? O Movimento Negro Tradicional e o Movimento Hip Hop estão com outras preocupações. Aí um cara como Fernando Holiday aparece e aparece bem, aparelhado, e compreendido.

E assim, antes de pensar o Holiday como negro da casa, vamos pensar o que nossos irmãos andam querendo? Será o Holiday um caso isolado ou quem acredita no discurso de reparação está com seu discurso em crise?

Sei lá, por mais incoerente que o Fernando Holiday seja, está mais fácil pra um monte de gente –  que o Movimento Negro Tradicional e o Movimento Hip Hop julga público alvo pra seus quadros – embarcar em seu discurso. Qual seria o contraponto? Ou a preguiça de entender o momento histórico e a adesão sistemática dos nossos a essas ideias irá permanecer?

Ando bolado….

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