Opinião: 8 de Março?

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Panteras Negras.


“Dia 8 de março não é o meu dia, não me contempla e nem contempla as minhas irmãs negras”

Por: Larissa Nascimento*

Apesar de determinados setores da sociedade transformarem o 8 de Março em um evento comemorativo, numa festividade que remete ao consumo, uma vez que se incentiva presentear as mulheres com chocolate, flores, roupas etc, esta data significa um dia de discussão e luta contra a opressão em relação às mulheres.

No entanto eu, Larissa Nascimento, mulher negra, percebo e sofro – no meu cotidiano – a opressão de gênero vinculada ao racismo. Digo que além do machismo, do sexismo, da violência masculina, das desvantagens no mercado de trabalho, dentre outras mazelas que atingem as mulheres, as mulheres negras (assim como homens negros) são vítimas do racismo.

Pode-se dizer que numa sociedade racista como o Brasil, as mulheres brancas não estão isentas de reproduzir direta ou inderetamente tamanha violência.

Será que todas as “madames” que anseiam pela libertação da mulher pensam também na mulher negra que trabalha em sua casa como empregada doméstica? Pois é fato: a maioria das empregadas domésticas neste país é negra (realidade da minha mãe, por exemplo), mulher negra esta que muitas vezes possui baixa escolaridade, trabalha muito, mas ganha muito pouco e, em determinados casos, é ainda chefe de família.

Se houve um avanço das mulheres no mercado de trabalho, esse avanço está longe de representar os dados referentes às mulheres negras. Em pesquisas como o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil (2009-2010), constata-se que as mulheres negras ocupam o nível mais baixo da escala social, ou seja, para as mulheres negras não houve muitas mudanças após o término da escravidão.

Ademais, o racismo além de ocasionar problemas de ordem econômica, atinge e interfere na imagem do sujeito. Assim, as mulheres negras não são o padrão de beleza, seus cabelos crespos, sua pele preta, seus traços faciais, etc não são sinônimos de belo. O que interfere na autoestima e, inclusive, nas suas relações afetivas, o que às vezes pode até impedi-la de constituir uma família.

Observo no meio universitário, por exemplo, a solidão das poucas mulheres negras que ascenderam socialmente por meio da academia. Portanto, não me surpreendo ao verificar que o Dia Internacional da Mulher, a priori, no plano do invisível, diz respeito às mulheres brancas. Dia 8 de Março não é o meu dia, não me contempla e nem contempla as minhas irmãs negras.

E não é por acaso que a data 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino – Americana e Caribenha, que representa um marco de reconhecimento da luta e resistência da mulher negra, é pouco divulgada e conhecida pela população brasileira.

Entretanto, algumas mulheres negras brasileiras procuram estrategicamente incluir a questão racial nas ocasiões em que se busca tratar de maneira universal os direitos da mulher.

*Larissa Nascimento é integrante do Malick – Coletivo de Estudos e Vivências Africanas, formado por pessoas negras. Atualmente, é mestranda em sociologia na UFSCar.

Texto publicado originalmente em março de 2012

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