Opinião: O hip hop pode ter partido político?

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Lula e Gilberto Gil recebem comitiva de rappers no Planalto – Foto por J. Freitas/Agência Brasil – 25/3/2004

O tema político é sempre muito controverso, ainda mais dentro da cultura hip hop que sempre teve a característica de ser um movimento contestador e crítico até mesmo internamente. Quando citamos a palavra ‘política’ o que vem na cabeça de imediato são vereadores, deputados, presidente, governadores, prefeitos corruptos mas essa palavra não tem apenas essa conotação, política não envolve apenas cargos de ‘representantes’ em um congresso, senado ou câmara, na verdade a palavra ‘política’ envolve algo muito maior, mesmo assim o envolvimento entre hip hop e política sempre causa atrito principalmente quando militantes da cultura tomam posicionamento político partidário ou se candidatam a algum cargo.

“Não aceno bandeira, não colo adesivo, não tenho partido, odeio político.”
Facção Central – Versos Sangrentos  

Os partidos de esquerda sempre mantiveram certa aproximação da cultura hip hop durante os anos 90, aproximação essa que teve sua dose de interesse eleitoral e também por ter algumas pautas de reivindicações semelhantes, o próprio Partido dos Trabalhadores, por exemplo, teve uma coletânea lançada por rappers para apoiar a então candidatura do Lula à presidência, em 2002, intitulado ”Hip Hop Por Um País Decente”, que contou com a participação de DMN, Rappin Hood, Face da Morte, dentre outros. Após ganhar a eleição o então presidente Lula recebeu para uma conversa militantes da cultura hip hop, como MV Bill (que chegou a ser um dos fundadores do partido PPPOMAR, em 2001), Kl Jay, Edi Rock, GOG, dentre outros.

Muitos criticam até hoje alguns rappers, incluindo o Mano Brown do Racionais MCs, pelo apoio ao Lula na época. Importante lembrar que esse apoio chegou em um contexto totalmente diferente do atual, onde o país vinha de 8 anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, e sofria com alto índice de desemprego (também hoje), violência (também hoje) e alto índice de mortalidade, por conta da fome, principalmente no nordeste. Na época o PT, através do Lula, surgiu como uma nova proposta, através de programas de combate a fome, acesso a Universidade, entre outras pautas que se alinhavam com muitas reivindicações do rap na época. Também contava com o fato do desejo de ter um presidente “operário” e sindicalista, que ouviria a periferia. Fazer criticas a esse apoio não contextualizando a época pode ser muito equivocado, pois os mesmos rappers hoje são extremamente críticos quanto ao partido PT e até ao próprio Lula.

“Se for de esquerda, não me contemplou. Se for de direita, me ignorou.”
MV Bill – Brado Retumbante

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Flyer do pré-candidato a vereador, em São Paulo, Douglas (Realidade Cruel).

Com anos de “flertes” de partidos políticos com o hip hop seria natural um dia alguém do movimento se envolver, o que ocorreu, por exemplo, com o rapper do Face da Morte Aliado G, que se candidatou a Deputado, e o atual anuncio do rapper Douglas, do Realidade Cruel, a pré-candidatura a Vereador, entre outros exemplos que temos em um país que a cultura hip hop é ativa em todos os estados.

A chuva de críticas de fãs dos rappers com a atitude de se envolver com partidos políticos reflete a seguinte questão: rappers , DJs, grafiteiros, B-Boys e B-Girls podem se envolver com questões políticas partidárias?

Os críticos mais ferrenhos dizem que o hip hop deve ser apartidário. Que não pode se envolver em um campo tão sujo e corrupto e que, ao se envolver, é quase certo que será corrompido. Essa opinião reflete o desgaste do sistema representativo que temos na nossa atual política. Ou seja, a descrença em todos os políticos e em todos os partidos, seja qual for a sigla.

Já outros afirmam que seria um ponto positivo ter “um dos nossos” em um cargo político. Que seria um representante que viveu a realidade e que, estando lá, tomaria medidas a favor da periferia, inclusive facilitando o diálogo com o poder público.

O fato é que, independente de opiniões, a política não se limita apenas a questões partidárias. Contestar algo, reivindicar direitos, lutar contra a injustiça, se expressando em uma conversa, uma música, uma dança, um desenho, uma atitude consciente, um ato… Tudo é um ato político, e o hip hop nasceu deste contexto e seguiu propagando atos políticos em busca de justiça, igualdade racial e social e uma série de reivindicações, que nos atuais dias seguem… Contra o machismo, contra a homofobia, contra o genocídio da juventude negra, entre outras pautas. Portanto, podemos dizer que o hip hop nasceu de atos políticos.

Também lembramos diversos coletivos periféricos e grupos que tem posicionamentos políticos fora do eixo partidário e que atuam através de atos, protestos, cursos, saraus e diversas manifestações artistas e políticas com ação direta. Existem grupos de cunho anarquista, comunista e até rappers de direita. PASMEM! RAPPER DE DIRETA!

O envolvimento do hip hop na política partidária sempre será polêmico. Aos militantes da cultura hip hop que estão se envolvendo nos partidos, devem levar sempre a frase do mestre KL Jay em mente: “as ruas estão olhando”. E a cobrança será mais pesada.

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