Spike Lee retoma discussão racial em ‘Infiltrado na Klan’

#Reviews | Antes mesmo de tratar de qualquer tópico do roteiro do mais novo filme de Spike Lee, que fortifica todas as tonalidades de preconceito racial numa embalagem corajosa capaz de misturar atualidade e comédia. O cantor, ator e ícone do ativismo social Harry Belafonte, amigo de Martin Luther King, e um dos organizadores da efetiva Marcha sobre Washington (1963), aparece, em momento emblemático de Infiltrado na Klan.

Avançando sobre o discurso caduco de O nascimento de uma nação (1915) e desautorizando a história “de progresso da raça branca” defendida pelo personagem David Duke (Topher Grace, excelente, mesmo num papel indefensável), Belafonte conta de uma nefasta perseguição a um suposto agressor negro, em caso real de meados dos anos de 1910. Ambientada quase 60 anos depois, a trama de Infiltrado na Klan reitera usuais expressões de ódio contra negros, na cidade de Colorado Springs, em que age o primeiro policial negro Ron Stalworth (John Daniel Washington).
Ron destaca o colega Flip Zimmerman (Adam Driver) para ludibriar (e infiltrar) a organização Ku Klux Klan, alardista, com a questão de “os negros estarem tomando conta”.
A situação rende inúmeras piadas (possíveis, diante do chamado lugar de fala adotado por Spike Lee — que imprime senso de humor a barbaridades ditas no filme). Referências a nuances da oralidade empregada por raças (diante de sotaques existes) e a flancos machistas contra uma detestável personagem parruda (a racista Connie, interpretada por Ashlie Atkinson) tomam a tela, sem acanhamento.

A falta de um meio termo para as caipirices definidas pelos pretensos supremacistas deixa o filme — ainda que divertidíssimo — pré-determinado, em andamento: o bando que ostenta os temidos capuzes da Ku Klux Klan não terá sobrevida.
É perturbadora e hilária a cena em que, em plena investigação, Ron tem que(por obrigação do ofício) saudar: “a bênção de Deus para a América Branca”.
Atuado aos moldes do Panteras Negras, a personagem de Laura Harrier, Patrice, encampa, num contraponto amoroso a Ron, o discurso da equidade de “Todo o poder para todos”, ao mesmo tempo em que defende a missão política como “um trabalho vitalício”.
Nada moderado, Spike Lee deixa o aterrador final do longa (que se apropria de recentes fatos em Charlottesville) falar por si, contra o torto discurso da “América em primeiro lugar”.
Texto: Ricardo Daehn | Edição: Bob Raplv

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