Prazer, Carol Bandida! | Por Halitane Rocha

POR HALITANE ROCHA

Através de suas músicas “100% Feminista” e “Meu namorado é mó otário”, a MC CAROL canta histórias da vivência das mulheres das periferias.

Impotente, arrogante, mandona, briguenta, são adjetivos comuns para MC Carol que, por um acaso, não se importa nem um pouco, principalmente quando são ditos por homens. Gosta de mostrar poder, beleza e principalmente independência. No Morro da Providência (Rio de Janeiro), cresceu cercada de mulheres que sofriam agressões físicas e verbais pelos seus companheiros com comportamentos machistas e desde então decidiu que nunca se sujeitaria a estas humilhações.

“Escrevi a música ‘Meu namorado é mó otário’ quando eu idealizava um marido perfeito, sonhava que ele seria meu escravo e eu bateria nele. Me revoltava com o padrão projetado de ter que me casar, fazer filhos e apanhar do marido cada que vez que não fizesse algo. Por que todos acham isso normal? Hoje melhorei um pouco minha visão, estou feliz com meu marido. Essa música não foi feita pra ele, como pensam muitas pessoas”, fala Carol sobre o sucesso da música.

Ela diz que nasceu feminista, mas que só se descobriu agora. “As pessoas diziam que minhas músicas eram de feminista, só que eu não sabia o que era isso. De tanto falar, comecei a perguntar o que significava e concordei que eu realmente era assim. Apesar de várias vertentes que ainda estou conhecendo, tem algumas coisas que ainda não entendo.” Ela foi muito criticada pela sua música “Prazer sou amante do seu marido”, por mulheres que chamavam a música de machista, apesar de pensar sobre o erro, explica a letra: Eu só escrevo a realidade. Fui amante de um cara durante alguns anos e o cara sempre tratou ela muito mal. Eu tirei uma com a cara dela, mas não adianta brigar comigo, ele continua tratando-a mal até hoje e traindo com outras, ou seja, a culpa é do marido dela, não minha.

Na música “100% Feminista”, lançada no aniversário de Carol, no ano passado, e de autoria dela junto com a cantora Karol Conká, elas citam mulheres guerreiras nas quais se sentem representadas para passar a mensagem às mulheres do gueto, como as guerreiras Dandara e Aqualtune que lutaram pela abolição dos escravos e Carolina de Jesus, escritora do livro: “Quarto do Despejo”, conhecida por naquela época ser uma das poucas mulheres negras e pobres que tinha conhecimento da escrita e desabafava seus anseios.

Nesta sociedade, MC Carol sabia que passaria por muitos desafios para chegar a fama, só não imaginava o tamanho do preconceito que enfrentaria. “Fui gravar o reality ‘Lucky Ladies’ em Copacabana, o motorista me botou pra fora do táxi porque eu estava junto com uma mulher gringa”. “Depois do reality, recebi um convite para dar uma palestra na FGV (Fundação Getúlio Vargas) e a única pessoa negra no auditório era eu. Só me dei conta disso quando tiramos uma foto no final, eu estava cercada de alunos loiros e um cara de pele parda, nem era negro.”

Recentemente, sua página oficial no Facebook foi atacada com cerca de 300 a 400 comentários racistas, machistas e gordofóbicos. Sua produtora e assessora Ana Paula Paulino, que acompanha suas redes foi a primeira a ver os ataques e pediu para que a cantora não respondesse ninguém, já que ela tem o costume de responder fãs e haters na página.

“O grande problema dos ataques via internet é que as pessoas acham que a internet é tipo uma terra sem lei, então se eu te der um murro na cara, você vai na polícia e fala: olha, ela me deu um murro na cara, então foi uma agressão física. Mas na internet você tem a ofensa, mas você está atrás de um computador, às vezes de um perfil fake.” A produtora explica o processo: “As pessoas que fizeram, começaram a apagar os comentários, deletar a própria página e isso complica depois na busca policial, porque eu já tinha dado print de todos os comentários, de todas as pessoas, mas quando você tem que fazer um dossiê, muita gente não sabe, mas você tem que colocar a URL de cada pessoa e o print da sua página falando a merda (sic) que ela falou. A construção do dossiê é complicada, eu tive que refazer nos moldes da polícia, então perdemos várias pessoas porque eu não podia simplesmente colocar os posts de quem tinha feito. Mas a gente sabe que é um grupo e que eles agem organizadamente, tipo os casos da Preta Gil, Thays Araújo, Sheron Menezes e da Cris Vianna. A delegada que atendeu a gente é a mesma que atendeu esses casos, então ela falou: é um processo demorado. Até daquela nadadora, Joana Maranhão, ela atendeu todos esses casos, essa delegacia é específica de crimes virtuais, criou-se uma delegacia porque a demanda disso no Rio era bem grande.”

Para a artista, os ataques só servem para expor nas grandes mídias, principalmente na televisão, para mostrar aos seus fãs que é preciso denunciar.Ao ver os comentários nem consegui sentir raiva, apenas dei risada e fiquei impressionada com a capacidade do ser humano de ser tão preconceituoso, vivendo em um país como o Brasil, com uma das maiores misturas de raça. Como alguém é capaz de desejar que eu perca a voz? Eu trabalho com música, se acabar minha voz, acaba minha vida. É inacreditável a maldade das pessoas.

Apesar de tudo, a cantora já mostrou que não se deixa intimidar e não abaixa a cabeça pra ninguém. Agora eu estou com um carro novo, carro de gente rica. Depois que comprei este carro, ficou evidente que eles não querem uma mulher preta e gorda dirigindo o mesmo carro que eles dirigem. Há dois dias, eu entrei no mercado e o cara jogou uma piada pra mim. Eu voltei de ré e falei: oi? você falou comigo? Com um tom meio agressivo assim né (risos). E ele: não, não falei contigo. Mas falou sim, jogou piada pra mim. Como ele desmentiu, eu não ia sair do carro pra bater nele, aí fui pra frente. Logo em seguida, uma mulher começou a me insultar em uma rua estreita depois de estacionar o carro, com as duas crianças do lado e nós começamos a brigar. Falei pra Ana (produtora), que terei muitos problemas por causa deste carro, mas eu tô (sic) amando incomodar e agora eu quero é mais. Eles acham que o lugar das pessoas negras é dentro do ônibus ou andando a pé. Tô incomodando? Tô adorando! Agora que eu vi que incomodo, eu tenho é mais ambição de conquistar o meu espaço também. ”

Toda essa vivência do racismo no Brasil, levou a cantora a refletir sobre a história mal contada da abolição dos escravos e a violência policial. Na música “Não foi Cabral”, lançada em 2015, ela ironizou um professor de história que insiste em dizer que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil e ressalta que quem libertou os escravos foi a luta dos quilombolas e mostra a importância do Zumbi dos Palmares e de sua esposa Dandara, para evitar que seus filhos também levassem chicotadas.

Carol deixa claro que como cantora, ela só escreve a realidade. Por esta razão, um dos seus lançamentos, “Delação Premiada”, foi para incomodar e relembrar dos negros mortos que ainda não conseguiram justiça. “Muita gente já viveu, ou se não presenciou, viu, soube de um amigo que aconteceu, então acho que é isso. São histórias que acontecem sempre, mas eu quis destacar o Amarildo e o DG, entendeu?” No trecho em que ela canta: “É negro, favelado, então tava de pistola”, relembra o que aconteceu com seu amigo no final do ano passado: “Ele tinha se acidentado de moto, estava andando de muleta, acho que ele tava com um ferro na perna também, se eu não me engano. Foi entrar de muleta lá no morro e isso era 5h da tarde e os policiais atiraram nele, pensando que era um fuzil. Eles nunca falam que pensam né, eles falaram que era um fuzil! Ficou por isso mesmo, mas a comunidade toda viu que ele estava de muleta.” Em 2012, foi confirmado 30.000 homicídios, 77% destes jovens são negros e apenas 8% dos casos são resolvidos na justiça, segundo a pesquisa do Mapa da Violência 2015.

MC Carol mostra todo o seu potencial e braveza para chegar em qualquer lugar para mostrar que é uma mulher, negra e gorda que também pode ocupar até o espaços mais elitistas. Mas a cantora revela que nem tudo é fama ou empoderamento. Entre os seus sonhos, ela agora também deseja ter um filho, que virá no momento em que se sentir preparada. E com um filho no colo, vai continuar sendo a Carol bandida, representando as mulheres, 100% feminista.

*Halitane Rocha tem
21 anos, é sagitariana,
formada em Jornalismo
e apaixonada pela
cultura periférica.

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