Pauê Ovelha Negra apresenta seu primeiro solo ‘Bem Mais Que Um Sonho’

PAUÊ OVELHA NEGRA, está no corre desde 2007. Oriundo das batalhas de freestyle de São Paulo, entre elas a do Santa Cruz, o MC do Parque Bristol retira seu sustento de rimas e apresentações, na maior parte em coletivos pela cidade. Pauê lançou no fim de 2016 seu primeiro trabalho solo, intitulado de “Bem Mais Que Um Sonho“, um disco com uma variedade de temas. Trocamos uma ideia para saber mais sobre essa rotina de rimas e seus diversos projetos musicais. Confira a ideia!

Bocada Forte – Você faz parte de vários coletivos de rap, nos fale um pouco sobre o trampo de cada um.
Pauê: Faço parte de dois grupos e dois coletivos de rap, “Oz Mendigang” é formado por mim, Kauan, Moita e a Bivolt. No momento estamos gravando algumas faixas. Já o “Di Lupa” é o grupo mais antigo que faço parte, estamos com dois CD’s na rua “Ao nosso ver” e “Sem ritmo de festa” que é o mais recente. O grupo é composto por mim, FeRap e Luca.
O coletivo banca da calçada é uma crew que une várias vertentes da cultura de rua. Temos grafiteiros, DJ’s, selectas, skatistas, e claro MCs. A ideia é trazer à tona toda a cultura urbana resumida em uma única banca. O projeto mais recente é o “Wu Trem Clan“. Ele é composto por um grupo de MCs que fazem intervenções de rap nos trens e metros de SP, levando nossa arte para as pessoas. Além dos MCs temos o beat box e   uma equipe de comunicação. Estamos estruturando o grupo agora, mas pode esperar quem tem muita novidade por vir.

Bocada Forte – E esse trampo com o coletivo “Wu Trem Clan”, você consegue levantar uma verba com as apresentações como que funciona? Rola umas fuga dos PF também?
Pauê: Hoje em dia toda a minha renda vem do trem. Eu até pego uns trampos de pesquisa, mas desde novembro que eu estou exclusivamente no trem, então posso dizer que é o trem que paga minhas contas. Ta funcionando perfeitamente. O processo é bem simples, as vezes com uma caixinha, as vezes com o meu parça Goiano que faz os beat box. A gente entra no vagão, se apresenta e começa a interagir com as pessoas do vagão no freestyle. Quando o vagão ta rendendo eu fico duas estações, mas normalmente fico uma estação em cada vagão. Na linha esmeralda entre pinheiros e presidente altino. Sou expulso quase todos os dias, mais pelos policiais a paisana (sem identificação) do que pelos fiscais . O pior são os PF fardados, que querem dar lição de moral, alguns são agressivos. “Corta o cabelo e arruma um trabalho”. O bom é que diferente de quem vende coisas, que eles tomam q mercadoria, nos somos expulsos e entramos de novo na cara deles. No fim das contas é divertido.

Bocada Forte – Você tá no corre do rap desde 2007, considerando sua caminhada na nova escola e analisando seu disco, não tem nenhum som com ideia desencontrada, algo que nos dias de hoje encontramos com facilidade na fábrica de “MCs” que a internet produz. Na sua opinião, tá faltando compromisso por parte de uns e outros que se dizem do “rap” nos dias de hoje?
Pauê: Sim. Eu acho que deve ser por causa da facilidade ao acesso. Antigamente tinha menos eventos, menos batalhas, o pessoal dava mais valor. Iam para conhecer, aprender mais do que para se mostrar. Hoje como existe mais ferramentas para produzir, mais oportunidades, a parte de entender a cultura foi ofuscado pela parte de se promover e repercutir. Muitos acham que o destaque é a prova de um rap ou até de um hip hop melhor, sendo que a ideia da cultura não se limita a esse tipo de alcance. Não acho errado você estourar e ser conhecido, mas tem que fazer jus a sua influência. Dar um bom exemplo, mostrar que o rap continua sendo a voz dos excluídos e que somos pequenos perto da cultura. Porque tem MC que quer ser maior que o rap. Devemos respeitar e motivar positivamente quem ta começando, assim como quem ta na caminhada faz tempo, independente de visibilidade. E nunca esquecer que se não fosse a quebrada e o conhecimento que veio do povo pobre, o rap não existia.

 

 Bocada Forte – O seu trampo não ficou repetitivo pois aborda os mais diversos temas com uma irreverência firmeza e cada produção tem uma identidade própria, nada de repeteco. Você conseguiu centralizar nesse seu primeiro trampo solo tudo o que queria, ou teve muita ideia que ficou fora?
Pauê: Desde 2007 eu escrevo músicas, eu sempre sonhei em ter um CD que abordasse vários temas, sempre com critica social e lembrado da minha quebrada que é o fio condutor da minha rima. O CD ficou do jeito que eu queria! O tema tem haver com o que eu venho trabalhando e pensando nos 10 anos da minha caminhada no rap, não são os mesmos sons mas estão sendo lapidados a um tempão. O CD mesmo demorou 3 anos para sair, então acho que ele tem muito a ver com a minha caminhada e desenvolvimento. O próximo CD já deve vir mais parecido comigo hoje em dia. Porque desde que comecei esse CD eu já mudei algumas levadas, aumentei minhas referências musicais com outros ritmos, entre outras coisas, mas sempre mantendo o mesmo objetivo. O disco eu considero que representa bem o desenvolvimento da minha caminhada, e eu deixei esses novos elementos para o próximo não ficar desconexo. Como um som na batida do Ragga que acabou ficando para fora. Eu também queria ter um beat de mina nesse CD, mas como não deu tempo acabei não encontrado uma mina para fechar a parceria. A diversidade de ritmos se deu mais pelo ViBox que manda muito bem nos beats e captou bem o que eu queria passar e as referencias que levei para ele. Mas posso dizer que o CD ficou do jeito com o que eu sempre sonhei. To orgulhoso dele!

Bocada Forte – Quem assinou a arte da capa do disco?
Pauê: O trampo foi feito pelo parça Atum, grafiteiro monstro. A bolacha do CD foi feita pelo meu mano Goiano, que além de MC é um ótimo grafiteiro.

Bocada Forte – Você ganha a vida hoje com suas apresentações e foco principal no freestyle, que foi onde tudo se iniciou pra você, entre elas na batalha do Santa Cruz. O que representa pra você viver do freestyle e viver o freestyle?
Pauê:
Significa a origem de tudo. Tipo a influência de tudo que aconteceu comigo até hoje. É minha caminhada, eu amo o freestyle e quanto mais o tempo passa mais eu aprendo, vejo coisas diferentes. Ganhar a vida assim é um lindo sonho. Posso interagir, criar sempre algo novo. Imagina ter que escrever todo dia uma música para rimar no trem. O freestyle deixou tudo mais prático. Sem contar que a essência do rap veio do freestyle. Ele sempre será uma das principais portas para quem ta começando.

Bocada Forte – O trabalho dita a caminhada das pessoas, principalmente em uma grande cidade como São Paulo, onde se sujeitamos a fazer o que não gostamos por causa de dinheiro e sobrevivência. Como você se sente em tirar o seu sustento de algo que você faz por amor? sabemos que tem muita gente talentosa no rap que tenta viver dessa parada mas acaba se deparando com diversas dificuldades. Isso é “Bem Mais Que Um Sonho” pra você?
Pauê: Foda isso! Eu mesmo nunca consegui ficar mais de 5 meses em um trabalho registrado. Me sinto honrado, orgulhoso e estimulado em ver que o que faço é aceito, sou feliz e muito grato por ter encontrado essa maneira de manter meu sustento. Essa é a chave, fazer outras rotas, inventar, se animar, acreditar e ter fé. Mais do que tirar o da sobrevivência é a intervenção com o povo, mostrar algo diferente, outro ritmo. Passar uma ideia legal, porque são pessoas que talvez nunca ouviram rap na vida. Representar o Hip Hop e a periferia é uma missão. Acredito que todos que fazem parte dessa cultura de verdade sabem que é bem mais que um sonho é uma causa, é uma força e uma luta.

Bocada Forte – Como estão os novos projetos, já tem algo novo por vir? Seja solo ou dos coletivos?
Pauê: Atualmente estamos gravando um EP do coletivo Banca da Calçada. Também estamos com vários projetos para o WuTremClan, mas esse é surpresa (rs). Também estou escrevendo músicas novas me aventurando no Sound System. Geralmente é assim que começa um novo ciclo. Mais com certeza tem muita coisa nova para esse 2017.

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