Panikinho: ‘O rap tem que assumir a paternidade do funk’

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Por Spensy Pimentel

O veterano rapper PANIKINHO lançou em novembro o vídeo da música “Sorriso Negro é Ostentação”, nada menos que um funk – ou pancadão, como ele prefere, com letra politizada e levada sofisticada, usando um saxofone para fazer o refrão.

O som me chamou a atenção. Conheço Panikinho há quase 20 anos, do tempo em que preparava o livro ‘Vermelho do Hip Hop’. Ele esteve ligado a uma das cenas paulistanas que mais contribuíram para os trabalhos que fiz naquela época, na Zona Leste.

As posses da Cidade Tiradentes, como aquela de que Panikinho participava, a Aliança Negra, se destacavam pelo autodidatismo em relação à formação política de esquerda – estudavam autores clássicos, como Florestan Fernandes, e levavam os livros para os shows. Conheci-os nos eventos realizados pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) de Sapopemba, um lugar que reúne ativistas de trabalho consistente e admirável em temas como o processo de liberdade assistida de egressos da então Febem.

O que levou um rapper como Panikinho a fazer funk – ou pancadão? Em que sentido a postura dele, com uma formação política tão particular, confirma ou não o que tem levado outros integrantes do hip hop a associar-se a esse gênero? Foram alguns dos pontos que tentei abordar na entrevista, feita por e-mail.

Bocada Forte: Por que fazer funk?
Panikinho: Ao longo de minha trajetória no movimento aprendi a separar coisas que as pessoas tendem a compilar ou vice-versa. Sempre lutei pelo reconhecimento do rap enquanto uma categoria musical, coisa que nem sempre foi vista por intelectuais e críticos culturais, e, quando entendi o rap não só como uma categoria musical, como gênero musical, dificilmente chegaria a essa conclusão sem entender sua história e suas raízes, ligados à música negra , ou música africana da diáspora. O mesmo entendo do ‘pancadão’, que insistem em chamar de funk. Se eu não dissocio de sua relação de musicalidade ancestral, logo não faço rap e funk, faço Música Negra da Diaspora.

Bocada Forte: Como você vê o trabalho de outros artistas do rap que têm se aproximado do funk?
Panikinho: Eu vejo de uma forma tranquila, quando se percebe que ambas as músicas têm uma ligação muito intrínseca e quase que orgânica. Nem todos os rappers têm essa sensibilidade, e isso é uma pena.

Bocada Forte: Coincidentemente, você lança o teu single logo agora quando Mano Brown está lançando o som com o Naldo. Como você compararia o que está fazendo ao que outros como Brown têm feito nessa aproximação?
Panikinho: Às vezes me pergunto por que demoraram tanto para o estreitamento desses laços. Como já disse anteriormente, isso nem deveria ser olhado com estranhamento, mas com muita naturalidade, pois são gêneros musicais diferentes entre si, mas internamente conectados por sua ligação ancestral.

Assista ao videoclipe da música “Sorriso Negro é Ostentação”:

Bocada Forte: O funk é o filho bastardo do Hip Hop?
Panikinho: Não diria um filho bastardo, mas um filho “malcriado”. Não pelo entendimento de uma certa rebeldia do funk, mas sim também pelo abandono do hip hop em relação ao funk, então penso que o rap tem de assumir a paterninade do funk, pois na real não acho que nessa troca não seja uma via de mão única, ambos os movimentos ganharão com essa aproximação.

Bocada Forte: Eu diria que você é da velha guarda do rap de base – começou quando mesmo lá na CT? Pode contar um pouquinho da caminhada?
Panikinho: Sou da segunda geração do hip hop , mas acompanhei todo o envolvimento da primeira geração, como expectador, absolvendo e adquirindo conhecimento para que eu pudesse me envolver ao movimento estando seguro do que queria e pra onde queria chegar.

Sou Mc há 25 anos, comecei no movimento hip hop aos 13 anos, como B-Boy, integrando um grupo de dança chamado Black Panthers, depois um grupo de rap chamado DNA (Descendentes Negros Africanos) – isso na região da leste, Cangaíba, onde eu morava. Com 16 anos mudei-me com a família pra Cidade Tiradentes, onde conheci e integrei a Aliança Negra Posse.

Em 1993, entrei para o grupo Fator Ético (ex-Conexão Break Rap), um dos grupos fundadores da Posse, e desde então passei a desenvolver inúmeros trabalhos envolvendo a arte associada à militância sociocultural, com temas transversais que vão desde a questão do Racismo e da Violência institucional até relações de gênero, homofobia, xenofobia, dentre outros. A partir de meu envolvimento com as discussões dos movimentos sociais não foi difícil transpor isso para minha produção musical, que persiste até hoje em dar visibilidade para essa realidade ainda invisível aos olhos da sociedade brasileira.

Como educador, trabalhei em muitos projetos sociais com crianças e adolescentes em situação de rua e jovens privados de liberdade na fundação Casa. Criei projetos como o “Escola de Hip Hop Itinerante”, “Festival Wapi Brasil”, e campanhas como “Eu Africanizo SP”, “Eu Pareço Suspeito?” e o recente “Educadão Funk”.”

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