Entrevista: O ‘abstrativismo’ de Tiago Cabeça | Por James Lino

Foto: Divulgação

POR JAMES LINO*

Rapper desde 2002, poeta desde sempre, arte-educador, comunicólogo, Tiago Luiz, mais conhecido como TIAGO CABEÇA, vem lapidando ideias a mais de uma década e meia e recentemente lançou, em parceria com dois produtores – DJ Noh (Quebrada Groove) e Rasec (Tozkera Recordz) – o projeto Meia Muzzarela Meia Sampleada. A ideia é utilizar a criatividade e toda liberdade que a arte do sampler propicia na criação de beats diferenciados e com a marca de cada um. Uma sessão livre de produção e experimentação e de rimas precisas e com grande contundência.

Recentemente, o artista lançou seu primeiro CD, “Abstrativismo de uma Metrópole” (ouça abaixo), com 8 faixas que variam do rap pesado, passando por vertentes do reggae music e do groove. Aproveitando o momento, o BF trocou uma ideia com o MC.

Foto: Facebook do artista

Bocada Forte (BF): Cabeça, você consegue fazer um apanhado geral deste primeiro trabalho?
Tiago Cabeça: O CD ‘Abstrativismo de uma Metrópole’ é um recorte de várias ideias e vivências, que passo em São Paulo, desde quando vim morar aqui, em 2003. A ideia é pegar pequenos recortes do cotidiano, da metrópole, e acontecimentos nacionais, e narrá-los através da sonoridade do rap. São misturas de ideias que acontecem no dia a dia.

BF: Você vem da cena under de Minas Gerais. Se você acompanha, o que você acha da cena por lá hoje em dia?
Tiago Cabeça: Atualmente, não tenho acompanhado pelo fato das correrias da minha vida em São Paulo. A última vez que estive lá foi em 2015, para fazer uma apresentação em um evento de rap no Agosto Negro. Esse ano estou vendo a possibilidade com minha amiga e militante do movimento negro e da cena hip-hop, Adenilde Petrina, para fazer o lançamento do meu CD lá.

Acho que o músico no Brasil ainda é muito marginalizado. Não somos vistos como trabalhadores, e é um grande equívoco

BF: O que é mais trabalhoso para você, ser Rapper ou Oficineiro? Porquê?
Tiago Cabeça: Rapper, com certeza, pois tenho que fazer minha própria assessoria, divulgar meu trabalho, fechar shows, compor e gravar. Acho que o músico no Brasil ainda é muito marginalizado. Não somos vistos como trabalhadores, e é um grande equívoco. Para ser músico precisamos de apoio, como em qualquer outra profissão. Como oficineiro é bem mais fácil, pois geralmente você tem subsídios como espaço físico, materiais, etc. Já na música todo investimento é do seu próprio bolso. A não ser quando você já está num nível artístico reconhecido.

Foto: Divulgação

BF: Quais seus objetivos com ‘Abstrativismo de uma Metrópole’?
Tiago Cabeça: O meu objetivo principal foi realizar um sonho de lançar meu primeiro CD depois de 15 anos de muita luta, com qualidade, retratando minhas vivências e eternizando minha ideias através do rap. E também levar uma mensagem para pessoas que se identificam com questões sociais, como política, violência contra juventude e contextualizar o poder da arte na transformação de pessoas.

BF: Você usa seu som nas suas oficinas, com seus alunos?
Tiago Cabeça: Sim, muitas vezes pego alguma música do meu CD, para contextualizar algum assunto que iremos discutir como política por exemplo.

Se eu for convidado para ir mostrar meu trabalho na TV, irei com maior prazer, até porque quero que a minha arte seja acessível para todos. Não quero fazer rap só para o público do rap. Quero fazer rap para todos que precisem de ouvir novas ideias

BF: Como você enxerga a TV para o seu CD?
Tiago Cabeça: A TV ainda é o meio de divulgação que mais atinge pessoas. Não acho isso ruim pra você mostrar seu trabalho, até porque o rap de verdade precisa chegar ao maior número de pessoas possíveis. E mesmo com o ‘bum’ da Internet, sabemos que muitas pessoas em pleno século XXI não tem acesso a essa ferramenta. Se eu for convidado para ir mostrar meu trabalho na TV, irei com maior prazer, até porque quero que a minha arte seja acessível para todos. Não quero fazer rap só para o público do rap. Quero fazer rap para todos que precisem de ouvir novas ideias.

BF: Cite um álbum de cabeceira pra você!
Tiago Cabeça: A Tribe Called Quest, The Low End Theory. Sou rapper a moda antiga.

Abaixo você escuta o álbum “Abstrativismo de uma Metrópole” na íntegra e confere comentários faixa a faixa:

Abstrativismo de uma Metrópole

Abstrativismo de uma Metrópole, an album by Tiago Cabeça on Spotify

A capa do álbum ‘Abstrativismo de uma Metrópole’

Relações Estreitas” é uma introdução captada de forma amadora, para convidar o ouvinte a um grande mergulho nas diversas realidades dentro do espaço que vivemos na metrópole. A intro vem com uma poesia crítica aos aspectos sociais aonde os sentidos são bloqueados pelos nossos interesses pessoais. A correria pelo ganha pão nos afasta da sensibilidade em nos olharmos e com isso transforma nossas relações em um grande iceberg pessoas frias e sem sentimentos.

Abstrativismo de uma Metrópole“, música que também e tema do CD, mistura aspectos da metrópole em sonoridades, timbres, diálogos e rimas, aproximando os ouvintes do caos e das misturas abstratas dos grandes centros. E um reflexo das loucuras e também uma representação sonora sensível das loucuras que vivemos na correria dos dias.

A música “Cantei” e uma reflexão sobre os convites para trilhar o caminho do crime, porém com a intervenção da música e da arte no geral jovens de periferia conseguiram transcender essa realidade e expressar isso na música. Com uma mistura do reggae com o rap, refrão do americano Fi Du Henrique a música aborda a importância dos dois gêneros musicais na construção da sonoridade e na inovação dos ritmos através das referências.

Passo Certo“, tem participação de Codnome shil e ressalta a importância do conteúdo nas letras. Com uma levada dançante do skate wear, aborda também acontecimentos do dia a dia nas periferias de SP.

A música “Rap do Fundão” faz uma denúncia sobre a forma opressora que as famílias das periferias da zona sul de São Paulo vivem. Apontando para ações de grupos de extermínio, abuso policial, tráfico e violência. O som é um alerta para sociedade que finge não querer enxergar a forma que as pessoas mais humildes vivem nos guetos.

Desordem e Retrocesso” aborda sobre a política do caos, facções criminosas, a mídia manipuladora e o povo prestes a se rebelar contra todo esse sistema opressor. O som é um soco nos ouvidos do ouvinte, fazendo uma leitura crítica e contundente dos acontecimentos recentes que vem acontecendo em nossa sociedade.

A música “O Conhecimento” é uma leitura do processo evolutivo da minha vida, aonde ressalto a importância da arte e dos estudos para o crescimento artístico e pessoal. Com participação de Jonathas Noh, a música traz uma levada groove/rap com influências do bom som preto.

A Queda” traz uma crítica ao capitalismo e suas armadilhas, onde contextualizo quedas pessoais e os aprendizados em não entrar nesse sistema de disputas e vaidades e na importância da música e da poesia para o desprendimento dessa engrenagem.

*James Nogueira a.k.a James Lino
é paulistano, 
filho do hip hop desde 1987.
MC desde 1990, quando começou a rabiscar
suas primeiras letras, é membro do grupo
Potencial 3 desde 1997.

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