Dory de Oliveira: “Escolher viver já é um ato de coragem e ousadia”

* foto de capa por Diego Marcos Fotografia

#Rap #OrgulhoLGTB # Entrevista | Preta, lésbica, periférica, militante e questionadora. É impossível ouvir qualquer som da Dory de Oliveira e não sentir uma energia muito poderosa em letras sempre bem construídas e apresentadas por sua voz forte.

MC da Zona Leste de São Paulo, Dory segue sua carreira de maneira independente e investe pesado em seu trabalho. Seguindo seu sonho de ser rimadora, gravou seu álbum de estréia “Se perguntarem, Diga que me chamo Dory de Oliveira” e hoje tem uma série de singles lançados, inclusive a cypher “Psicopretas” ao lado de Sistah ChilliDanna LisboaBia DoxumAnarkaCris SNJ.

Em entrevista exclusiva para o Bocada Forte, conversamos sobre suas experiências como MC independente e sobre suas visões a respeito dos entrelaces e desenlaces entre racismo e homofobia hoje. Meu destaque pessoal é vinculada à frase que abre essa entrevista. Nas palavras de Dory“Escolher viver já é um ato de coragem e ousadia“. Ao suportarmos as (o)pressões cotidianas sendo nós mesmos já estamos fazendo a diferença em nós e nos outros. Confiram:

Bocada Forte: No seu álbum, a faixa que sempre mais me chamou atenção é “Rimadora”, principalmente quando você diz “nunca quis ser doutora/quis ser cantora de rap igual as mina lacradora”. E isso chama atenção para a sua caminhada no sentido de lutar para se expressar e fazer sua carreira acontecer de forma independente. Como você enxerga hoje o seu corre como MC independente?

Dory de Oliveira:  A dois anos atrás eu ganhei uma bolsa do Senac para fazer o curso de Técnico em Enfermagem. Fiz apenas 3 meses por não sentir que era aquilo que eu queria no momento e tal. Aí resolvi me jogar e gravar meu primeiro álbum “Se perguntarem, Diga que eu me chamo Dory de Oliveira“. Fui correr atrás desse tão sonhado rap nacional de fato apesar de todas as dificuldades que enfrento por falta de grana e às vezes até aquele desânimo básico, tá ligado. Artista independente vive em uma roda gigante.

Rimadora” foi a última composição desse disco, porém senti uma força tão incrível que coloquei ela pra abrir a passagem das outras músicas. A voz do começo é da Juliana Sete  (Omnira) e a produção e colagens do Dj RM. Enfim é uma homenagem pra todas as rimadoras!

BF: Em muitos momentos você fala sobre as dificuldades de ser uma mina preta, lésbica, periférica e MC de rap. Na prática, como você sente os impactos de tudo isso na sua carreira ?

Dory: Ao nascer em uma sociedade racista, homofóbica, machista e preconceituosa, a gente precisa estar no ataque e na defesa constantemente. E ainda fazendo rap militante, pense como é foda. Os espaços nem sempre são fáceis de estar. Eu tô no Rap desde que eu tinha 16 anos e infelizmente algumas dificuldades prevalecem, mano. A falta de cachê, falta de espaço em mídias maiores e grandes eventos, divulgação…  Eu não vivo da música então preciso me dividir entre fazer uns trabalhos por fora e cantar rap. Essa ainda é a realidade. Fico chateada por que acho que eu merecia estar em um patamar mais elevado. Porém nem todas tem a mesma oportunidade, ou sorte talvez … Por que tem muita gente sem talento aí, ganhando muito dinheiro e visibilidade. Falta de talento não é o meu problema com certeza! 

BF: Recentemente o youtuber Spartakus Santiago analisou a segunda temporada da série “Cara Gente Branca” destacando os estereótipos negros dentro da comunidade gay: o gay negro malhado que é valorizado por sua suposta virilidade, o gay negro afeminado e não bombado que é desvalorizado por não ter essa “virilidade”, assim como muitos gays brancos racista que não querem se relacionar com gays negros. Na sua visão, isso também acontece entre lésbicas? Como é isso?

Dory: Ah, com toda certeza acontece. Vejo pelas postagens das meninas nas redes sociais que principalmente as pretas gordas são as mais excluídas. E as pretas “padrão” ou “Tombamento” são a preferência da maioria. É óbvio que o racismo também se faz presente. Inclusive essa semana teve uma publicação totalmente desnecessária que deu um buchicho pesado. A menina branca e bissexual comentou que se intitulava “Maria Negão”, porém só ficava com homens pretos e não sentia atração por mulheres pretas. Tudo que acontece de um lado acontece do outro. E infelizmente ainda acontece muito preconceito no próprio meio!

BF:  Hoje, na comunidade LGBTI+, a gente observa o quanto aumentamos nossa sigla e reconhecemos várias orientações sexuais e identidades de gênero, mas raramente falamos sobre isso e focamos sempre apenas nos homens gays. Na sua visão, porque isso acontece? Existe alguma maneira de melhorarmos a visibilidade das mulheres lésbicas e bissexuais?

Dory: Acontece porque ainda existe um apagamento. Nem sempre todas as siglas são contempladas. Vejo pela Parada LGBTI+. Nas suas apresentações não vejo lésbicas se apresentando, principalmente periféricas. Fui em 3 e não me senti representada . E é assim em outros eventos também. Precisamos de mais pautas. Articular com eventos de grande visibilidade. Estar mais presente nas periferias, pois são os lugares onde mais precisamos estar. Não só na Avenida Paulista: a realidade aqui é outra!

BF: Cada vez mais, aqui em São Paulo, tem surgido saraus, slams e eventos de rap produzidos e frequentado por mulheres. E em muitos desses espaços rola um acolhimento muito legal não apenas a mulheres LGBTs como a homens gays e homens trans também. Para você, qual a importancia do surgimento desses espaços e dessa aliança entre mulheres e homens LGBTs?

Dory: Sim, tem crescido bastante . Fico feliz por isso estar acontecendo e dando voz e força pra quem sempre foi excluído, maltratado e tantas almas interrompidas. Esses eventos têm destacado vários nomes da sigla, dando a oportunidade de mostrar seu talento e expandir suas ideias e contar suas histórias sejam elas tristes ou alegres. Mostram a sua superação dia após dia. Ainda existe quem dissemina seu ódio, porém estamos mais forte do que nunca. Não vamos parar por aqui. É só a primeira temporada (risos).

BF:  Agora em junho nós comemoramos o mês do Orgulho LGBTI+, que é uma data importante para articularmos e repensarmos nossas lutas. Para você, quais devem ser as pautas que devemos priorizar hoje em nossa militância LGBTI+?

Dory: Orgulho? Pra quem? Talvez né. Acho que é mais um dia de reflexão. Não seremos livres enquanto os nossos ainda são oprimidos. Eu sou oprimida e estou lutando, mas e outros e outras? Muitos ainda decidem encerrar sua vida por que não aguentam mais. Somos crucificados pela Religião, Estado, Família, Sistema: por tudo a todo momento. A pauta que precisa ser levantada é: PAREM DE NOS MATAR. Lembra da Luana Barbosa? Lembra do menino que foi morto a facadas pela mãe? Da travesti assassinada? Da lésbica estuprada? Do menino expulso de casa? O casal LGBT expulso do restaurante? Lembram? Quem resolve isso? Quem fica com as feridas? Quem Cura? Quem sente? As oportunidades não são as mesmas e muito menos o tratamento é igual. Precisa ter mais empatia primeiramente entre nós, nos fortalecermos. Ter mais representantes nossos ocupando os espaços, fazer valer nossos direitos. Sabemos que somos odiados. Nos consideram doentes. Querem injetar uma merda de “Cura Gay ” na veia. Nós somos tudo que a sociedade rejeita, mas escolher viver já é um ato de CORAGEM e OUSADIA. Isso que quero levar adiante …

BF: Quais mensagens você gostaria de deixar para seus fãs e pessoas que acompanham seu trabalho?

Dory: Agradeço pelo carinho e respeito que sempre tem comigo. Por quem acompanha meu trabalho e leva como inspiração pra vida. Recebo várias mensagens e me sinto lisonjeada e emocionada. Aguardem novidades. Tem muito trabalho legal chegando inclusive com as temáticas LGBT+. Satisfação pelo espaço Bocada Forte. Seguimos … Muito obrigada!

-> Galeria de Fotos | Dory de Oliveira no programa Manos e Minas

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