Crespo MC | ‘Somos capazes de transformar nossa realidade’

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Entrevista por DJ Neew
Edição e diagramação por Noise D

José Luiz Barbosa, conhecido como CRESPO MC, reside na zona sul da cidade de São Paulo e tem uma carreira com forte influência musical dede o berço. Sua família, composta por músicos, o influenciou e o influência a agregar ao rap outras vertentes musicais.

O MC, de 31 anos de idade, fundou o grupo CASA DI CABOCLO, no qual chegou a lançar o álbum homônimo em 2007 e, em 2011, lançou o álbum Poético, Etílico e Ritmado. Depois disto a carreira solo veio com o EP Tarja Verde (ouça abaixo), onde o artista inovou na forma de trabalhar o álbum físico. Ao invés de um CD o EP veio numa caixa semelhante a um remédio, com um bula e dentro e um pequeno pen drive com as músicas. Já em seu último trabalho, intitulado MALDITO, (confira o vídeo making off da produção do disco abaixo)  Crespo traz rica musicalidade e milhares de referências cinematográficas e literárias.

Crespo MC trocou ideia com o BF e falou um pouco sobre sua carreira, seus trabalhos, seu ponto de vista político e sobre a atual cena do hip hop brasileiro. Confira!

Bocada Forte: Porque você decidiu fazer música e quais foram suas principais influências nessa decisão?

Crespo MC: Nasci em uma família musical, sou primo do Barão do Pandeiro (referência de choro no Brasil) que por sua vez é filho da Maria Helena Barbosa, pianista que acompanhou nomes como Augustinho dos Santos e Wilson Miranda. Além do meu pai que apesar de não viver de música fez o maior samba enredo de São Paulo do séc. XX, Embaixada de sonho e de bamba, campeão do carnaval de 1980 pela Mocidade Alegre. Acredito que esse berço me vocacionou, me fez respeitar, admirar e entender que música é missão. A partir daí tento não decepcionar os meus e seguir esse legado.

Ouça o álbum “Tarja Verde”:


Bocada Forte: Você fez parte do coletivo Casa Di Caboclo e depois decidiu seguir sua carreira solo, o que fez tomar decisão e o que mudou de la pra cá em sua maneira de fazer música?

Crespo MC: O Casa di Caboclo foi idealizado por mim. Comecei sozinho, mas como estava descobrindo minha maneira de fazer rap preferi não me expor individualmente logo de cara. Aí assinei com o Casa 1 e o Léo passou a produzir minhas canções e demos início ao coletivo. A partir daí montamos a banda, ganhamos alguns prêmios e tocamos pelo país até o Léo decidir que abandonaria a estrada e ficaria só no estúdio. Como só tinha sido produzido por ele decidi oficializar minha carreira solo e conhecer outros produtores. Meu jeito de fazer música continua o mesmo. Tenho descoberto recentemente que é bem peculiar. Acho que hoje se consome muita música, mas já não ouvimos com o mesmo carinho, parece que a música perdeu a aura! Antes pensávamos mil vezes antes de gravar, quando gravávamos os sons já estavam na rua. Eu continuo assim, acredito no conceito, gosto de álbum cheio e sou menos ligado ao lance audiovisual. Penso que toda essa parafernália tecnológica serve para mascarar a falta de conteúdo.

Bocada Forte: Em seu último trabalho denominado “Maldito” você trouxe diversas referências nas músicas, com nomes de livros clássicos como “Revolução dos Bichos” e “Mundo de Sofia” e até colagens de filmes como “Terra em Transe”. Conte nos como foi a ideia de fazer esse trabalho?

Crespo MC: Comecei minha carreira solo em parceria com aLeda. Eles financiaram o meu EP e eu desenvolvi toda campanha publicitária e o lançamento dos novos produtos deles, acontece que os investimentos pararam no meio, tive que conviver com a frustração de não ter dinheiro para fomentar tudo que esperava. Na ocasião fiz um trampo menos boom bap, com uma temática mais simples e assuntos menos densos para atingir esse novo público do rap. Acabei tendo a certeza que essa não é a minha e que definitivamente não faço música de massa. Fui parar na Beatwise, onde o Cesinha (Cesrv) entendeu o que eu queria e disse que se eu desenvolvesse um conceito pra esse trampo produziria meu novo disco. Decidi assumir o underground e busquei no lado B das vertentes meus samplers. De certa maneira já fazia isso desde o Casa di caboclo, mas nesse disco evidenciei essa parada! Aprendi a ouvir rap como uma caça aos tesouros, gosto de procurar os artistas que os MCs citam e de correr atrás das originais que os beatmakers sampleiam, pra mim a magia da nossa cultura tá aí. Um moleque que gosta só de rap por ser um gênero que dialoga melhor com o seu tempo pode descobrir um monte de coisa maravilhosa se for curioso, se procurar ler além da capa. Quero que cada palavra da minha música, desde o título até as colagens possam dizer alguma coisa pra quem escuta, por isso as referências de livros e filmes nos títulos.

Be Young, Crespo MC e DJ Revolution

Bocada Forte: Como surgiu a oportunidade e como foi trabalhar com o DJ Revolution e o Be Young nos Estados Unidos?

Crespo MC: O Rudah Ribeiro me convidou pra gravar uma coletânea que o DJ Revolution tava fazendo pra Red Bull. Acabou que estava bastante inspirado e gravei uma música que o Revolution gostou muito. A partir daí começamos a conversar e combinar uma maneira de trabalharmos juntos. Como gravar o disco todo com ele seria inviável, mantivemos a ideia inicial do disco com o Cesrv e com o DJ Abud e para o Revolution ficou a parte de finalização e scratchs. Fui pra lá acompanhar esse processo e me aproximei do Be Young, que já tinha feito alguns trabalhos com o Rudah. Também quando o Pac Div veio para o Brasil, a parceria deu liga e ele acabou entrando no disco.

Bocada Forte: Suas música contém também algumas críticas. Como você analisa o atual cenário político e social do Brasil e como podemos atuar para uma real mudança?

Crespo MC: O Brasil sempre foi racista e excludente. Durante os governos do PT pela primeira vez na história repartimos um pouco mais e parece que esse pouco incomodou bastante os velhos Coronéis. É parte da função do rap, como música do povo e combativa, denunciar essa parada como sempre fez. Se vai haver mudança real ou não, só o tempo vai dizer. O que eu sei é que temos que acreditar que somos capazes de transformar nossa realidade. Que o que o Racionais falava lá atrás ajudou a formar essa geração que elegeu um governo popular e que finalmente trouxe alguns avanços. Que os discos do Planet Hemp ajudaram a quebrar o tabu em torno da maconha e que agora que vivemos um retrocesso precisamos politizar ainda mais o nosso discurso para que o futuro possa ser melhor.

Bocada Forte: Diss, reactions, punch lines, como você vê o atual momento do rap brasileiro?

Crespo MC: Sou meio homem das cavernas. Procuro ficar alheio às formas e focar no conteúdo. Respeito essa cultura de confronto e sei que faz parte do DNA do rap. Só que Diss não é pra mim. Acho que temos muita coisa pra falar ao invés de perdermos tempo falando do outro. A nova geração evoluiu tecnicamente porque tem mais referências de rap e acesso a mais coisas, porém esse lance mercadológico empobreceu o discurso . Tenho esperança que isso seja cíclico e que em breve saibamos casar o melhor dos dois mundos.

Bocada Forte: Fale de seus próximos projetos, próximos trabalhos que estão por vir.

Crespo MC: O Maldito é um projeto de longo prazo e meu futuro está ligado aos desdobramentos dele mesmo. Ainda tem muita gente esquecida aí pra gente homenagear, por isso muita lenha ainda pra queimar em torno desse tema. A intenção é tornar a coisa toda cada vez mais cênica e cinematográfica e é nessa linha e nesse universo que eu me sinto bem e vejo o meu futuro.

Ouça o álbum “Maldito” na íntegra:

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