Corres da pandemia (parte 3)

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Não adianta dizer ‘Deus acima de tudo’ e colocar o povo abaixo da linha de miséria” (Júlio Lancellotti)

Diante de uma pandemia sem precedentes na história recente e um (des)governo desastroso, que só fez aumentarem o desemprego e a inflação, o resultado não poderia ser outro. O Brasil voltou a figurar no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) e o noticiário recente tem mostrado o desespero de famílias que mal conseguem se alimentar com carcaça de frango, sopa de osso, fragmentos de arroz ou até restos garimpados no lixo.

Esse aumento do número de miseráveis e a inoperância das autoridades políticas ante tal cenário desolador têm motivado artistas, ativistas e outras lideranças a intensificar as ações sociais a fim de tentar amenizar os efeitos dessa crise. Empatia e solidariedade, aliás, são valores que sempre nortearam as ações de muitos agentes da cultura hip-hop.

Nesta reportagem especial “Corres da pandemia”, dividida em três partes, o Bocada Forte apresenta algumas dessas ações sociais emergenciais. Esta série, que já mostrou ações promovidas pelo rapper Japão (Viela 17) e pelo grupo paulista Realidade Cruel, se encerra com o padre Júlio Lancellotti, referência internacional na defesa dos direitos humanos e mais “hip-hopper” do que muitos que dizem ser…

Júlio Lancellotti. Foto: Assessoria de Imprensa

Júlio Lancellotti: referência na defesa dos direitos humanos e sociais

Ele se tornou referência nacional na defesa dos direitos humanos e sociais e, por conta de sua atuação – sobretudo junto a moradores de rua -, incomoda e é criticado por muitas pessoas que se dizem “cristãs”, mas não possuem o mesmo tipo de empatia e sensibilidade social. Mesmo aos 73 anos (completados em 27 de dezembro passado), o padre Júlio Lancellotti é incansável em sua luta, em tempo integral, para suprir pessoas em situação de vulnerabilidade com alimentos, roupas e produtos de higiene, entre outros artigos de necessidade básica – além de muita atenção, amor e respeito.

Júlio Lancellotti. Foto: Assessoria de Imprensa

Por meio de seu Instagram pessoal, é possível acompanhar a rotina do religioso que, diariamente, alimenta, conforta e resgata a autoestima de moradores de rua em São Paulo. Pedagogo por formação, o presbítero católico, que está à frente da paróquia de São Miguel Arcanjo, em São Paulo, desenvolve tais ações sociais há mais de 30 anos.

Recentemente, Lancellotti sofreu ataques, nas redes sociais, do presidente Jair Bolsonaro e da deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), devido ao fato de distribuir alimentos na região da Cracolândia, em São Paulo. Em postagem em sua conta no Twitter, a deputada escreveu que “a distribuição de comida na Cracolândia só ajuda o crime”. A postagem, porém, surtiu efeito contrário: segundo o pároco, a polêmica só fez aumentar o número de doações recebidas por seu projeto.

Contrariedades à parte, o padre também recebe diversos reconhecimentos públicos. Em 2004, o Movimento Nacional de Direitos Humanos lhe concedeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos e, no mesmo ano, a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo ganhou o Prêmio Nacional de Direitos Humanos. E, entre outros prêmios, neste ano ele foi condecorado com o Prêmio Zilda Arns pela Defesa e Promoção dos Direitos da Pessoa Idosa, da Câmara dos Deputados, em reconhecimento ao seu trabalho em benefício da população em situação de rua.

Na contramão de muitos católicos, inclusive, Lancellotti também é contrário à homofobia e defensor das causas LGBTQIA+, o que também lhe rendeu a premiação, por voto popular, do Prêmio Poc Awards na categoria “Influencer do Ano” de 2020. “Eu apoio as causas LGBTQIA+, assim como a luta do povo indígena, e sou contra o genocídio da juventude negra. Eu sempre vou estar do lado que está perdendo”, afirma.

Júlio Lancellotti. Foto: Assessoria de Imprensa

Apesar de todo o reconhecimento, o religioso não se vê como influenciador. “A internet faz com que você se destaque, mas também pode atrapalhar. Quando me posiciono sobre certos assuntos, como por exemplo ao falar sobre as mulheres trans ou sobre Paulo Freire, como fiz no Instagram, perco seguidores. Algumas pessoas até deixam de contribuir com doações”, explica.

Júlio Lancellotti. Foto: Assessoria de Imprensa

Recentemente, Lancellotti tem denunciado diversas situações da chamada “aporofobia”, palavra definida como “repúdio, aversão ou desprezo pelos pobres ou desfavorecidos; hostilidade para com pessoas em situação de pobreza ou miséria”. Em tais postagens, ele costuma publicar fotos ou vídeos de situações que o incomodam, como a instalação de obstáculos, em marquises e espaços públicos ou privados, para que moradores de rua não possam ocupá-los.

Em fevereiro de 2021, inclusive, ele foi pessoalmente retirar, a marretadas, pedras que tinham sido colocadas pela Prefeitura de São Paulo – na época, gerida pelo falecido prefeito Bruno Covas (PSDB) – sob viadutos da zona leste de São Paulo. A repercussão motivou que a própria Prefeitura retirasse os obstáculos, sob a alegação de ter aquela ter sido uma “iniciativa isolada” de um funcionário – que teria sido exonerado.

Mesmo em meio a “guerras” diárias para ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade e se esquivar de quem o combate, o padre encontrou tempo para conversar com o Bocada Forte.

Bocada Forte (BF): Como os pedidos de ajuda chegam? E, para atendê-las, o senhor conta com parcerias – se sim, quais são elas?

Júlio Lancellotti (JL): Recebo pedidos por meio do meu Instagram. São muitas mensagens, diariamente, e assim tento atender ao máximo de solicitações possíveis. Existem algumas pastorais que ajudam, mas majoritariamente as ações são desenvolvidas graças a doações, sejam elas de alimentos, ou via Pix.

BF: Desde o início da pandemia, o sr. presenciou alguma situação que o impactou mais?

JL: Houve uma situação recente, em uma avenida de São Paulo, em que dois jovens que não se conheciam já estavam vagando por ali havia alguns dias. Por alguma circunstância, eles se encontraram e caminhavam juntos. Prestando assistência a eles, que passaram uma madrugada gelada na rua apenas com as roupas do corpo, soube que eles estavam vendendo balas no farol, mas as mercadorias foram tomadas. Ofereci alimento, banho e algumas roupas. Mas, de longe, percebi que eles estavam na rua, mas não pertenciam a ela. Isso reforça que ninguém está na rua porque quer. As pessoas vão parar nas ruas por falta de opção.

BF: Quais são as maiores dificuldades que o sr. encontra para realizar estas ações?

JL: A dificuldade é realizar a ação em si. Às vezes, falta o entendimento das pessoas, pois ninguém está na rua porque quer, está na rua por falta de opção. A pandemia só agravou um problema social que já tínhamos. Devido à falta de emprego, muita gente foi para as ruas, mas nem todo mundo que está nela tem vivência, sabe como se defender, onde tomar banho ou como conseguir um alimento.

Júlio Lancellotti. Foto: Assessoria de Imprensa

BF: Como o sr. vê os ataques que recebeu de lideranças políticas, e até mesmo de cidadãos que poderiam prestar alguma assistência às pessoas mais necessitadas, mas preferem empregar sua energia contra a empatia e a solidariedade?

JL: Com a polarização política, com as falas dos governantes, não me surpreende a identificação de uma parcela da população. E não acredito que essas pessoas mudaram sua linha de raciocínio, elas apenas tiraram suas máscaras, movidas pelas falas de quem está no poder.

BF: Defensor das minorias, como o senhor enxerga o protesto realizado contra a estátua do bandeirante Borba Gato? O senhor acredita que as pessoas que defendem a continuidade deste símbolo conhecem a história por trás dele?

JL: Sim, as pessoas sabem. Tem empresários que se ofereceram para arcar com a reforma da estátua, mesmo cientes de quem foi o homenageado. E são essas pessoas que não se dispõem a ajudar os que estão mais necessitados.

BF: O sr. acredita que, neste contexto de pandemia, as pessoas tenham se tornado mais solidárias com o próximo?

JL: Depende. Tem pessoas que disponibilizam em frente ao seu estabelecimento água e alimento para os cachorros que estão passeando ou na rua, e isso é muito importante também. Mas esses mesmos estabelecimentos não permitem que um morador de rua entre, que beba água. Às vezes, a forma como as pessoas se solidarizam pode ser seletiva.

BF: Qual é o seu posicionamento político diante da atual situação do país?

JL: Eu conheço pretos, mulheres trans e homossexuais de direita, e que se mantêm assim mesmo com ideologias opostas. Respeito a posição política de todos, mas sempre estarei ao lado que está perdendo.

Quer contribuir com os projetos do padre Júlio Lancellotti?

Pastoral do Povo da Rua
Rua Djalma Dutra, 3 – Luz – São Paulo (SP)
Telefone: (11) 3106-5531

Paróquia de São Miguel Arcanjo
Banco Bradesco
Agência 0299 – Conta Corrente 034857-0

Doações via Pix: CNPJ 63.089.825/0097-96

Instagram: https://www.instagram.com/padrejulio.lancellotti

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