Camila Rocha, suas rimas, suas armas

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Por: Raphael Mello

Camila Rocha é uma MC nordestina que vem chamando minha atenção a cerca de um ano aproximadamente. Dona de um flow diferenciado e de letras que fogem do padrão atual, Camila lançou recentemente o seu EP intitulado Poesias Recortadas. Residente na cidade de João Pessoa, capital da Paraíba, essa mulher, mãe e MC surgiu fora do eixo Rio-São Paulo e chama com orgulho o seu rap de indie rap, um som carregado de sotaque paraibano e inovações psicodélicas. Confiram abaixo o bate- papo que tive com essa mulher porreta.

Bocada Forte: Camila, de onde você é? Fale um pouco sobre sua origem.
Camila Rocha:
Sou da Paraíba, da Serra da Borborema, de onde saiu vários artistas conhecidos no Brasil todo., mais especificamente Campina Grande, o maior São João do mundo. Minha família veio do sertão, povo bom e guerreiro.

Bocada Forte: Por que o rap? Como conheceu esse nosso elemento?
Camila Rocha:
Conheço desde a adolescência, mas jamais imaginei entrar para o meio. Desde muito pequena eu já escrevia e fazia algumas musiquinhas. Em 2007, entrei em contato por meio do Dumatu, com o REP underground. Aí foi paixão à primeira vista. Conheci por meio de alguns nomes que foram minha escola (com muito orgulho).

Foram: Nelson GNZ e Matéria Prima, de Minas, Dino T-rex, de RJ, Contra Fluxo, de SP, sem contar na velha guarda da Paraíba, o Projeto Binário composto por Dumatu TCC Frequenciazero, Pleiade MC e Znokmorb, Inquilinus, de PE, que era composto também por este que me entrevista. (Raphael Mello), juntamente com Gustavo Pontual, grande influência, e também as maravilhosas Afronordestinas, mulheres de referência pra mim até hoje.

Bocada Forte: Como começou a rimar? Faz tempo? Fala um pouco sobre isso.
Camila Rocha: Comecei desde pequena, como já disse. Em 2010, Dumatu me deu a chance de rimar numa track com minha primeira música “Calmamente entrelinas”.

Bocada Forte : Você lançou recentemente o EP Poesias Recortadas. Quem produziu? De quem são os beats?
Camila Rocha: Sim, passei o ano de 2014 inteiro produzindo oito faixas, das quais sete entraram no EP, que foi produzido e lançado com maestria pelo selo Dumatu Records, pelas mãos, ouvidos e sensibilidade do Dumatu. Os beats foram presente de amigos maravilhosos que a vida me trouxe: ATN Beats (Athyrson Andrade-PB), F2L (Fellipe Dantas-RJ), Dabliueme (Márcio Silva-SP) e do próprio Dumatu (PB). A terceira faixa foi produzida pelo Velvo (Rafael Schumacker- MG/Mainz), pra deixar meu orgulho mais inflado ainda. As participações foram perfeitas: Issa Paz, Nelson GNZ , Dabliueme e Dumatu rimando nas trecks comigo, nada mais lindo!

Bocada Forte : Como é trabalhar com Dumatu?
Camila Rocha: Trabalhar com Dumatu é uma honra e um privilégio. Além de um ouvido santo, ele é de uma paciência e sensibilidade ímpares. A Dumatu Records é um selo premiado nacionalmente inclusive. Está na estrada há quase vinte anos, o que significa que o Dumatu está ficando velhinho (risos).

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Bocada Forte: O que você tem escutado ultimamente?
Camila Rocha: Tenho escutado Nação Zumbi, muito mesmo, tipo MUITO! Estudando sua estrutura rimática e seus vocais mágicos. Como nordestinos, são a fonte que bebo em largos goles, sem moderação. A cubana Danay Suárez também está nos fones, junto com o Yuri Sfair do Paraná, MC que foi um grande achado e que logo, logo,  vai estar estourando, tenho certeza. Tenho aprendido muito com ele. Dabliueme tem lugar cativo na minha playlist, com certeza. Ele é muito solto, muito envolvente, e tem idéias consistentes, me identifico. Engrenagem Urbana, Engenheiros do Hawaii (sim…também resgato muita coisa), o CDnovo da Gal, Estratosférica, tem sido uma bússola. Indigente MC e Yanick Porto (SHAZAN) compõem a lista também do rep que mais sequelo…todo dia. Miranda Kassin, Asha, Selah Sue, F.U.R.T.O e Elo da Corrente, que foi a base do Poesias Recortadas…salve ELO! AAAFFF muita gente boa.

Bocada forte: Quando poderemos ver uma apresentação sua aqui pelo sudeste?
Camila Rocha: Quando me chamarem (risos), brincadeiras a parte, to me programando com alguns produtores, mas agora to reestruturando meu show com DJ novo e novas ideias de formato. O DJ Maluco, velha escola, muita honra trabalhar com ele. Salve Luciano Maluco!

Bocada forte: Tenho escutado muito de vocês aí de cima na Paraíba sobre Indie Rap. O que seria indie rap?
Camila Rocha: Indie REP seria. Ritmo e poesia Independente.

Bocada forte: Você pode citar alguns MCs aí do nordeste que em sua opinião merecem uma atenção do publico do rap nacional?
Camila Rocha: Sim, claro! Indigente MC (meu menino que tanto amo), Dumatu, o Preto Alysson, Kmc ( Carlinhos do Abiarap. Aliás, o Abiarap é massa e tem a Preta Lange fechosa. Também tem o Júnior MC, Wildson Mc, Afronosdestinas, Arielly AriJáh, Menestréis, Pleiade MC, Carolina Rebouças, Zaca de Chagas, Atômico MC. Poxa! Vai faltar gente e vão me matar por isso (risos).

Bocada forte: Quais são suas influências no rap?
Camila Rocha: Elo da Corrente, Matéria Prima, Zimun, Aji Panca, Dino T-Rex, Issa Paz, Sara Donato, Dory de Oliveira, Lívia Cruz, BrisaFlow, Barbara Sweet, Afronordestinas, U-flow, Marechal, F2L, Juliana SET, Shazan, Bnegão, kamau, Black Alien, King Trip, Anselmo Nômades, Mari Duarte. Vixi, não dá pra citar todas as referências, já me sinto injusta. Tenho referências da velha e da nova escola, sem preconceitos, gosto de ideia bem elaborada, só isso.

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Bocada forte: To ligado que você é mãe, tem quantos filhos? Como eles reagem em saber que a mãe é uma MC?
Camila Rocha: Sim, sou mãe de três adolescentes: o Lucas, de 15, o Fábio, de 13, e o Cauã, de 11. Acho que eles preferem que eu seja mais normal (risos).

Bocada forte: Vejo que suas letras são bem poéticas. Você lê muita poesia? Cita alguns poetas que curte.
Camila Rocha: Ahhhhh….Fernando Pessoa e todas os seus personagens encabeça a lista, sem dúvidas. O conheci na infância, meu pai me deu este presente além de outros também, grande músico sempre preocupado com nosso desenvolvimento artístico. Augusto dos Anjos é meu padroeiro (risos). Neruda, Clarice Linspector, Paulo Leminski, Manoel de Barros (amo, amo, amo) e por ai vai, senão não paro nunca mais.

Bocada Forte : Obrigado pela entrevista. Deixa o seu salve.
Camila Rocha: Um salve a todas as mulheres que transformam suas dores em luta, que não se contentam, que não se submetem e, se o fazem, arrumam forças sei lá de onde pra se libertarem. A todas as mães que conseguem enxergar para além de suas culpas e obrigações, a todas a trabalhadoras urbanas que ganham menos que homens e trabalham mais, a todas as mulheres do campos que labutam debaixo de sol e não perdem a ternura, a todas as mulheres que foram abusadas, subestimadas. A todas as mulheres, minhas irmãs, que entenderam que não somos competidoras, somos colaboradoras. Um beijo em todas vocês. Um salve para os homens que estão começando a entender também, vamos juntos hermanos! Salve salve!

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